AE 559

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. (Vers. 10) “E tinham caudas semelhantes à de escorpiões”. Que isto signifique os conhecimentos sensuais que são persuasivos vê-se pela significação de ‘caudas’, que são os conhecimentos sensuais, de que se tratará a seguir; e pela significação de ‘escorpiões’, que são os persuasivos que ensandecem e sufocam (de que se tratou acima, n. 544). Daí, ‘caudas semelhantes à de escorpiões’ significam os conhecimentos sensuais que são persuasivos. Que as ‘caudas’ signifiquem os conhecimentos sensuais é porque as caudas que se alongam nos animais terrestres são continuações da espinha dorsal que se chama medula espinal, e esta é uma continuação do cérebro, e pelo ‘cérebro’ são significadas a inteligência e a sabedoria, semelhantemente ao que é significado pela ‘cabeça’, pelo fato de aí a inteligência e a sabedoria residirem em seus princípios. E como as caudas são os seus últimos, por isso elas significam os conhecimentos sensuais, pois estes são os últimos da inteligência e da sabedoria.
[2] Os conhecimentos sensuais são os conhecimentos que do mundo entram pelos cinco sentidos do corpo, e, daí, considerados em si mesmos, são mais materiais, corpóreos e mundanos que os interiores. Todos os que estão no amor de si e se confirmaram contra as coisas Divinas e espirituais são homens sensuais, e quando entregues a si mesmo e pensam em seu espírito, pensam nas coisas Divinas e espirituais a partir dos conhecimentos sensuais; daí é que rejeitam as coisas Divinas e espirituais como coisas em que não se deve crer, porque não veem com os olhos nem tocam com as mãos, e para destruí-las aplicam os seus conhecimentos, os quais fizeram sensuais e materiais. Sejam, por exemplo, do gênero erudito, os que conhecem física, anatomia e botânica, e várias outras que pertencem à erudição humana. Quando eles veem as maravilhas que há no reino animal e no reino vegetal, dizem de coração todas elas vêm da natureza e não do Divino, e isto em razão de não crerem senão no que veem com os olhos e tocam com as mãos. Com efeito, esses não podem elevar mais alto as suas mentes e assim verem tais coisas pela luz do céu, pois essa luz pra eles é escuridão, mas detêm as mentes nas coisas terrestres, quase semelhantemente a animais da terra, com os quais até se comparam. Em suma, nesses todos os conhecimentos se tornaram sensuais, pois qual é o homem mesmo, tais são todas as coisas que são de seu entendimento e de sua vontade. Se for homem espiritual, todas as coisas se tornam espirituais; se for homem natural, todas as coisas se tornam naturais e não espirituais; se for homem sensual, todas as coisas se tornam sensuais, e isto por mais que tenham parecido eruditos e instruídos perante o mundo. Como, porém, todo homem tem a faculdade de entender os veros e perceber os bens, eles podem, por essa faculdade, falar como se fossem racionais espirituais, mas são, todavia, sensuais quanto ao espírito, pois esses, quando falam perante o mundo, pois falam não pelo espírito, mas pela memória do corpo.
[3] Essas coisas foram mencionadas para que saiba o que são os conhecimentos sensuais. Que sejam estes que mais persuadem, ou que sejam mais persuasivos, é porque são os últimos do entendimento, pois o entendimento termina neles como em seus últimos, os quais cativam o vulgo, por serem aparências por coisas tais que veem no mundo pelos olhos. E quanto o pensamento está preso nelas, a mente não pode se dispor para pensar interiormente ou acima delas, antes que elas sejam removidas, pois os interiores que são da mente terminam todas nos últimos e neles se apoiam, como uma casa em seu alicerce. Por isso é que persuadem tanto, mas somente aqueles cuja mente não pode ser elevada acima das coisas sensuais, e a mente é elevada acima delas naqueles que estão na luz do céu desde o Senhor, e a luz do céu as dissipa. Assim, os homens espirituais raramente pensam pelas coisas sensuais, pois pensam pelas coisas racionais e intelectuais, enquanto os homens sensuais, que se confirmaram nos falsos contra as coisas Divinas e espirituais, quando entregues a si mesmos, não pensam senão pelas sensuais.
[4] Que as ‘caudas’ signifiquem os conhecimentos sensuais pode-se ver pelas passagens que se seguem. Em Isaías:
“Jehovah cortará de Israel a cabeça e a cauda, o ramo e o junco... o velho e o honrado, a cabeça, mas o profeta, instrutor de mentiras, é a cauda” (Is. 9:14, 15).
Por essas palavras entende-se que hão de perecer toda inteligência, toda sabedoria e todo conhecimento do vero; pela ‘cabeça’ é significada a inteligência e a sabedoria, pelo que se diz ‘o velho e o honrado, a cabeça’, pois ‘velho’ significa a inteligência do vero, e ‘honrado’ a sabedoria do bem; por ‘cauda’, porém, é significado o conhecimento sensual, que é o último da inteligência e da sabedoria. Este, quando não é conjunto à inteligência espiritual, torna-se conhecimento falso, ou conhecimento aplicado para confirmar o falso, que é o conhecimento sensual, tal como tem o homem que nada vê com o entendimento. Daí é que o ‘profeta, instrutor de mentiras’, é chamado ‘cauda’, pois pelo ‘profeta’ é significada a doutrina do vero e, daí, o conhecimento do vero; aqui, porém, é a doutrina e o falso do mal, pois ‘mentira’ significa o falso, e ‘instrutor de mentiras’ é o que ensina o falso aplicando os conhecimentos do sentido da letra da Palavra para confirmar os falsos.
[5] No mesmo:
“Não haverá no Egito obra que faça cabeça e cauda, ramo e junco” (Is. 19:15);
pelo 'Egito' é significado o conhecimento, tanto das coisas espirituais quanto das naturais; que ‘não haja ali obra que faça cabeça e cauda’ significa que não terá as coisas espirituais nem as naturais que confirmam as espirituais; ‘cabeça’ significa aí as cognições espirituais pelas quais há inteligência, e ‘cauda’ os conhecimentos naturais que servem de inteligência às espirituais. Coisas semelhantes são significadas por ‘ramo e junco’; por ‘ramo’, o vero espiritual, e por ‘junco’ o conhecimento sensual, que é o vero último, pois se o anterior e o posterior, ou o primeiro e o último, não fizeram um no homem, ele não terá ‘cabeça e cauda’.
[6] Em Moisés:
“Assim Jehovah te fará por cabeça, e não por cauda, para que estejais somente em cima, mas não estejais embaixo, quando obedeceres os preceitos de teu Deus” (Dt. 28:13);
‘fazer por cabeça’ é fazer espiritual e inteligente, de que modo a ser elevado da luz do mundo à luz do céu; e ‘fazer por cauda’ é fazer sensual e estulto, de modo a não visar o céu, mas o mundo, pelo que se diz: ‘para que estejais somente em cima, mas não embaixo’; ‘estar em cima’ é ser elevado pelo Senhor para visar o céu, e ‘estar embaixo’ é não ser elevado pelo Senhor, mas por si mesmo, e por si o homem visa somente o mundo. Porque os interiores do homem, que são de seu pensamento e sua afeição, são elevados ao céu acima pelo Senhor quando o homem está no bem da vida e, daí, nos veros da doutrina; se, porém, estiver no mal da vida e, daí, nos falsos, então os seus inferiores olham para baixo, portanto, somente para o seu corpo e para as coisas que estão no mundo, por conseguinte, para o inferno. Daí ele se despe da natureza verdadeiramente humana e reveste da natureza ferina, pois as feras olhas para baixo e somente para coisas que se encontram no mundo e sobre a terra. A elevação à luz do céu pelo Senhor é uma elevação real dos interiores do homem até o Senhor, e o abaixamento ou queda para que as coisas que estão abaixo e fora dos olhos é um abaixamento e uma queda reais, e quando elas ocorrem, então todo o pensamento do espírito é imerso no último sensual.
[7] No mesmo:
“O peregrine que está no meio de ti subirá acima de ti mais e mais, mas tu descerás abaixo mais e mais; ele te emprestará, mas tu não lhe emprestarás; ele será por cabeça, mas tu serás por cauda” (Dt. 28:43, 44).
Essas coisas devem ser entendidas de modo semelhante. ‘Ser por cabeça’ significa ser espiritual e inteligente, e ‘ser por cauda’ é ser sensual e estulto, pelo que também é dito que ‘ele te emprestará, e não tu a ele’, pelo que é significado que ele te ensinará os veros, mas não tu a ele.
[8] Em Isaías:
“Dize a ele: Acautela-te e aquieta-te, não temas, e teu coração [não] se amoleça por causa das duas caudas de tições fumegantes, por causa do abrasamento de Rezim e da Síria, e do filho de Remalias” (Is. 7:4);
por ‘Rezim e Síria’ é significado o racional pervertido, e por ‘filho de Remalias’, o rei de Israel, que também é chamado ‘Efraim’, o intelectual pervertido. O intelectual que o ‘rei de Israel’ e ‘Efraim’ significam é quanto à Palavra, e o racional que ‘Rezim’ e ‘Síria’ significam é quanto aos conhecimentos que confirmam, pois o homem, para que tenha entendimento da Palavra, deve ter também o racional. Quando essas duas coisas são pervertidas, olham somente para baixo e a terra, e para fora e o mundo, como fazem os sensuais que estão nos falsos do mal, pelo que são chamados ‘caudas’. ‘Tição fumegante’ significa a concupiscência do mal e, daí, o abrasamento contra os veros e bens da igreja.
[9] Em Moisés:
“Disse Jehovah a Moisés: Estende a tua mão e pega a cauda da serpente; e estendeu a sua mão e a pegou, e tornou-se um cajado na palma de sua mão” (Êx. 4:3, 4).
Que aqui, também, pela ‘cauda’ se entenda o sensual que é o último natural vê-se nos Arcanos Celestes (n. 6951-6955). Como pelas ‘caudas’ são significados os últimos da inteligência e da sabedoria, que são os conhecimentos sensuais, e como todos os processos acerca dos sacrifícios significavam coisas Divinas celestes e espirituais, por isso também
Foi ordenado que removessem a cauda junto à espinha dorsal, e também a sacrificassem, junto com as demais coisas que são mencionadas (Lv. 3:9; 8:25; 9:19; Êx. 29:22).
(Que os holocaustos e sacrifícios tenham significado coisas Divinas celestes e espirituais, que são os internos da igreja, das quais procede o culto, vê-se nos Arcanos Celestes, n. 2180, 2805, 2807, 3830, 3519, 6905 e 8936.) Como pelas ‘caudas’ são significados os conhecimentos sensuais que, quando são separados dos interiores que são espirituais, por conseguinte, quando não olham para dentro e para cima, com os interiores, mas para fora e para baixo, significam os falsos confirmados por conhecimentos, por isso também nas seguintes passagens no Apocalipse, onde se trata dos falsos dessa origem, se diz
Que as caudas dos cavalos que foram vistos em visão eram semelhantes a serpentes, tendo cabeças com que causavam dano (Ap. 9:19);
e, depois,
Que o dragão, com sua cauda, arrastou a terça parte das estrelas do céu, e lançou na terra (Ap. 12:3, 4),
que se veem explicadas abaixo.

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