. ‘E de dar recompensa aos Teus servos, os profetas, e aos santos’. Que isto signifique o céu para aqueles que estão nos veros da doutrina e na vida segundo esta vê-se pela significação de ‘dar recompensa’, que é a salvação, por conseguinte, o céu; pela significação de ‘Seus servos, os profetas’, que são os que estão nos veros da doutrina, pois ‘servos’ do Senhor se dizem dos que estão nos veros, porque os veros servem para produzir, confirmar e conservar o bem, e as coisas que servem ao bem servem ao Senhor, pois do Senhor vem todo bem. E ‘profetas’ se dizem dos que ensinam a doutrina, daí, abstratamente, por eles é significada a doutrina. (Que os ‘servos de Deus’ se chamem os que estão nos veros, vide acima, n. 6 e 409; e ‘profetas’ os que ensinam a doutrina e, abstratamente, a doutrina, n. 624); e pela significação de ‘santos’, que são os que estão nos veros da doutrina oriunda da Palavra e na vida segundo esta (de que se tratou acima, n. 204). Daí é evidente que ‘dar recompensa aos Seus servos, os profetas e santos’ significa o céu para aqueles que estão nos veros da doutrina e na vida segundo esta.
[2] Que a ‘recompensa’ signifique a salvação, por conseguinte, o céu, pode-se ver sem ampliação e sem explicação. Como, todavia, poucos sabem o que se entende propriamente por ‘recompensa’, isto será explicado. Por ‘recompensa’ entendem-se propriamente o prazer, a felicidade e a bem-aventurança que há no amor ou na afeição do bem e do vero. Esse amor, ou essa afeição, tem em si todo regozijo de coração, que é chamado regozijo celeste e, também, céu. A razão disso é que o Senhor está nesse amor, ou nessa afeição, e com o Senhor está também o céu. É, pois, esse regozijo, ou esse prazer, essa felicidade e essa bem-aventurança que se entendem propriamente pela ‘recompensa’ que hão de receber os que fazem o bem e falam o vero pelo amor e pela afeição do bem e do vero, assim, pelo Senhor, e não absolutamente por si. E como é pelo Senhor e não por si, não é recompensa de mérito, mas recompensa da graça. Por aí se pode ver que quem sabe o que é o regozijo celeste, sabe também o que é a recompensa. (O que é o regozijo celeste em sua essência vê-se na obra O Céu e o Inferno, n. 395-414). É isto, portanto, que é significado pela ‘recompensa’ que têm aqueles que estão nos veros do bem. Contudo, a ‘recompensa’ que têm aqueles que estão nos falsos do mal é o regozijo, ou o prazer, a felicidade e a bem-aventurança no mundo, mas o inferno após a saída do mundo.
[3] Por essas poucas explicações é evidente o que é significado por ‘recompensa’ nas seguintes passagens. Em Isaías:
“Eis que o Senhor Jehovih vem em força... eis a Sua recompensa consigo, e o preço de Suas obras diante d’Ele” (Is. 40:10);
no mesmo:
“Dizei à filha de Sião: Eis que vem a tua salvação, e o preço de Suas obras diante d’Ele” (Is. 62:11);
e, no Apocalipse:
“Eis que cedo venho, e Minha recompensa comigo, para dar a cada um segundo será sua obra” (Ap. 22:12).
‘Eis que o Senhor Jehovih vem em força’, ‘eis que vem a tua salvação’ e ‘eis que cedo venho’ significam o primeiro e o segundo advento do Senhor; ‘as suas recompensas consigo’ significam o céu e todas as suas coisas, como acima, porque onde está o Senhor, aí está o céu, pois o céu não é céu pelos anjos ali, mas pelo Senhor nos anjos. Que hão de receber o céu segundo o amor e a afeição do bem e do vero oriundos do Senhor entende-se por ‘o preço de Suas obras diante d’Ele’ e por ‘dará a casa um segundo será a sua obra’. Pela ‘obra’ segundo a qual cada um tem o céu como recompensa não se entende outra coisas senão a obra pelo amor ou pela afeição do bem e do vero, pois daí deve provir no homem toda obra de que vem o céu. Com efeito, a obra deriva tudo o que é seu do amor ou da afeição, assim como todo efeito deriva tudo o que seu da causa eficiente. Assim, qual é o amor ou a afeição, tal é a obra. Daí se pode ver o que se entende pela ‘obra segundo a qual se dará a cada um’ e o que se entende pelo ‘preço das obras’.
[4] Semelhantemente, em Isaías:
“Eu, Jehovah, que amo o juízo... darei a recompensa de sua obra em verdade, e estabelecerei com eles uma aliança de eternidade” (Is. 61:8);
pelo ‘juízo’ que Jehovah ama é significado o vero na fé, na afeição e no ato, pois o juízo o homem tem pelo vero, tanto por pensar e querer o vero quanto por falar o vero e segundo este fazer. E como isto é significado pelo ‘juízo’, por isso se diz: ‘darei a recompensa de suas obras em verdade’, isto é, o céu segundo a fé e a afeição do vero no ato. E como daí há a conjunção com o Senhor, de que vem a recompensa, por isso também se diz: ‘estabelecerei com eles uma aliança de eternidade’, porque pela ‘aliança’, na Palavra, é significada a conjunção pelo amor, e pela ‘aliança de eternidade’ a conjunção pelo amor do bem e do vero, pois esse amor conjunge, porque é do Senhor mesmo, por proceder d’Ele.
[5] Que amar o bem e o vero por causa do bem e do vero seja a recompensa, porque nesse amor estão o Senhor e o céu, também se pode ver pelas passagens que se seguem. Em Mateus:
“Não deis esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles, pois de outro modo não tereis recompensa junto de vosso Pai que está nos céus. Quando deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Amém vos digo que [já] têm a sua recompensa. Tu, porém, quando deres esmola, não saiba a tua esquerda o que faz a tua direita, para que tua esmola esteja no oculto; então teu Pai, que vê no oculto, a retribuirá... manifestamente. E, se orares, não sereis como os hipócritas, pois amam orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Amém vos digo que [já] têm a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está no oculto; então teu Pai, que vê no oculto, te retribuirá manifestamente” (Mt. 6:1-6);
por ‘esmola’, no sentido universal, é significado todo bem que o homem quer e faz, e por ‘orar’, no mesmo sentido, é significado todo vero que o homem pensa e fala. Os que fazem essas duas coisas ‘para que sejam vistos’, isto, para aparecerem, fazem o bem e falam o vero por causa de si e do mundo, pois o fazem por causa da glória, que é o prazer do amor de si, que para eles vem do mundo. Como o prazer da glória é a recompensa destes, por isso se diz que ‘[já] têm a sua recompensa’. Mas o prazer da glória, que no mundo lhes parece como o céu, após a morte se muda em inferno. Aqueles, porém, que fazem o bem e falam o vero não por causa de si e do mundo, mas por causa do bem mesmo e do vero mesmo entendem-se por aqueles que ‘dão esmolas no oculto’ e ‘oram no oculto’, pois fazem e oram pelo amor ou pela afeição, por conseguinte, pelo Senhor. Isto é, pois, amar o bem e o vero por causa do bem e do vero; desses se diz que o ‘Pai nos céu lhes retribuirá manifestamente’. Por isso, estar nos bens e nos veros pelo amor ou pela afeição, que é o mesmo que está nestes pelo Senhor, é a recompensa, porquanto nisto está o céu e toda bem-aventurança e felicidade do céu.
[6] Em Lucas:
“Quando deres um jantar, ou ceia, não convides... os ricos, para que talvez eles por sua vez te convidem e te seja isso retribuído; mas... chama os pobres; então será bem-aventurado, porque não têm com que te retribuir; pois retribuído te será na ressurreição” dos mortos (Lc. 14:12-14).
‘Dar um jantar ou ceia e convidar para estes’ significa o mesmo que dar de comer e beber, ou o pão e o vinho, a saber, fazer bem ao próximo e ensinar o vero, sendo assim consociado quanto ao amor. Os que fazem isso a fim de serem retribuídos não o fazem por causa do bem e por causa do vero, por conseguinte, não pelo Senhor, mas por causa de si e do mundo, por conseguinte, pelo inferno. Mas os que fazem tais coisas não com o fim de serem retribuídos fazem-nas por causa delas, a saber, por causa do bem e do vero, e os que fazem por causa do bem e do vero fazem-no pelo bem e pelo vero, assim, pelo Senhor, de Quem esses estão no homem. A bem-aventurança celeste que há nessas ações e, assim, que provém delas, é a ‘recompensa’, e se entende por ‘retribuído te será na ressurreição’ dos mortos.
[7] No mesmo:
“Antes, amai vossos inimigos, e beneficiai-os, e emprestai sem nada daí esperardes; então será muita a vossa recompensa, e sereis filhos do Altíssimo” (Lc. 6:35).
Por essas palavras são significadas coisas semelhantes que às de logo acima, a saber, que não se devem fazer benefícios por causa de retribuição, isto é, não por causa de si e do mundo, portanto, não por causa da reputação, da glória, da honra e do ganho, mas por causa do Senhor. Isto é fazer por causa do bem e vero mesmo, os quais estão neles pelo Senhor, assim, nos quais está o Senhor. Por ‘amar os inimigos e beneficiá-los’ entende-se aí, num sentido próximo, amar os gentios e beneficiá-los, o que se faz ensinando-lhes o vero e, por este, conduzindo-os ao bem, pois a nação judaica chamava aos seus de irmãos e amigos, mas às nações chamavam de adversários e inimigos; ‘emprestar’ significa comunicar os bens e veros da doutrina vinda da Palavra; ‘sem nada esperar’ significa não por algo para si e o mundo, mas por causa do bem e do vero; ‘então será muita a vossa recompensa’ que então eles têm o céu com suas bem-aventuranças e prazeres; ‘e sereis filhos do Altíssimo’ significa que assim fazem tais coisas não por si, mas pelo Senhor, pois quem faz o bem e ensina o vero pelo Senhor, este é Seu filho, mas não quem faz o bem por si, como faz todo aquele que visa a honra e o ganho, pelos quais fazem.
[8] Em Mateus:
“Quem recebe um profeta em nome de profeta receberá recompensa de profeta; quem [recebe] um justo em nome de justo receberá recompensa de justo. Quem der de beber a um dos pequenos um copo de [água] fria somente em nome de discípulo não perderá a recompensa” (Mt. 10:41, 42).
Ninguém pode ver que maneira essas palavras do Senhor devem ser entendidas a não ser pelo sentido interno ou espiritual delas, pois quem pode saber o que se entende por ‘receber recompensa de profeta’ e ‘recompensa de justo’, e o que se entende por ‘receber profeta e justo em nome de profeta e de justo’? E, também, o que se entende pela ‘recompensa’ que receberá quem ‘der de beber um copo de [água] fria somente a um dos pequenos em nome de discípulo’? Sem o sentido interno espiritual, quem pode ver que por essas palavras se entende que cada um há de receber o céu e seu regozijo segundo a afeição do vero e do bem, e segundo a obediência?
[9] Que seja este o sentido é o que se torna evidente quando por ‘profeta’ se entende o vero da doutrina, por ‘justo’ o bem do amor e por ‘discípulo’ o vero e o bem da Palavra e da igreja; e quando por ‘em nome’ deles se entende por causa deles e segundo a qualidade deles naqueles que isto fazem e ensinam. Também, quando por ‘recompensa’ se entende o céu, como foi dito acima, a saber, que cada um tem o céu segundo a afeição do vero e do bem e segundo a sua qualidade e quantidade. Com efeito, essas afeições foram inscritas todas as coisas do céu, pois ninguém tem essas afeições senão pelo Senhor, pois é o Divino procedente d’Ele no qual e do qual existe o céu.
[10] Por ‘dar de beber um copo de [água] fria a um dos pequenos em nome de discípulo’ entende-se fazer o bem e ensinar o vero pela obediência, pois a ‘água’ significa o vero na afeição, e ‘fria’ o vero na obediência, pois a obediência sozinha é uma afeição natural e não espiritual, pelo que é relativamente fria. Pelo ‘discípulo’, em cujo nome ou por cuja causa dá-se de beber, é significado o vero e o bem da Palavra e da igreja. (Que pelo ‘profeta’ seja significado o vero da doutrina vê-se acima, n. 624; que por ‘justo’ seja significado o bem do amor, n. 204; que pelo ‘discípulo’ seja significado o vero e o bem da Palavra e da igreja, n. 100 e 122; e que pelo ‘nome’ sejam significados a qualidade e o estado de uma coisa, n. 102, 135, 148 e 676).
[11] Em Marcos:
“Quem vos der de beber um copo de água em Meu nome, porque sois de Cristo, amém vos digo, não perderá sua recompensa” (Mc. 9:41).
Também por essas palavras entende-se que hão de receber o prazer do céu aqueles que pela afeição ouvem, recebem e ensinam o vero, pelo fato de o vero e a sua afeição serem provenientes do Senhor, assim, por causa do Senhor, por conseguinte, também por causa do vero, pois ‘porque sois de Cristo’ significa por causa do Divino Vero procedente do Senhor. (Que ‘Cristo’ seja o Senhor quanto ao Divino Vero e, daí, o Divino Vero procedente do Senhor, vê-se acima, n. 684 e 685).
[12] Em Zacarias:
“Foi fundada a casa de Jehovah Zebaoth, para que o templo seja edificado, pois antes destes dias não houve recompensa de homem, nem recompensa de besta, nem paz para o que sai e o que entra, por causa do adversário; ... agora semente de paz, a vide dará o seu fruto, e a terra dará o seu produto, e os céus darão o seu orvalho” (Zc. 8:9, 10, 12).
Essas palavras foram ditas a respeito da Nova Igreja a ser instaurada pelo Senhor, sendo a velha devastada. A Nova Igreja, que será instaurada, é significada pela ‘casa de Jehovah Zebaoth’ que foi fundada e pelo ‘templo’ que será edificado; pela ‘casa de Jehovah’ é significada a igreja quanto ao bem, e pelo ‘templo’ a igreja quanto ao vero (vide acima, n. 220); que anteriormente não tenha havido afeição alguma do vero e do bem espiritual, nem afeição do vero e do bem natural é significado por ‘antes destes dias não houve recompensa de homem, nem recompensa de besta’, pois o ‘homem’ significa a afeição do vero espiritual, a ‘besta’ significa a afeição do bem natural, e ‘recompensa’ significa o céu, que têm aqueles que estão nas afeições do vero e do bem. (Que o ‘homem’ signifique a afeição do vero espiritual e, daí, a inteligência, vê-se acima, n. 280, 546 e 547); e que a ‘besta’ signifique a afeição natural, n. 650).
[13] ‘A paz para o que sai e o que entra, por causa do adversário significa que anteriormente tinham sido infestados pelo inferno em todo estado da vida; por ‘sair e entrar’ é significado o estado da vida do princípio ao fim; por ‘não haver paz’ é significada a infestação pelos males e, daí, pelos falsos, e pelo ‘adversário’ o inferno, de onde vêm os males e os falsos. A ‘semente de paz’ significa o vero do céu e da igreja, que vem do Senhor; é chamado ‘semente de paz’ porque protege contra os infernos e dá segurança. ‘A vide dará o fruto, e a terra o produto’ significa que a afeição do vero natural produzirá as obras de caridade; a ‘vide’ significa a igreja quanto à afeição do vero espiritual, a ‘terra’ a igreja quanto à afeição do vero natural, o ‘fruto’ o bem da caridade e o ‘produto’ as obras desse bem. ‘Os céus darão orvalho’ significa essas coisas pelo influxo do Senhor através do céu.
[14] Em João:
“Levantai os vossos olhos e olhai os campos, que já estão brancos para a ceifa; e quem ceifa receberá a recompensa, e recolherá o fruto para a vida eterna, para que o que semeia se regozije juntamente com o que ceifa” (Jo. 4:35, 36).
Essas palavras, também, são a respeito da Nova Igreja do Senhor. Que ela esteja às portas é significado pelos ‘campos, que já estão brancos para a ceifa’; os que dessa igreja estão na afeição do vero espiritual e, daí, no céu, se entendem por ‘quem ceifa receberá a recompensa, e o recolherá o fruto na vida eterna’; e o Senhor mesmo, de quem vem essa afeição do vero e o céu, entende-se por ‘o que semeia juntamente se regozije’.
[15] Em Jeremias:
“Raquel deplora por seus filhos, rejeita ser consolada a respeito de seus filhos, porque não há mais nenhum; mas... reprime a tua voz do choro, e os teus olhos da lágrima, porque há recompensa para o teu trabalho, pois eles serão trazidos de volta da terra do adversário; e há esperança no teu fim... pois os filhos serão trazidos de volta em teu término” (Jr. 31:15-17; Mt. 2:18).
Que por essas palavras se entendam os meninos recém-nascidos em Belém, que foram mortos por ordem de Herodes, vê-se em Mateus, na passagem citada, mas até agora não se soube o que é significado por elas. É significado que, quando o Senhor veio ao mundo, nenhum vero espiritual restava, pois por Raquel é representada a igreja interna espiritual, e por Leia a igreja externa natural. por Belém o espiritual, e pelos meninos que foram mortos o vero dessa origem. Que não restasse mais vero espiritual algum é significado por ‘Raquel deplora por seus filhos, rejeita ser consolada a respeito de seus filhos, porque não há mais nenhum’.
[16] Que depois não haverá mais dor por causa disso, porque nasceu o Senhor, do Qual haverá uma nova igreja que estará nos veros pela afeição espiritual, é significado por ‘reprime a voz do choro e os teus olhos da lágrima, porque há recompensa para o teu trabalho’; pela ‘recompensa d’Ele’ é significado o céu para os dessa igreja que estão na afeição do vero espiritual, e por ‘trabalho’ é significada a luta do Senhor contra os infernos e a subjugação deles, para que uma nova igreja seja instaurada. Que uma nova igreja seja instaurada no lugar da que pereceu é significado por ‘serão trazidos de volta da terra do adversário’, por ‘há esperança no fim’ e também por ‘os filhos serão trazidos de volta no seu término’; ‘serem trazidos de volta da terra do adversário’ significa serem tirados do inferno; ‘esperança no fim’ significa o fim da igreja anterior e o princípio da nova; ‘os filhos serem trazidos de volta no término’ significa que existirão veros espirituais naqueles que serão dessa nova igreja.
[17] Em Isaías:
“Eu disse: Em vão trabalhei, no vazio e na vacuidade gastei as minhas forças; todavia, meu juízo está em Jehovah, e a recompensa de minha obra no meu Deus” (Is. 49:4).
Também essas palavras foram ditas a respeito de uma nova igreja a ser instaurada pelo Senhor. Que não poderia ser instaurada na nação judaica, porque os veros não poderiam ser recebidos dela por alguma afeição espiritual entende-se por ‘eu disse: em vão trabalhei, no vazio e na vacuidade gastei as minhas forças’. Que, no entanto, seja provida pelo Senhor uma igreja espiritual, a saber, com os gentios, é significado por ‘meu juízo está em Jehovah’ e por ‘a recompensa de minha obra está em meu Deus’; pela ‘recompensa’, aqui, é significada a igreja que está na afeição do vero espiritual; pelo ‘trabalho’ e pela ‘obra’ é significada a luta do Senhor contra os infernos e a subjugação deles, luta pela qual o Senhor restaurou o equilíbrio entre o céu e o inferno; nesse equilíbrio o pode receber o vero e tornar-se espiritual. (A respeito desse equilíbrio vide na obra O Céu e o Inferno os n. 589-603, e no opúsculo Do Juízo Final, n. 33, 34, 73 e 74).
[18] Em David:
“Eis que os filhos são a herança de Jehovah, a recompensa do fruto do ventre. Como flechas na mão do poderoso, assim são os filhos da mocidade. Bem-aventurado o varão que enche delas a sua aljava; não serão envergonhados quando falarem com os adversários na porta” (Sl. 127:3-5).
O que é significado aqui por ‘filhos’, ‘fruto do ventre’, ‘flechas’, ‘aljava’ e pelos ‘adversários na porta’ vide acima (n. 357), e que pela ‘recompensa’ se entende também aqui a felicidade que têm aqueles que estão no céu.
[19] Nos Evangelhos:
“Bem-aventurados [sois]... quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem toda má palavra contra vós por causa” de Cristo; “regozijai e exultai-vos, porque é muita a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” (Mt. 5:11, 12; Lc. 6:22, 23).
Essas palavras são a respeito daqueles que lutam e vencem nas tentações induzidas pelos males, assim, do inferno. As tentações são significadas por ‘injuriar’, ‘perseguir’ e ‘mentindo, dizer má palavra’ por causa de Cristo, pois as tentações são ataques e infestações do vero e bem pelos falsos e males. Por ‘Cristo’ entende-se o Divino Vero proveniente do Senhor, que é atacado; por cuja do Divino Vero eles são infestados; ‘regozijai e exultai-vos, porque é muita a vossa recompensa nos céus’ significa o céu com seu regozijo que têm aqueles que estão na afeição espiritual do vero, pois somente esses lutam e vencem, pelo fato de o Senhor está nessa afeição e Ele resiste e vence pelo homem que está nas lutas das tentações; ‘pois assim perseguiram os profetas que foram antes de vós’ significa que semelhantemente tinham atacados os veros da doutrina que havia naqueles que estavam na afeição do vero espiritual, pois os ‘profetas’, abstratamente das pessoas, significam os veros oriundos da Palavra ou do Senhor. Pelo que foi agora citado da Palavra pode-se ver que pela ‘recompensa’ é significado o céu quanto à sua bem-aventurança, sua felicidade e seu prazer, que têm aqueles que estão na afeição espiritual do vero e do bem, e a ‘recompensa’ é essa afeição mesma, pois dá no mesmo dizer essa afeição ou o céu, porque nela está e dela procede o céu.
[20] Os que, porém, não falam o vero nem fazem o bem pela afeição espiritual, mas somente pela afeição natural, e pensam continuamente no céu como uma recompensa, esses foram representados na Igreja Israelita pelos assalariados [mercenarios], a cujo respeito se veem muitos estatutos naquela igreja, tais como:
Que os assalariados não comessem da páscoa (Êx. 12:43, 45);
Que não comessem das coisas santas (Lv. 22:10);
Que com ninguém pernoitasse até a aurora o pagamento do assalariado (Lv. 19:13);
Que não oprimissem “o assalariado, o pobre e o necessitado dentre os irmãos... ou do estrangeiro que há na tua terra e nas tuas portas; no dia lhes darás a sua recompensa, para que não caia sobre ela o sol e não clame contra ti a Jehovah, para que haja em ti pecado” (Dt. 24:14, 15);
em Malaquias:
Eu serei “contra os opressores dos assalariados de salário, das viúvas e dos órfãos, dos que fazem desviar o estrangeiro e não temem a Mim" (Ml. 3:5),
e outras passagens. Que não comessem da páscoa e das coisas santificadas era porque eles representavam os naturais e não os espirituais, e os espiritual são da igreja, mas não tanto os naturais. Com efeito, o natural é visar o céu como recompensa por causa dos bens que se fazem, pois o natural visa o bem por si, assim, o céu como recompensa, donde o bem se torna meritório. Mas o espiritual é diferente: este reconhece o bem não como vindo de si, mas do Senhor, donde também reconhecem o céu como vindo da misericórdia e não de algum mérito. Como, todavia, fazem o bem, ainda que não o façam pela afeição espiritual, mas pela afeição natural, que é a obediência, e então pensam no céu como recompensa, por isso são contados entre os ‘pobres, necessitados, estrangeiros, órfãos e viúvas’, pelo fato de estarem na pobreza espiritual. Pois os veros genuínos para eles estão na obscuridade, porquanto a luz do céu não influi pelo homem espiritual no natural deles. Daí é que são contados entre aqueles e foi ordenado que ‘lhes desse a recompensa antes de o sol se pôr’. Estão, também, nos ínfimos dos céus, e ali na servidão, e são remunerados ali segundo as suas obras. (Sobre este assunto, porém, veem-se várias coisas na Doutrina da Nova Jerusalém, n. 150-158).
[21] Mas os assalariados que não pensam na recompensa no céu, mas na recompensa no mundo, portanto, os que fazem o bem por causa do ganho, sejam honras ou riquezas, assim, os que fazem o bem pelo amor das honras e das riquezas, por conseguinte, por causa de si e do mundo, esses são naturais infernais. Esses são os assalariados que se entendem em João:
“Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a Sua alma pela ovelhas; mas o assalariado [mercenarius]... vê o lobo e abandona as ovelhas, e foge... porque é assalariado” (Jo. 10:11-13);
e, em Jeremias,
“Novilha formosíssima é o Egito; do setentrião veio a destruição... seu assalariado... como novilho cevado, mas também eles voltaram as costas, fugiram juntos, não ficaram firmes, porque o dia de sua destruição veio sobre eles” (Jr. 46:20, 21);
e também em outras passagens (como Is. 16:14; 21:16).
[22] Como a ‘recompensa’ significa na Palavra o céu, que é para aqueles que estão no amor espiritual do vero e do bem, por isso, no sentido oposto a ‘recompensa’ significa o inferno, que é para aqueles que estão no amor do falso e do mal. É isto que a ‘recompensa’ significa em David:
“Vestir-se-á de maldição como sua vestimenta, e entrará no seu meio como as águas, e como óleo entre os seus ossos. ... Esta é a recompensa dos que são adversários para mim, da parte de Jehovah, e dos que falam o mal contra a minha alma” (Sl. 109:18, 20).
Essas palavras, no sentido espiritual, devem ser entendidas a respeito do Senhor, pois onde David fala no salmo a respeito de si mesmo, nesse sentido entende-se a respeito do Senhor, porque David como rei representou o Senhor e, assim, significa o Senhor quanto ao Divino espiritual, que é a realeza do Senhor. ‘A recompensa dos que são adversários para o Senhor e dos que falam o mal contra a Sua alma’ é descrita como o inferno oriundo do amor do falso e do mal, a saber, por estas palavras: ‘vestir-se-á de maldição como sua veste, e entrará no seu meio como águas, e como óleo entre os seus ossos’. O inferno que é recebido no externos e nos internos é descrito por essas duas coisas: o inferno que é recebido nos externos, pela maldição de que ‘se vestirá como sua veste’, e o inferno que é recebido nos internos, pela maldição que ‘entra no seu meio como águas, e como óleo entre os seus ossos’. Diz-se ‘como água’ e ‘como óleo’ porque as ‘águas’ significam os falsos da fá, e ‘óleo’ os males do amor; assim, por ambos se entende o amor ou a afeição do falso e do mal, que é o inferno, o que também se pode ver pelo fato de que o amor absorve todas as coisas que com ele concordam, exatamente como a esponja absorve as águas e o óleo, porque o amor do mal se nutre de falsos, e o amor do falso se nutre de males. E como o amor é tal, por isso se diz que ‘a maldição entrará no seu meio como águas, e como óleo entre os seus ossos’.
[23] Como a ‘recompensa’ significa no sentido oposto o inferno quanto à afeição do falso oriundo do mal, por isso a falsificação do vero na Palavra é chamado em várias passagens de ‘recompensa da meretriz’, como em Oséias:
“Não te alegres, ó Israel, em exultação como as nações, porque praticaste escortação sob Deus... amaste a recompensa da meretriz sobre todas as eiras do grão; a eira e o lagar não os apascentarão” (Os. 9:1, 2);
‘praticar escortação sob Deus’ significa falsificar os veros da Palavra e aplicar as coisas santas da igreja à idolatria; ‘amar a recompensa da meretriz’ significa o prazer de falsificar e do falso, assim, da idolatria, pelo amor infernal; ‘sobre todas as eiras do grão’ significa todas as coisas da Palavra e da doutrina da Palavra, pois o ‘grão’, de que vem o pão, significa tudo o que nutre espiritualmente, e a ‘eira’ significa onde isto é colhido, assim, a Palavra; ‘a eira e o lagar não os apascentarão’ significa que não tirarão da Palavra os bens do caridade e do amor, assim, não tirarão coisa alguma que nutrirá a alma, pois a ‘eira’ aí é a Palavra quanto aos bens da caridade, e o ‘lagar’ quanto aos bens do amor, e pelo ‘lagar’ entende-se aqui o óleo, para o qual – e também para o vinho – havia os lagares; ‘e o mosto lhes faltará’ significa que tampouco haverá o vero do bem, pois o ‘mosto’, assim como o ‘vinho’, significa o vero do bem da caridade e do amor.
[24] Em Miquéias:
“Todas as imagens de escultura” de Samaria “serão despedaçadas, e todas as recompensas de seu meretrício serão queimadas no fogo, e porei todos os seus ídolos em desolação, porque da recompensa do meretrício ajuntou, pelo que recompensa de meretrício se tornarão. Sobre isso chorarei e uivarei, andarei despojado e nu” (Mq. 1:7, 8);
por ‘Samaria’ entende-se a igreja espiritual quanto aos veros da doutrina, aqui, quanto aos falsos da doutrina, pois por suas ‘imagens de escultura’ são significadas as coisas falsificadas que vêm da própria inteligência; pela ‘recompensa de seu meretrício’, que serão queimadas no fogo, são significadas as falsificações do vero pelo amor do falso oriundo do mal e, daí, o prazer infernal; e como esse amor é proveniente do inferno, diz-se que ‘serão queimadas no fogo’, pois o fogo significa o amor em ambos os sentidos; ‘e porei todos os seus ídolos em desolação’ significa os falsos que devem ser destruídos; ‘porque da recompensa do meretrícios [os] ajuntou’ significa do amor do falso que vem do mal e, daí, do prazer infernal; ‘pelo que recompensa de meretrício se tornarão’ significa que todas as coisas dessa igreja serão veros falsificados, porque vêm dali; ‘sobre isso chorarei e uivarei’ significa a dor dos anjos do céu e dos homens da igreja nos quais está a igreja e, assim, nos quais está o Senhor; ‘andarei despojado e nu’ significa o luto por causa da devastação de todo vero e bem. Que as ‘imagens de escultura’ e os ‘ídolos’ signifiquem os doutrinais oriundos da própria inteligência favorecendo os amores de si e do mundo e os princípios daí concebidos, assim, os falsos da doutrina, da religião e do culto, vê-se acima (n. 587 e 654).
[25] Em Ezequiel:
“Edificaste o teu lugar alto [clivum] na cabeça de todo caminho, e teu lugar excelso em toda rua; e nem foste como a meretriz, para gloriar-se da recompensa. A mulher adúltera sob o seu varão recebe estranhos; a todas as meretrizes se dão recompensas; tu, porém, deste tuas recompensas a todos os teus amásios, e os remuneraste, para que viessem a ti dos arredores, para tuas escortações. Assim se deu contigo o contrário das mulheres em tuas escortações, para que viessem após ti para escortação, dando recompensa, e tua recompensa não te é dada, tornaste-te, pois, no contrário” (Ez. 16:31-34).
Trata-se nesse capítulo das abominações de Jerusalém, assim, das coisas abomináveis da Igreja Judaica, que não só perverteu e adulterou os bens da Palavra, mas também recebeu das nações idólatras os falsos da religião e do culto, e por esses adulterou os veros e bens da Palavra, e confirmou as coisas adulteradas. O que é significado por ‘edificar o lugar alto na cabeça de todo caminho, e fazer o lugar excelso em toda rua’ vê-se acima (n. 652). Que pelos ‘adultérios’ e ‘escortações’ sejam significadas na Palavra as adulterações e falsificações do vero e do bem da igreja vê-se acima (n. 141 e 511). Por isso, que ela não tenha sido ‘como a meretriz para se gloriar na recompensa’ significa que falsificou os veros da Palavra não tanto pelo prazer da afeição; ‘a mulher adúltera sob seu varão recebeu estranhos’ significa que perverteu os veros e bens da Palavra pelos falsos de outras nações; ‘a todas as meretrizes se dão recompensa; tu, porém, deste as tuas recompensas a todos os teus amásios, e os remuneraste’ significa que amaram os falsos da religião e do culto de outras nações; a ‘recompensa’ ou o presente do meretrício é o amor de falsificar pelos falsos dos outros; ‘para que viessem a ti dos arredores, para tuas escortações’ significa que estão nos falsos adquiridos de toda parte, pelos quais há as falsificações do vero; ‘assim se deu contigo o contrário das mulheres nas escortações: como não viessem após ti para escortação, dando recompensa, e a recompensa não te foi data, tornaste-te, pois, no contrário’ significa o prazer do amor e da afeição de falsificar os veros de sua doutrina pelos falsos de outras religiões e de confirmá-los. O prazer do amor e da afeição para com os falsos de outras religiões entende-se aqui pela ‘recompensa’ ou presente do meretrício.
[26] Pelas coisas agora citadas pode-se ver o que se entende espiritualmente pela ‘recompensa’ em ambos os sentidos, pois o que afeta com prazer e regozijo é a recompensa espiritual. Sejam, por exemplo, as riquezas, as posses, as honras, os pagamentos, pelos quais o homem é remunerado pelos bens praticados; as coisas que são entendidas espiritualmente não são essas acima, mas os prazeres e os regozijos oriundos delas, e, sobretudo, as recompensas celestes que terá o homem da igreja que vive bem, que é a afeição do vero espiritual e, daí, a inteligência e a sabedoria, de que vem a bem-aventurança e a felicidade. E, além disso, no céu há opulência e magnificência, que resulta do amor celeste e seu correspondente, mas, não obstante, a opulência e a magnificência no céu não são consideradas como recompensas, mas o espiritual que vem delas. Isto também se entende pelo ‘preço da obra’ e pela ‘recompensa’ que há no Senhor e vem do Senhor (Is. 40:10; 61:8; 62:11; Lc. 6:35; 14:12-14; e outras passagens).