. “E aos que temem o Teu nome, pequenos e grandes”. Que isto signifique e a todos os que adoram o Senhor, de qualquer religião, vê-se pela significação de ‘temer o nome’ do Senhor Deus, que é adorar o Senhor (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘pequenos e grandes’, que é de qualquer religião, pois pelos ‘pequenos’ se entendem os que pouco conhecem os veros e bens da igreja, e pelos ‘grandes’ os que conhecem muito, assim, entendem-se os que adoram pouco ou muito ao Senhor, pois quanto mais o homem conhece os veros da fé e vive segundo eles, mais adora ao Senhor, pois o culto não vem do homem, mas dos veros do bem que estão no homem, porquanto estes provêm do Senhor e neles está o Senhor. Que pelos ‘que temem o Teu nome, pequenos e grandes’ se entendam todos os que adoram ao Senhor, de qualquer religião, é porque pouco acima foram nomeados os ‘servos profetas’ e os ‘santos’, pelos quais se entendem todos os que na igreja estão nos veros da doutrina e na vida segundo os veros; por isso, pelos ‘que temem o Teu nome, pequenos e grandes’ se entendem todos os que, fora da igreja, estão no culto do Senhor segundo a sua religião, pois também temem o nome de Deus aqueles que adoram ao Senhor e vivem em alguma fé e caridade segundo a sua religiosidade. De fato, nesse versículo se trata do juízo final sobre todos, tanto os maus quanto os bons, e o juízo final se faz sobre todos, tanto os que estão na igreja quanto os que estão foram dela, e então são salvos todos os que temem a Deus e vivem em amor mútuo, em retidão de coração e em sinceridade pela religião, porque todos esses, pela intuição da fé em Deus e pela vida de caridade, são consociados quanto à alma aos anjos do céu e, assim, são conjuntos ao Senhor e são salvos. Com efeito, após a morte cada um vem aos seus no mundo espiritual, com os quais foi consociado quanto ao seu espírito quanto vivia no mundo natural.
[2] Que ‘pequenos e grandes’ signifiquem menos e mais, a saber, os que adoram ao Senhor, assim, os que estão menos e mais nos veros do bem, é porque o sentido espiritual da Palavra é abstraído de toda relação à pessoa, pois a coisa é considerada nua; e nos vocábulos ‘pequenos e grandes’ há relação à pessoa, pois se entendem os homens que adoram a Deus; daí é que por eles, no sentido espiritual, entende-se menos e mais, portanto, os que adoram menos e mais pelos veros e bens genuínos. Dá-se de modo semelhante em relação aos ‘servos profetas’ e aos ‘santos’ – dos quais se tratou logo acima – pelos quais não se entendem, no sentido espiritual, os profetas e santos, mas, abstratamente de pessoas, os veros da doutrina e a vida segundo os veros. Quando essas coisas são entendidas, estão inclusivamente compreendidos todos os que estão nos veros da doutrina e na vida segundo os veros, pois estão nos sujeitos, que são os anjos e os homens. Todavia, pensar somente nos anjos e nos homens é o natural, mas pensar nos veros da doutrina e na vida que que constituem os anos e homens é o espiritual. Daí se pode ver de que maneira o sentido espiritual, no qual estão os anjos, se distingue do sentido natural, no qual estão os homens, a saber, que em cada coisa que os homens pensam há inerente algo da pessoa, do espaço, do tempo e da matéria, enquanto os anjos pensam na coisa abstratamente disso. Daí é que a linguagem dos anjos é incompreensível ao homem, visto que ela vem da intuição da coisa e, daí, da sabedoria abstrata a tais coisas, portanto relativamente indeterminada quanto às coisas que são próprias do mundo natural.
[3] Que ‘temer o Teu nome’ signifique adorar o Senhor é porque ‘temer’ significa adorar, e ‘Teu nome’ significa o Senhor, pois no versículo precedente se diz que ‘os vinte e quatro anciãos renderam graças ao Senhor Deus, que és, que eras e que virá’; por isso, por ‘temer o Teu nome’ entende-se adorar o Senhor. Na Palavra, tanto no Velho quanto no Novo Testamento, se dizem ‘nome de Jehovah’, ‘nome do Senhor’, ‘nome de Deus’ e ‘nome de Jesus Cristo’, e, ali, pelo ‘nome’ se entendem todas as coisas pelas quais se adora, portanto, todas as coisas do amor e da fé, e no sentido supremo entende-se o Senhor mesmo, porque onde Ele está, aí estão todas as coisas do amor e da fé. Que estas e aquelas coisas se entendam pelo ‘nome de Jehovah’, ‘de Deus’, ‘do Senhor’ e ‘de Jesus Cristo’ vê-se acima (n. 102, 135 e 224), e também se vê por essas palavras do Senhor:
“Se dois de vós consentirem em Meu nome sobre a terra sobre qualquer coisa, o que quer que pedirem lhes será feito por Meu Pai, que está nos céus; porque onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, aí estou no meio deles” (Mt. 18:19, 20).
Aí, por ‘consentir em nome do Senhor’ e ‘reunirem-se em Seu nome’ não se entende no nome somente, mas nas coisas que são do Senhor, que são os veros da fé e os bens do amor, coisas pelas quais é adorado.
[4] Que ‘temer’, quando se trata do Senhor, signifique adorar e reverenciar é porque no culto e em todas as suas coisas há um temor santo e venerável, que é que deve ser honrado e de nenhum modo ofendido. É, pois, assim como as criancinhas em relação aos pais, os pais em relação às criancinhas, as esposas em relação aos maridos e os maridos para com as esposas, como também os amigos em relação aos amigos. Esse temor com respeito está em todo amor e em toda amizade, a ponto de que o amor e a amizade sem esse temor e respeito é, por assim dizer, como a comida sem sal, que é insossa. Daí é, agora, que ‘temer ao Senhor’ é adorá-Lo por tal amor.
[5] É dito que ‘temer o Teu nome’ significa adorar o Senhor, e, no entanto, por ‘aqueles que O temem’ se entendem aqui os estão fora da igreja, para os quais o Senhor é, todavia, desconhecido, pelo fato de eles não terem a Palavra. Não obstante, são aceitos pelo Senhor todos dentre aqueles que têm de Deus a ideia do Humano, pois Deus sob a forma Humana é o Senhor. Mas todos, seja dentro ou fora da igreja, que não pensam em Deus como sendo um Homem, esses, quando vêm à sua vida espiritual, o que acontece após a saída deste mundo, não são aceitos pelo Senhor, porque não têm ideia alguma determinada sobre Deus, mas indeterminada, o que nada é. E se há alguma ideia, ela é, todavia, dissipada. Esta é a causa por que todos os que das terras vêm ao mundo espiritual são primeiros examinados quanto à ideia que tiveram sobre Deus e trouxeram consigo. Se não é como a de um Homem, são enviados aos lugares de instrução e instruídos de que o Senhor é o Deus do céu e da terra; e que importa pensar no Senhor quando pensam sobre Deus, e que de outro modo não haveria conjunção alguma com Deus e, daí, nenhuma consociação com os anjos. Então, todos os que viveram a vida de caridade recebem a instrução e adoram o Senhor, enquanto todos os que dizem terem estado na fé, mas não na vida da fé, que é a caridade, não recebem a instrução; são, por isso, separados e exilados em lugares abaixo dos céus, alguns nos infernos, outros na terra que na Palavra se chama “terra inferior”, onde sofrem duras coisas. Mas os gentios, para os quais as leis da religião foram leis da vida, recebem mais do que os cristãos a doutrina sobre o Senhor, e isto principalmente pelo fato de não terem tido a respeito de Deus outra ideia senão como a do Divino Homem. Essas coisas foram ditas para que se saiba de onde procede que por ‘temer o Teu nome’ se entende adorar o Senhor.
[6] Em muitas passagens na Palavra se diz ‘temer Jehovah Deus’ e por esta expressão entende-se adorar. Por isso dir-se-á em poucas palavras que culto em particular se entende por ‘temer a Deus’. Todo culto a Jehovah Deus deve provir do bem do amor por meio dos veros. O culto que provém do bem do amor somente não é culto, nem é o culto o que provém dos veros sem o bem do amor. Deve haver ambos, pois o essencial do culto é o bem do amor, mas o bem existe e é formado pelos veros, pelo que todo culto deve ser pelos veros oriundos do bem. Como é assim, por isso na maioria das passagens na Palavra onde se diz ‘temer a Jehovah Deus’ também se diz ‘observar’ e ‘praticar as Suas palavras e preceitos’. Aí, portanto, ‘temer’ significa o culto pelos veros, e ‘observar e praticar’, o culto pelo bem do amor, pois ‘praticar’ pertence à vontade, assim, ao amor e ao bem, e ‘temer’ pertence ao entendimento, assim, à fé e ao vero, pois todo vero que pertence à fé é propriamente do entendimento, e todo bem que pertence ao amor é propriamente da vontade. Daí se pode ver que ‘o temor a Jehovah Deus’ se diz do culto pelos veros da doutrina, os quais também se chamam veros da fé. Que esse culto se entenda pelo ‘temor a Jehovah Deus’ é porque o Divino Vero faz o temor, pois condena os maus ao inferno, mas não o Divino Bem; este remove a danação, na medida em que é recebido, por meio dos veros, pelo homem e pelo anjo. Daí se pode ver que quanto mais o homem está no bem do amor, mais há o temor a Deus. E o pavor e o terror desvanecem e se tornam um temor santo com reverência na proporção que o homem está no bem do amor e, daí, nos veros, isto é, o quanto de bem houver em seus veros. Daí se segue que o temor no culto varia em cada um segundo o estado de sua vida, e também varia a santidade com reverência, que está no temor naqueles que estão no bem, segundo a recepção do bem pela vontade e segundo a recepção do vero pelo entendimento, isto é, segundo a recepção do bem pelo coração e a recepção do vero pela alma.
[7] Mas as coisas que ora foram ditas podem ser vistas mais evidentemente pelas seguintes passagens na Palavra. Em Moisés:
“O que Jehovah Deus... pede de ti, senão que temas a Jehovah teu Deus, para andares em todos os Seus caminhos, e para amá-Lo, e para servires a Jehovah teu Deus, de todo o teu coração e de toda a tua alma?” (Dt. 10:12, 20).
Diz-se ‘temer a Jehovah Deus’, ‘andar em Seus caminhos’, ‘amá-Lo’ e ‘servi-Lo’, e por todas essas expressões se entende o culto pelos veros oriundos do bem. O culto pelos veros se entende por ‘temer a Jehovah Deus’ e ‘servi-Lo’, e o culto pelo bem se entende por ‘andar em Seus caminhos’ e ‘amá-Lo’, pelo que também se diz ‘de todo o coração’ e ‘de toda a alma’; o ‘coração’ significa o bem do amor e da caridade, que pertence à vontade, e a ‘alma’ significa o vero da doutrina e da fé, que pertence ao entendimento, porque o coração corresponde ao bem do amor e, no homem, à sua vontade, e a alma corresponde ao vero da fé e, no homem, o seu entendimento, pois pela ‘alma’ se entende a animação ou a respiração do homem, o que também se chama seu espírito. (Que a ‘alma’ signifique na Palavra a vida da fé e o ‘coração’ a vida do amor vê-se nos Arcanos Celestes, n. 2930, 9050 e 9281).
[8] No mesmo:
“Após Jehovah vosso Deus ireis, e a Ele temereis, para observardes os Seus preceitos e ouvirdes a Sua voz, e O servirdes, e a Ele vos apegardes” (Dt. 13:4);
‘ir após Jehovah Deus’, ‘observar os Seus preceitos’ e ‘apegar-se a Ele’ significam o bem da vida, assim, o bem do amor, do qual vem o culto; e ‘temer a Jehovah Deus’, ‘ouvir a Sua voz’ e ‘servi-Lo’ significam os veros da doutrina, assim, os veros pelos quais há o culto. Visto que todo culto deve ser pelos veros do bem e não pelos veros sem o bem, nem pelo bem sem os veros, por isso em cada coisa da Palavra há um casamento do bem e do vero, como nas passagens já citadas e também nas que se seguem. (A respeito da conjunção do bem e do vero em cada coisa da Palavra vê-se acima, n. 238, ao fim, 288 e 660).
[9] No mesmo:
“A Jehovah teu Deus temerás, a Ele servirás e a Ele te apegarás, e em Seu nome jurarás” (Dt. 10:20).
Aqui, também, ‘temer a Jehovah Deus’ e ‘servi-Lo’ envolvem os veros do culto, e ‘apegar-se a Jehovah Deus’ e ‘jurar em Seu nome’ envolvem o bem do culto, pois ‘apegar-se’ é um vocábulo do bem do amor, visto que quem ama se apega, semelhantemente a ‘jurar em nome de Jehovah’, pois por aí se confirma o que se há de fazer. Que ‘servir’ envolva os veros do culto é porque pelos ‘servos’ se entendem na Palavra os que estão nos veros, e isto porque os veros servem ao bem (vide acima, n. 6 e 409).
[10] No mesmo:
“Para que temas a Jehovah teu Deus, para observares todos os Seus estatutos e Seus preceitos; ... a Jehovah teu Deus temerás, e a Ele servirás, e em Seu nome jurarás. Não irás após outros deuses. ... Jehovah nos ordenou fazer todos estes estatutos, para temermos a Jehovah nosso Deus” (Dt. 6:2, 13, 14, 24).
O culto pelos veros do bem, ou pela fé do amor, também é semelhantemente descrito aqui. Por ‘temer a Jehovah Deus e servi-Lo’ entende-se o culto pelos veros da fé, e por ‘observar e praticar os estatutos e preceitos’ e ‘jurar em nome de Jehovah’ entende-se o culto pelo bem do amor, pois ‘observar e praticar os estatutos e preceitos’ é o bem da vida, que é o mesmo que o bem do amor, pois quem ama algo vive isso. Semelhantemente, ‘jurar em nome de Jehovah’, pois ‘jurar’ é confirmar com a vida. Que ‘temer Jehovah e servi-Lo’ seja o culto segundo os veros da doutrina foi dito acima. Com efeito, há duas coisas que fazem o culto, a saber, a doutrina e a vida; a doutrina sem a vida não o faz, nem a vida sem a doutrina.
[11] Dá-se de modo semelhante nas passagens seguintes. No mesmo:
“Congrega o povo... para que ouçam, e para que aprendam e temam a Jehovah vosso Deus, e para que observem praticar todas as palavras da lei” (Dt. 31:12);
no mesmo:
“Se não observares praticar todos os preceitos desta lei... para temeres esse nome magnífico e venerável, Jehovah teu Deus” (Dt. 28:58);
no mesmo:
O rei “escreverá para si um exemplar da lei... e lerá nele todos os dias de sua vida, para que aprenda a temer a Jehovah seu Deus, para observar todas as palavras da lei... e estatutos... a fim de praticá-los” (Dt. 17:18, 19);
no mesmo:
“Observarás os preceitos de Jehovah teu Deus, andando em Seus caminhos e temendo-O” (Dt. 8:6);
e no mesmo:
“Quem dará que tenham um coração... para temerem a Mim, e para observarem todos os Meus preceitos todos os dias?” (Dt. 5:29).
Nessas passagens, onde se diz ‘temer a Jehovah Deus’ também se acrescenta ‘observar e praticar os preceitos da lei’ e, também, ‘andar em Seus caminhos’, pelo fato de que, como foi dito, todo culto interno e espiritual a Deus que consiste no bem da vida se fará segundo os veros da doutrina, visto que estes ensinarão. O culto segundo os veros da doutrina é significado por ‘temer a Jehovah’, e o culto pelo bem da vida por ‘observar os preceitos’ e ‘andar em Seus caminhos’. ‘Andar nos caminhos de Jehovah’ é viver segundo os veros da doutrina, e como o culto segundo os veros da doutrina se entende por ‘temer a Jehovah’, por isso se diz que ‘pela lei se aprenderá a temer a Jehovah’. Cumpre saber, porém, que o ‘temor a Jehovah’ é o culto interno espiritual que deve haver no culto externo natural. O culto interno espiritual é pensar e entender os veros, assim, pensar reverente e santamente sobre Deus, que é ‘temê-Lo’; e o culto externo natural é praticar os veros, que é ‘observar os preceitos e as palavras da lei’.
[12] Em David:
“Ensina-me, Jehovah, o Teu caminho, ele em verdade; une o meu coração ao temor do Teu nome” (Sl. 86:10);
por ‘ensinar o caminho’ é significado ensinar o vero segundo o qual se deve viver, pelo que se diz: ‘ensina-o em verdade’. Que o bem do amor deva ser conjunto aos veros da fé é significado por ‘une o meu coração ao temor do Teu nome’; ‘coração’ significa o amor e o ‘temor’, o santo da fé, que devem estar ‘unidos’ ou juntos no culto.
[13] No mesmo:
‘Bem-aventurado todo aquele que teme a Jehovah, o que anda nos Seus caminhos” (Sl. 128:1);
‘temer a Jehovah’, também aqui, é pensar reverente e santamente sobre Deus, e ‘andar em Seus caminhos’ é viver segundo os Divinos veros. Por uma e outra coisas se faz o culto. Mas no culto externo, que é viver segundo os Divinos veros, deve haver o culto interno, que é ‘temer a Jehovah’, pelo que se diz que ‘teme a Jehovah o que anda em Seus caminhos’. No mesmo:
“Bem-aventurado o varão que teme a Jehovah, em Seus preceitos muito se deleita” (Sl. 112:1),
do mesmo modo que acima, pois ‘deleitar-se muito nos preceitos de Jehovah é amá-los, por conseguinte, querê-los e praticá-los.
[14] Em Jeremias:
“Não temeram, nem andaram em Minha lei e em Meus estatutos” (Jr. 44:10);
‘não temer’ está em lugar de não pensar sobre Deus pelos veros da Palavra, assim, não santa nem reverentemente; ‘não andar na lei de Deus e em Seus estatutos’ está em lugar de não viver segundo eles; os ‘preceitos’ são as leis do culto interno, e os ‘estatutos’ são as leis do culto externo.
[15] Em Malaquias:
“Se Eu sou Pai, onde está Minha honra? Se Eu sou o Senhor, onde está o Meu temor?” (Ml. 1:6);
dizem-se ‘honra’ e ‘temor’ porque ‘honra’ se diz do culto pelo bem, e ‘temor’ do culto pelos veros; (que a ‘honra’ se refira ao bem vê-se acima, n. 288 e 345). Por isso também se diz ‘honra’ a respeito do Pai, e ‘temor’ a respeito do Senhor, pois Jehovah é chamado ‘Pai’ por causa do Divino Bem, e ‘Senhor’ por causa do Divino Vero.
[16] No mesmo:
“Minha aliança com” Levi “foi de vida e de paz, as quais lhe dei com temor, e Me temeu” (Ml. 2:5);
por ‘Levi’ aqui se entende o Senhor quanto ao Divino Humano, e pela ‘aliança de vida e de paz’ é significada a união do Divino mesmo com Ele, e por ‘temor’ e ‘temer’ é significado o Vero santo, com o qual há a união.
[17] Em Isaías:
“Repousa sobre Ele o espírito de Jehovah, espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de virtude, espírito de ciência e de temor a Jehovah, donde Sua oferta de incenso está no temor a Jehovah” (Is. 11:2, 3);
também essas expressões são a respeito do Senhor, e por essas palavras se descreve o Divino Vero, no qual e pelo qual há toda sabedoria e inteligência. O Divino Vero – que esteve no Senhor quando estava no mundo e que, após a glorificação do Seu Humano, procede d’Ele – entende-se pelo ‘Espírito de Jehovah’ que repousou sobre Ele. Que daí Ele tenha a Divina sabedoria e o Divino poder entende-se pelo ‘Espírito de sabedoria e de inteligência’ e pelo ‘espírito de conselho e de virtude’. Que daí Ele tenha a onisciência e a santidade mesma no culto entende-se pelo ‘espírito de ciência e de temor a Jehovah’; e como o ‘temor’ significa o culto santo pelo Divino Vero, por isso se acrescenta ‘donde Sua oferta de incenso está no temor a Jehovah’, pois ‘oferta de incenso’ significa o culto pelo Divino espiritual, que é o Divino Vero (que isto seja significado pela ‘oferta de incenso’ vê-se acima, n. 324, 491, 492, 494 e 567). Diz-se ‘espírito de sabedoria, de inteligência, de ciência e de temor’, e pelo ‘espírito de sabedoria’ se entende o Divino celeste, que é o Divino procedente recebido pelos anjos do céu íntimo ou terceiro; pelo ‘espírito de inteligência’ se entende o Divino espiritual, que é o Divino procedente recebido pelos anjos do céu médio ou segundo; pelo ‘espírito de ciência’ se entende o Divino natural, que é o Divino procedente recebido pelos anjos do céu mais externo ou primeiro; e pelo ‘espírito de temor a Jehovah’ se entende todo culto por esses Divinos.
[18] Em Jeremias:
“Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho, para Me temerem todos os dias, para o seu bem... e firmarei com eles uma aliança do século... e Meu temor porei no coração deles, para que não se afastem de após26 Mim” (Jr. 32:39, 40);
‘dar-lhes-ei um só coração e um só caminho para Me temerem’ significa uma só vontade e um só entendimento para adorarem ao Senhor; o ‘coração’ significa o bem da vontade, o ‘caminho’ o vero que conduz, e o ‘temor’ o culto santo daí; ‘firmarei com eles uma aliança do século, e Meu temor porei no coração deles’ significa a conjunção pelo bem do amor e pelos veros desse bem no culto; ‘aliança’ é a conjunção, ‘temor no coração’ é o culto santo pelo vero no bem do amor; ‘para que não se afastem de após Mim’ significa por causa da conjunção. Visto que a conjunção com o Senhor se faz pelos veros do bem e não pelos veros sem o bem, nem pelo bem sem os veros, por isso ambos são citados aí.
[19] Em David:
“Casa de Aarão, confiai em Jehovah... [vós] que temeis a Jehovah, confiai em Jehovah” (Sl. 115:10, 11);
pela ‘casa de Aarão’ são significados todos os que estão no bem do amor, e pelos ‘que temem a Jehovah’ são significados todos os que estão no vero desse bem. No Apocalipse:
“O anjo que tem o evangelho eterno disse: Temei a Deus e dai-Lhe... glória; adorai-O” (Ap. 14:7);
por ‘temer a Deus e dar-Lhe glória’ é significado adorar o Senhor pelos veros santos, e ‘adorá-Lo’ significa pelo bem do amor. Em David:
“Tema a Jehovah toda a terra, d’Ele se aterrorizem todos os habitantes do mundo; ... eis que os olhos de Jehovah estão sobre os que O temem, os que esperam a Sua misericórdia” (Sl. 33:8, 18);
no mesmo:
“O beneplácito de Jehovah está naqueles que O temem, nos que esperam a Sua misericórdia” (Sl. 147:11).
Visto que o ‘temor de Jehovah’ significa a recepção do Divino Vero e a ‘misericórdia’ a recepção do Divino Bem, por isso se diz que os ‘olhos’ e o ‘beneplácito de Jehovah estão sobre os que O temem, sobre os que esperam a Sua misericórdia”.
[20] Em Isaías:
“Honrar-Te-á um povo poderoso, a cidade de nações vigorosas Te temerá” (Is. 25:3);
também aqui, o culto pelo bem é significado por ‘honrar’, pois a honra se diz do bem do amor; e o culto pelos veros é significado por ‘temer ao Senhor’, como acima se disse; o ‘povo poderoso’ significa os homens da igreja que estão nos veros do bem, pois daí vem todo poder; ‘cidade de nações vigorosas’ significa aqueles que estão nos veros da doutrina e, por eles, no bem do amor; e como daí vem todo poder espiritual, por isso são chamados ‘nações vigorosas’. Por essas palavras também se vê claramente que há um casamento do bem e do vero em cada coisa da Palavra, pois ‘honrar’ se diz do bem e ‘temer’ do vero, ambos no culto. Chamam-se ‘povo’ aqueles que estão nos veros e por estes no bem, enquanto se chamam ‘nações’ aqueles que estão no bem e por este nos veros. E como da conjunção do bem e do vero vem todo poder no mundo espiritual. por isso o ‘povo’ é chamado ‘poderoso’, e as nações, ‘vigorosas’.
[21] O ‘temor a Jehovah’ significa o culto por meio dos veros, culto no qual há santidade, também nas passagens seguintes. Em Isaías:
“O coração” do povo “se afasta para longe de Mim, e o temor deles para comigo se tornou preceito ensinado de homens” (Is. 29:13);
no mesmo:
“Quem há entre vós que teme a Jehovah, que ouve a voz de Seu servo? Quem anda nas trevas não tem esplendor, confiou no nome de Jehovah e apoiou-se em seu Deus” ???(Is. 50:10);
em Jeremias:
“Ouvirão todo bem que Eu lhes faço, para que temam e se comovam sobre todo bem, e sobre toda paz que Eu lhes farei” (Jr. 33:9);
em David:
“O Anjo de Jehovah acampa-se ao redor dos que O temem, para que os livre... Temei a Jehovah, [vós], santos Seus, porque nada falta aos que O temem” (Sl. 34:7, 9);
no mesmo:
“Para os quais não há mudanças, e não temem a Deus” (Sl. 55:19);
no mesmo:
“O princípio da sabedoria é o temor a Jehovah; bom entendimento têm todos que a praticam” (Sl. 111:10).
Visto que o ‘temor’ se refere ao Divino Vero, pelo qual há santidade no culto e pelo qual há sabedoria e inteligência, por isso se diz: ‘o princípio da sabedoria é o temor a Jehovah; bom entendimento’, isto é, inteligência, ‘têm todos que a praticam’. No mesmo:
“Os que temem a Jehovah o louvarão, toda semente de Jacob O honrará, e toda semente de Israel O temerá” (Sl. 22:23);
em Lucas:
“A misericórdia” de Deus “na geração das gerações para os que O temem” (Lc. 1:50).
[22] Que o ‘temor a Jehovah Deus’ envolva e, daí, signifique ter santidade e reverenciar, por conseguinte, adorar santa e reverentemente, pode-se ver também por estas passagens. Em Moisés:
“Meu sabbath observareis, e Meu santuário temereis; ...reverenciareis” (Lv. 19:30; 26:2);
no mesmo:
“Obra de Jehovah, que é temível (reverenda), aquela que farei” (Êx. 34:10);
e no mesmo:
E Jacob “temeu, e disse: Quão temível (reverendo) é este lugar; este não é outro senão a casa de Deus, e... a porta do céu” (Gn. 28:17).
Que ‘temer’, quando se trata do Divino e da santidade do céu e da igreja, signifique reverenciar e agir reverentemente, é vidente por essas passagens e, também, pelo fato de que o mesmo vocábulo que significa temer também significa reverenciar e venerar, na língua hebraica. isto também se vê por esta passagem em Lucas:
“Havia um juiz numa certa cidade que não temia a Deus nem reverenciava homem... o qual disse consigo: Ainda que não temo a Deus nem reverencio homem...” (Lc. 18:2, 4);
é dito ‘temer a Deus e reverenciar homem’ porque temer significa reverenciar num grau superior.
[23] Em Mateus:
Jesus disse: “Não temais aqueles que podem matar o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes Aquele que pode destruir o corpo e a alma no Geheena” (Mt. 10:28; Lc. 12:4, 5, 7).
Aqui, porém, por ‘temer’ é significado ter temor a fim de não morrer espiritualmente, por conseguinte, o temor natural, que é ter medo e pavor. Mas o temor espiritual é um temor santo, que está em todo amor espiritual variavelmente segundo a qualidade do amor e segundo a sua quantidade. Nesse temor está o homem espiritual. Ele também sabe que Deus não faz mal algum, ainda menos destrói alguém quanto ao corpo e a alma na Gehenna, mas benéfica a todos, e que trazer a Si cada um ao céu, quanto ao corpo e quanto à alma. Assim, seu temor é um temor santo de que o homem se desvie desse Divino amor pelo mal da vida e pelo falto da doutrina, e assim se prejudique. Mas o temor natural é ter medo, pavor e terror por causa do perigo, da pena e, assim, do inferno, que é um temor que há em todo amor corpóreo, também variavelmente segundo a qualidade do amor e segundo a sua quantidade. O homem natural, que tem esse temor, não sabe outra coisa senão que Deus faz mal aos males, condena-os, lança no inferno e castiga; por isso é que eles temem e têm medo do Senhor. Neste temor este a maioria dos que eram da nação judaica e israelita, porque foram homens naturais. Por isso é que se diz tantas vezes na Palavra ‘ter pavor e estremecer por causa de Jehovah’ e também estiverem no pavor e no estremecimento. Daí é que se diz dos filhos de Israel que eles ‘tremiam’ quando a Lei Divina ou o Divino Vero era promulgado do Monte Sinai (Êx. 20:18-20; Dt. 5:23-25).
[24] É esse temor que, em parte, se entende pelo
Pavor de Isaac, pelo qual Jacob jurou a Labão (Gn. 31:42, 53),
pois por ‘Abrahão’, ‘Isaac’ e ‘Jacob’ na Palavra entende-se o Senhor; por ‘Abrahão’ o Senhor quanto ao Divino celeste, por ‘Isaac’ quando ao Divino espiritual, e por ‘Jacob’ quanto ao Divino natural. O Divino espiritual, que ‘Isaac’ significava, é o Divino Vero, que aterroriza os homens naturais, e como Labão era um homem natural, por isso Jacob lhe jurou pelo ‘pavor’ ou terror ‘de Isaac’. Quase o mesmo temor se entende em Isaías:
“A Jehovah Zebaoth santificareis, pois Ele é vosso temor e vosso pavor” (Is. 8:13);
aí se diz ‘temor’ por causa do homem espiritual, e ‘pavor’ por causa do natural. A fim de que o homem espiritual não esteja num temor tal qual o do homem natural, por isso se diz: ‘não temas’. Em Isaías:
Jacob e Israel, “Não temas, porque te remi, chamo pelo teu nome, tu és Meu” (Is. 43:1);
em Lucas:
“Não temas, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” (Lc. 12:32);
e em Jeremias:
“Não temas, servo Meu, Jacob... e não te aterrorizes, Israel, porque Eu te salvo do longínquo;... Jacob estará tranquilo e quieto, não haverá quem o aterrorize” (Jr. 30:9, 10);
e em muitas outras passagens. Além disso, que o ‘temor’, o ‘terror’, a ‘consternação’ e coisas semelhantes signifiquem as várias comoções da mente e as mudanças de estado da mente vê-se acima (n. 667 e 677).
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