. “Para não adorarem demônios”. Que isto signifique para não prestarem culto às suas próprias cobiças vê-se pela significação de ‘adorar’, que é prestar culto, e pela significação de ‘demônios’, que são as más cobiças. Que os ‘demônios’ sejam as más cobiças é porque pelos ‘demônios’ entende-se os espíritos infernais, e todos os espíritos que estão nos infernos não são outra coisa senão más cobiças. Com efeito, todos os espíritos que estão nos infernos, assim como todos os anjos que estão nos céus, provêm do gênero humano, e cada homem se torna, após a morte, tal qual foi sua vida no mundo, por conseguinte, tal qual sua afeição. Assim, após a morte o homem se torna inteiramente como sua afeição, o homem bem a afeição do bem e do vero, e o homem mau a afeição do mal e do falso. Após a morte, cada um também pensa, quer, fala e faz segundo a sua afeição. É a afeição do mal e do falso que se chama cobiça e é significada por ‘demônio’.
[2] O que se entende, porém, por ‘prestar culto a demônios’ também se dirá em poucas palavras. Cada homem está em consociação com espíritos; sem a consociação e a conjunção com eles ninguém pode viver, e com o homem estão espíritos que são tais quais são as afeições ou cobiças dele. Por isso, quando o homem, no culto, não visa o Senhor nem o próximo, mas a si mesmo e ao mundo, isto é, quando presta culto a Deus pelo único propósito de ser conduzido às honrarias e obter riquezas, ou a fim de poder causar danos aos outros, então presta culto a demônios, porque então o Senhor não está presente em seu culto, mas estão presentes os espíritos infernais que lhe foram consociados. Além disso, nesses espíritos há uma insanidade tal que eles se creem deuses, e que se lhes deve prestar culto, porque cada espírito, assim como cada homem, que está no amor de si, ambiciona ser cultuado como Deus. Daí é que uma cobiça tão insana reside nos homens após a morte, quando se tornam espíritos demoníacos. É isto, pois, que é significado por ‘adorar demônios’.
[3] Esse culto também se entende por ‘sacrificar aos demônios’, em Moisés:
“Por [deuses] estranhos provocaram-No ao zelo, por abominações fizeram-No irado; sacrificam a demônios, não a Deus, a deuses que não tinham conhecido” (Dt. 32:16, 17);
no mesmo:
Os filhos de Israel sacrificarão à entrada da tenda, e ‘não sacrificarão mais sacrifícios aos seus demônios, após os quais eles cometem escortações” (Lv. 17:7).
Os sacrifícios que se faziam à entrada da tenda representavam o culto ao Senhor, porque o altar e também o tabernáculo representavam o céu, onde o Senhor está presente, enquanto os sacrifícios que se faziam em outro lugar representavam o culto onde o Senhor não está presente, assim, o culto aos demônios. Isto era assim porque todas as coisas naquele tempo eram representativas.
[4] Em David:
“Sacrificaram seus filhos e suas filhas a demônios” (Sl. 106:37).
Isto era completamente infernal. Mas, no sentido espiritual, por ‘sacrificar filhos e filhas’ era significado aniquilar e destruir os veros e bens da igreja por meio de más cobiças, pois os ‘filhos’ significam os veros da igreja, e as ‘filhas’ os seus bens.
[5] Em Isaías:
“Tziim se encontram com Ijim, e demônio silvestre vai ao encontro de seu companheiro, e aí repousará a coruja, e achará repouso para si” (Is. 34:14);
aí se trata da devastação total da igreja por meio de concupiscências corpóreas e meramente naturais, das quais dimanam falsos e males de todo gênero. Essas concupiscências são significadas por ‘tziim’ e ‘ijim’, e também pelo ‘demônio silvestre’ ou sátiro.
[6] Semelhantemente, em outra passagem, no mesmo:
“Deitar-se-ão ali os tziim, e encherão a sua casa os ochim; e habitarão ali as filhas da coruja, e os demônios silvestres saltarão ali” (Is. 13:21).
Essas palavras foram ditas a respeito de Babel. Que naqueles que se entendem por ‘Babel’ haja tais concupiscências corpóreas e meramente naturais, e façam a vida de sua mente, é significado pelo fato de ‘as suas casas se encherão’ dos tais e que ‘ali habitarão e saltarão’. Pela ‘casa’ é significada a mente ou espírito [animus] do homem com os quais há tais coisas; pelas ‘filhas da coruja’ são significadas as falsidades, e pelos ‘demônios silvestres’ ou sátiros, as cobiças meramente corpóreas. Diz-se algo semelhante, a respeito de Babel, no Apocalipse:
“A Babilônia... se tornou habitáculo de demônios, e morada de todo espírito imundo, e morada de toda ave imunda e detestável” (Ap. 18:2).
Pelos ‘demônios’ expulsos pelo Senhor, pelos quais muitos foram obsedados, são significadas falsidades de todo gênero com as quais a igreja tinha sido infestada e das quais foi liberta pelo Senhor (como em Mt. 8:16, 28; 9:32, 33; 10:8; 12:22; 15:22; Mc. 1:32-34; Lc. 4:33-38, 41; 8:2, 26-40; 9:1, 37-44, 49, 50; 13:32; e outras passagens).
[DOWNLOAD]
[VERSAO IMPRESSA]
Para estudo mais confortavel, adquira esta obra em formato impresso.