AE 585

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E não fizeram penitência das obras de suas mãos”. Que isto signifique que não se desviaram ativamente de coisas tais que vêm do proprium vê-se pela significação de ‘fazer penitência’, que é desviar-se ativamente do mal (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘obras de suas mãos’, que são as coisas tais que o homem pensa, quer e faz pelo proprium. Que elas sejam significadas pelas ‘obras das mãos’ ver-se-á pelas passagens na Palavra que se seguem e, depois, pelo fato de as ‘obras’ são as coisas que são da vontade e do entendimento daí, ou que são do amor e da fé daí (vide acima, n. 98), e também pelo fato de que as ‘mãos’ significam o próprio poder, assim também, tudo o provém do proprium do homem.
[2] No que concerne ao proprium do homem, cumpre saber que isto não é senão o mal e o falso daí. O proprium voluntário é o mal, e o proprium intelectual é o falso daí. Esse proprium o homem deriva principalmente dos pais, avôs e bisavôs numa série retroativa, a ponto de finalmente o hereditário, que é o seu proprium, não ser outra coisa senão o mal sucessivamente acumulado e condensado, pois todo homem nasce em dois amores diabólicos, a saber, no amor de si e no amor do mundo, amores dos quais todos os males e os falsos daí brotam como de suas fontes. E visto que o homem nasce nesses amores, também nasce em males de todo gênero (a cujo respeito se veem muitas coisas na obra Doutrina da Nova Jerusalém, n. 65-83).
[3] Como o homem é tal quanto ao seu proprium, por isso lhe são dados, pela Divina misericórdia do Senhor, meios pelos quais pode ser removido de seu proprium. Esses meios foram dados na Palavra, e quando o homem age por esses meios, isto é, quando pensa e fala, quer e faz pela Palavra Divina, então é mantido nos Divinos pelo Senhor e assim é afastado do proprium. E quando isto continua, forma-se no homem pelo Senhor como que um novo proprium, tanto voluntário quanto intelectual, que é inteiramente separado do proprium do homem. Assim o homem se torna como que criado de novo. Isto se chama sua reforma e regeneração pelos veros da Palavra e por uma vida segundo ela. (Sobre este assunto, porém, vide a Doutrina da Nova Jerusalém, nos artigos a respeito da remissão dos pecados, n. 159-172, e da regeneração, n. 173-186). Que fazer penitência seja afastar-se ativamente dos males é porque cada homem é tal qual é a sua vida, e a vida do homem consiste principalmente em querer e, daí, fazer. Disso se segue que a penitência que é somente do pensamento e, daí, da boca, e não ao mesmo tempo da vontade e, daí, do ato, não é penitência, porque assim a vida para ele permanece depois como foi antes. Daí é evidente que fazer penitência é afastar-se ativamente dos males e entrar numa vida nova. (Sobre este assunto, também, vide a Doutrina da Nova Jerusalém, n. 159-172).
[4] Que as ‘obras das mãos’ signifiquem coisas tais que o homem pensa, quer e faz pelo proprium, pode-se ver pelas seguintes passagens na Palavra. Em Jeremias:
“Para que não Me provoqueis à ira pela obra de vossas mãos, para que Eu não vos faça mal. Mas não Me obedecestes... para Me provocares à ira pela obra de vossas mãos, para vosso mal. ... Muitas nações e grandes reis os farão servir, para que Eu retribua segundo as suas obras, e segundo os feitos de suas mãos” (Jr. 25:6, 7, 14);
pela ‘obra’ e pelo ‘feito das mãos’, num sentido próximo, entendem-se as imagens de fundição e os ídolos, mas, no sentido espiritual, pela ‘obra das mãos’ é significado todo mal e falso que vem do amor próprio e da própria inteligência; por ‘imagens de fundição e ídolos’, que são chamados ‘obras das mãos, são significadas também coisas tais como se verá na sequência, onde se trata da significação de ‘ídolos’. Visto que o proprium do homem não é outra coisa senão o mal, assim, contra o Divino, por isso se diz: ‘para que não Me provoqueis à ira pela obra de vossas mãos, para que eu não vos faça mal; ‘provocar deus à ira’ significa ser contra Ele, donde há o mal para o homem. E como todos os males e falsos são provenientes do proprium do homem, por isso se diz: ‘Muitas nações e grandes reis os farão servir’, pelo que é significado que haviam de ocupá-los os males de que vêm os falsos e os falsos de vêm os males; ‘muitas nações’ são os males de que vêm os falsos, e ‘grandes reis’ são os falsos de que vêm os males.
[5] No mesmo:
“Os filhos de Israel... provocaram-Me à ira pela obra de suas mãos” (Jr. 32:30);
e, no mesmo:
“Provocais-Me à ira pela obra de vossas mãos, oferecendo incenso a outros deuses na terra do Egito” (Jr. 44:8);
aqui, pelas ‘obras de suas mãos’, entende-se no sentido espiritual o culto oriundo dos falsos da doutrina que vem da própria inteligência; esse culto é significado por ‘oferecer incenso a outros deuses na terra do Egito’, pois ‘oferecer incenso’ significa o culto, ‘outros deuses’ significa são os falsos da doutrina e a ‘terra do Egito’ o natural em que reside o proprium do homem e, assim, donde vem a própria inteligência. Assim esta Palavra é entendida no céu.
[6] No mesmo:
“Falareis meus juízos com eles sobre toda a malícia deles, por Me terem abandonado e oferecido incenso a outros deles, e terem se curvado às obras de suas mãos” (Jr. 1:16);
por ‘oferecer incenso a outros deuses’ é significado, aqui também, o culto pelos falsos da doutrina; e por ‘curvar-se às obras de suas mãos’ é significado o culto por coisas tais que vêm da própria inteligência; que venha do proprium e não do Divino é significado por ‘terem Me abandonado’.
[7] Em Isaías:
“Naquele dia o homem olhará para o seu Feitor, e os seus olhos contemplarão o Santo de Israel; e ele não olhará para os altares, a obra de suas mãos, e não contemplará o que os seus dedos fizeram” (Is. 17:7, 8).
Essas palavras são a respeito do advento do Senhor e, então, de uma nova igreja. Pelo ‘Feitor’, para Quem então o homem olhará, entende-se o Senhor quanto ao Divino Bem, e pelo ‘Santo de Israel, para Quem seus olhos olharão, entende-se o Senhor quanto ao Divino Vero; pelos ‘altares’, que são ‘obra das mãos’ e o que ‘os dedos fizeram’, os quais o homem não contemplará, é significado o culto pelos males e, daí, os falsos da doutrina que vem da própria inteligência. Daí, por essas palavras se entende que tudo da doutrina virá do Senhor e não do proprium do homem, o que acontece quando o homem está na afeição do vero espiritual, isto é, quando ama o vero mesmo porque é um vero, e não principalmente porque lhe traz reputação e nome.
[8] No mesmo:
Jehovah “deu os deuses” dos reis da Assíria “ao fogo, porque eles não são deuses, mas obra das mãos do homem, madeira e pedra” (Is. 37:19);
pelos ‘deuses dos reis da Assíria’ são significados os raciocínios pelos falsos e males, que concordam com o proprium do homem, pelo que são também chamados ‘obra das mãos do homem’; ‘madeira e pedra’, ou o ídolo de madeira e pedra, significam os males e falsos da religião e da doutrina que vem do proprium.
[9] No mesmo:
“Naquele dia rejeitarão ??? cada um os seus ídolos de prata e os seus ídolos de ouro, que vossas mãos fizeram para vós, o pecado; e então a Assíria cairá” (Is. 31:7, 8).
Isto é a respeito da instauração da igreja, e pelos ‘ídolos de prata e os ídolos de ouro’, que eles rejeitarão naquele dia, são significados os falsos e males da religião e do culto, aos quais chamam veros e bens; e como os falsos e males da religião e do culto são provenientes da própria inteligência, por isso se diz: ‘que vossas mãos fizeram para vós’. Que então não haverá raciocínios por tais coisas é significado por ‘então a Assíria cairá’.
[10] Em Jeremias:
“Prata estendida será trazida de Tharschisch, e ouro de Ufaz, obra do artífice e das mãos do fundidor; jacintino e púrpura são as suas vestes, tudo obra de sábios’ (Jr. 10:9).
Assim são descritos o falso e o mal da religião e do culto, que são confirmados pelo sentido da letra da Palavra. “Prata estendida de Tharschisch’ significa os veros da Palavra nesse sentido, e ‘ouro de Ufaz’ significa o bem da Palavra no mesmo sentido; e como esses falsos e males são provenientes da própria inteligência, por isso são chamadas ‘obra do artífice e das mãos do fundidor’. Também o vero do bem e o bem do vero oriundos do sentido da letra da Palavra, pelos quais confirmam e, por assim dizer, revestem os falsos do mal e os males do falso que vêm da própria inteligência, são significados por ‘jacintino e púrpura’, que são as ‘vestes, tudo obra de sábios’.
[11] Além disso, pela ‘obra do artífice, do operário e do fabricante’ é também significado aquilo que da doutrina, da religião e do culto vem da própria inteligência. Daí é que foi mandado que o altar e também o templo fossem edificados de pedras inteiras e não cortadas por algum artífice ou operário. Sobre o altar assim se lê em Moisés:
“Se Me fizeres um altar de pedras, não edificarás com elas cortadas, porque o profanarás se moveres sobre ele o cinzel” (Êx. 20:25);
e, em Josué,
“Edificou Josué um altar... ao Deus de Israel no monte Ebal, um altar de pedras inteiras, sobre as quais não movera ferro” (Js. 8:30,31);
e, a respeito do templo, no Primeiro Livro dos Reis:
“O templo de Jerusalém foi edificado... de pedra inteira, como foi trazida... pois martelo ou machado, quaisquer instrumentos de ferro, não se ouviram na casa quando foi edificada” (I Re. 6:7).
O altar e, depois, o templo eram representativos principalmente do Senhor quanto ao Divino Bem e quanto ao Divino Vero. Por isso, pelas ‘pedras’ de que foram edificados eram significadas os veros da doutrina, da religião e do culto; as ‘pedras’ na Palavra também significam os veros. Portanto, para que não se aproximasse dos veros da doutrina e do culto daí algo da própria inteligência e, consequentemente, não houvesse isto neles, foi representado que seriam edificados de pedras ‘inteiras’ e não ‘cortadas’, pois a obra do ‘artífice’ e do ‘operário’ significava tais coisas. Também, pelo ‘cinzel’, o ‘martelo’, o ‘machado’ e, em geral, pelo ‘ferro’, é significado o vero em seu último, e principalmente este é falsificado pelo proprium do homem, pois esse vero é semelhante ao vero do sentido da letra da Palavra.
[12] Isto é a respeito da significação de ‘obra das mãos’ do homem, mas as ‘obras das mãos’ atribuídas na Palavra a Jehovah, isto é, ao Senhor, são significadas as coisas pelas quais o homem é reformado ou regenerado, como também a igreja e, em particular, os veros e bens da igreja. Estas são significadas pelas ‘obras das mãos’ na seguintes passagens. Em David:
“As obras das mãos” de Jehovah “são verdade e juízo’ (Sl. 111:7);
no mesmo:
“Jehovah aperfeiçoará para mim; Jehovah, Tua misericórdia [dura] na eternidade; não desampares as obras de Tuas mãos’ (Sl. 138:8);
em Isaías:
“Todos os do Teu povo, justos; na eternidade possuirão a terra; brotos de Minhas plantas, obra de Minhas mãos, para que Me torne justo” ??? (Is. 60:21);
no mesmo:
“Jehovah, Tu és o nosso Pai; nós somos o barro, mas Tu és nosso Oleiro, e obra de Tuas mãos somos todos nós” (Is. 64:8);
e, no mesmo:
“Ai do que disputa com o seu Formador, um caco com os cacos da terra. Acaso o barro dirá ao seu oleiro: O que fazes? ou a tua obra: Ele não tem mãos?... Assim disse Jehovah, o Santo de Israel, e seu Formador: Um sinal Me pediram sobre os Meus filhos, e sobre a obra de Minhas mãos Me ordenam” (Is. 45:9, 11);
que aqui por ‘Jehovah, o Santo de Israel, o Formador’ se entenda o Senhor, vê-se pelo versículo 13, seguinte; e pela ‘obras de Suas mãos’ se entende o homem regenerado por Ele, assim, o homem da igreja.
[13] No mesmo:
“Bendirá Jehovah Zebaoth, dizendo: Bendito o Meu povo, o Egito, e a obra de Minhas mãos, a Assíria, e Minha herança, Israel” (Is. 19:25);
o ‘Egito’ aqui significa o natural, a ‘Assíria’ o racional e ‘Israel’ o espiritual; e a Assíria é chamada ‘obra das mãos de Jehovah’ porque este é reformado no homem, pois é o racional que recebe os veros e bens, e, por este, o natural. O espiritual é o que regenera, isto é, o Senhor pelo influxo espiritual. Em suma, o racional é o meio entre o espiritual e o natural, e o espiritual, que regenera, influi pelo racional no natural, e este é assim regenerado. Em Moisés:
“Bendiz, ó Jehovah, a sua força, e aceita a obra de suas mãos” (Dt. 33:11).
Estas palavras são a respeito de Levi, por quem é significado o bem da caridade e, no sentido supremo, o Senhor quanto a esse bem. A reforma por esse meio se entende pela ‘obra de suas mãos’.

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