. “Estes são os que seguem o Cordeiro aonde quer que vá”. Que isto signifique os que são conjuntos ao Senhor pelo reconhecimento de Seu Divino Humano e por uma vida segundo os Seus preceitos vê-se pela significação de ‘Cordeiro’, que é o Senhor quanto ao Divino Humano (de que se tratou acima, n. 314); pela significação de ‘segui-Lo aonde quer que vá’, que é reconhecer o Seu Divino e cumprir os Seus preceitos. Por ‘seguir o Senhor’ é significado o mesmo que ‘ir’ e ‘andar após “Ele’; que ‘ir’ e ‘andar’ após o Senhor signifique reconhecer, obedecer, cumprir e viver por ele e com Ele vide acima (n. 787). A razão pela qual ‘seguir o Senhor’ signifique essas coisas é porque ninguém pode seguir o Senhor por si, mas pelo Senhor mesmo, porque o Senhor atrai após Si o homem que quer segui-Lo, mas não pode atrair alguém que não quer segui-Lo. Com efeito, o Senhor opera isso no homem conforme o homem O segue [como] por si mesmo; assim, Ele influi em seu livre e faz isto por causa da recepção e da implantação do vero e do bem nele, e, daí, por causa da reforma e da regeneração, pois, a não ser que ao homem pareça seguir o Senhor como por si, isto é, reconhecer o Seu Divino e cumprir os Seus preceitos como por si mesmo, não haveria apropriação e conjunção e, daí, não haveria reforma e regeneração; pois tudo o que entra no homem e se torna como seu é o que o homem recebe pelo livre, isto é, conforme como por si mesmo pensa ou fala, ou como por si mesmo quer e faz. No entanto, o homem deve crer, como de fato a coisa é em si, que ele não faz isto por si mesmo, mas pelo Senhor. Por isso não diz que ele deve fazê-lo por si, mas como por si. A razão pela qual isto é assim é, também, porque o homem não percebe a operação do Senhor em sua vontade e, daí, em seu pensamento, porque o homem nada sabe de sua conjunção com os anjos; por isso ele pensa que tudo o que ele quer e pensa, quer e pensa por si, pelo que não pode saber outra coisa senão que faz isto por si, quando, todavia, todo bem influi, tanto o que ele pensa quanto o que ele quer e daí faz. E como isto ele sabe pela doutrina da igreja, a saber, que todo bem vem de Deus, por isso deve crer que não faz o bem por si, embora o faça como por si. Assim se entende o que o Senhor ensinou em Marcos:
“O reino de Deus é assim como se o homem lançasse a semente sobre a terra, então dormisse e se levantasse de noite e de dia, mas a semente germina e cresce enquanto ele não o sabe” (Mc. 4:26, 27);
e, em João,
“O homem não pode tomar coisa alguma a menos lhe seja dada do céu” (Jo. 3:27);
e no mesmo:
“Quem permanece em Mim, e eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim não podeis fazer coisa alguma” (Jo. 15:5).
[2] Que reconhecer o Divino Humano do Senhor e cumprir os Seus preceitos seja segui-Lo é porque somente esses podem ser conjuntos ao Senhor. Que cada um seja conjunto ao Senhor segundo o reconhecimento e a confissão d’Ele de coração, e segundo a vida, pode-se ver pelo fato de que todos os anjos do céu não reconhecer outro Divino senão o Divino do Senhor, e pelo fato de todos os anjos dos céus viverem segundo as leis da ordem, que são os Seus preceitos, isto é, viverem no Divino que procede do Senhor, que se chama Divino Vero. Como vivem assim, eles vivem numa esfera celeste ou no éter celeste no qual ninguém pode ser admitido a menos que esteja na vida pelo Senhor. Se outro entrasse nesse éter seria como ratos postos num sifão do qual se exaurisse o ar.
[3] Por aí se pode ver o que é significado no sentido espiritual por ‘seguir o Senhor aonde quer que vá. O mesmo é significado por ‘segui-Lo’ nas passagens que se seguem. Por exemplo, em João:
Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo; quem Me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo. 8:12);
‘Eu sou a luz do mundo’ significa que Ele é o Divino Vero mesmo; ‘quem Me segue’ significa quem reconhece o Seu Divino e cumpre os Seus preceitos; ‘não andará em trevas’ significa que não estará nos falsos; ‘mas terá a luz da vida’ significa que estará nos Divinos veros que ensinam ao homem a vida eterna e conduzem ao céu. Que por ‘seguir o Senhor’ aí não se entenda segui-Lo, mas reconhecer o Seu Divino e obedecer a Ele, é evidente.
[4] No mesmo:
O Pastor das ovelhas, “quando conduzir para fora [Suas] próprias ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas O seguem, porque conhecem a Sua voz; todavia, não seguem o estranho, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos. ... As Minhas ovelhas ouvem a Minha voz, e Eu as conheço, e elas Me seguem” (Jo. 10:4, 5, 27).
Também aqui, por ‘seguir o Senhor’ se entende reconhecer o Seu Divino e obedecê-Lo, pois se diz que ‘vai adiante das [Suas] próprias ovelhas, e as ovelhas O Seguem, e conhecem e ouvem a Sua voz’; ‘conhece e ouvir a voz do Senhor’ significa praticar os seus preceitos.
[5] Nos Evangelhos:
“Quem quer que quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo... e siga-Me” (Mt. 16:24; Mc. 8:34; Lc. 9:23).
Que ‘ir após o Senhor’ e ‘segui-Lo’ seja negar a si mesmo é evidente. E negar a si mesmo é não se conduzir por si mesmo, mas pelo Senhor. E nega a si mesmo aquele que foge dos males e tem aversão a eles porque são pecados. Quando o homem tem aversão aos males ele é conduzido pelo Senhor, pois pratica os Seus preceitos não por si, mas pelo Senhor. Coisas semelhantes são significadas por ‘seguir o Senhor’ também em outras passagens (como em Mt. 19:21, 28; Mc. 2:14, 15; 3:7, 8; 10:21, 28, 29; Lc. 18:22, 28; Jo. 12:26; 13:36, 37; 21:19-22).
[6] Por aí se pode ver que ‘seguir o Senhor’ é ser conduzido por Ele e não por si mesmo; e ninguém pode ser conduzido Senhor senão aquele que se conduz a si próprio, e é conduzido por si próprio cada um que não foge dos males que são contra a Palavra e, assim, contra Deus, por conseguinte, porque são pecados e vêm do inferno. Todo aquele que assim não foge dos males e não tem aversão a eles é conduzido por si mesmo. A razão disso é que o mal, que está no homem por hereditariedade, faz a sua vida, porque isto é o seu proprium; e antes de eles serem removidos o homem faz todas as coisas por eles, assim, por si. Mas é diferente quando os males foram removidos, o que acontece quando o homem foge deles porque são infernais; então o Senhor entra com os veros e bens do céu e o conduz. A razão principal é porque cada homem é o seu amor, e o homem, quanto ao seu espírito, que vive após a morte, não é outra coisa senão a afeição que é de seu amor, e todo mal vem de seu amor e, por conseguinte, é o seu amor. Segue-se daí que o amor ou a afeição do homem não pode ser reformada senão pela fuga e aversão espiritual dos males, que é a fuga e a aversão deles porque são infernais. Por aí se ver agora o que é ‘seguir o Senhor aonde quer que vá’.
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