. “E linho fino e púrpura”. Que isto signifique os veros e bens de origem celeste, profanados, vê-se pela significação de ‘linho fino’, que são os veros de origem celeste (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘púrpura’, que são os bens de origem celeste (de que se tratou no n. 1042); aqui, porém, são esses veros e bens profanados, porque o linho fino e a púrpura são chamados ‘mercadorias da Babilônia’, e pela ‘Babilônia’, como meretriz e mãe das escortações e das abominações da terra, são significadas as profanações do vero e do bem. Os veros e bens de origem celeste são os veros e bens naqueles que estão no amor ao Senhor, os quais são chamados celestes e se distinguem dos veros e bens de origem espiritual, que são significados por ‘seda e escarlate’, que foram citados há pouco. Os veros e bens de origem celeste são profanados por eles pelo fato de terem transferido a si a autoridade Divina do Senhor de salvar o gênero humano, por conseguinte, também o amor a Ele [transferido ao papa] como substituto e aos seus ministros. No entanto, o Senhor não pode ser amado quando Ele não tem autoridade alguma de salvar, mas é amado o homem que se põe no lugar do Senhor. Eles dizem que o Senhor é amado porque deu essa autoridade ao homem, e é amado por aqueles que receberam essa autoridade, e também é santamente adorado e cultuado pelo outros. Mas o amor ao Senhor não pode existir de modo algum neles, porque o amor de dominar sobre o céu e sobre a igreja é inteiramente contrário, pois é o amor de si, que é um amor diabólico, pelo qual o Senhor não pode ser amado. Esse amor, considerado em si mesmo, é, antes, o ódio contra o Senhor, no qual também se transforma quando eles se tornam espíritos e a dominação lhes é tirada. Então eles perseguem a todos os que estão no amor ao Senhor. Por aí é evidente de que maneira eles profanam os veros e bens que são de origem celeste.
[2] Que o ‘linho fino’ signifique os veros de origem celeste, pode-se ver pelas passagens que se seguem. Em Ezequiel:
“Vesti-te de bordado... calcei-te de [pele de] texugo, e cingi-te de linho fino, e cobri-te de seda;... assim foste ornada de ouro e de prata, e tuas vestes eram linho fino, e seda, e bordado” (Ez. 16:10, 13).
Essas palavras são a respeito de Jerusalém, pela qual se entende a igreja, aqui em sua primeira instauração. ‘Bordado e [pele de] texugo’ aí significam as cognições do vero e do bem da Palavra; ‘linho fino e seda’ significam os veros de origem celeste e os veros de origem espiritual. Essas coisas foram chamadas ‘vestes’ porque pelas ‘vestes’ são os significados os veros com os bens o bem é revestido. No mesmo:
“Linho fino em bordado [do Egito] foi a tua expansão... e púrpura das ilhas de Elischa foi a tua cobertura” (Ez. 27:7).
Essas a respeito de Tiro, pela qual é significada a igreja quanto às cognições do bem e do vero. Essas cognições são significadas pelo ‘bordado do Egito’, os veros pelo ‘linho fino’, e o bem pela ‘púrpura’, ambos de origem celeste. Em Lucas:
“Havia certo homem, rico, que se vestia de púrpura e linho fino, e todos os dias se regalava em delícias esplendidamente” (Lc. 16:9).
Pelo ‘homem rico’ aí se entende a nação judaica, que é ditar ser ‘vestida de púrpura e linho fino’ pelo fato de nela haver a Palavra, da qual eles tiveram os bens e veros; os bens aí se entendem pela ‘púrpura’, e os veros pelo ‘linho fino’, ambos de origem celeste; por ‘Lázaro’ que jazia à sua entrada se entendem os gentios, que não tiveram a Palavra.
[3] Uma vez que o ‘linho fino’, que também é o ‘algodão’, significava os veros de origem celeste, e as vestes de Aarão significavam os Divinos veros, porque ele representava o Senhor, por isso
Sua mitra e seu cinto foram tecidos de linho fino e algodão (Êx. 28:39; 39:27).
E como pelos véus [aulaea] e cortinas do tabernáculo eram representadas as coisas da igreja que cobrem, e elas são os veros, por isso também
Eles eram tecidos de algodão ou linho fino (Êx. 26:1; 27:9, 18; 36:8; 38:9, 16).
Pelo ‘linho fino’ é significado o mesmo nas seguintes passagens no Apocalipse:
“Chegou o tempo das núpcias do Cordeiro, e a Sua esposa se preparou; e foi lhe dado vestir-se de linho fino, puro e brilhante” (Ap. 19:7, 8).
Os exércitos d’Aquele que estava montado no cavalo branco “O seguiam sobre cavalos brancos, vestidos de linho fino branco e puro” (Ap. 19:14).
que o ‘linho fino’ signifique o vero de origem celeste é porque o linho fino era uma espécie de linho branquíssimo do qual se faziam as vestes, e pelo ‘linho’, como também pela ‘brancura’, é significado o vero, e pela ‘veste feita do mesmo’, o vero limpo e puro segundo a brancura.
* * * * * * *
[4] Continuação sobre a Fé Atanasiana e sobre o Senhor
O inferno onde estão os que se chamam diabos é o amor de si, e o inferno onde estão os que se chamam satanases é o amor do mundo. Que o inferno diabólico seja o amor de si é porque esse amor é oposto ao amor celeste, que é o amor ao Senhor; e que o inferno satânico seja o amor do mundo é porque esse amor é oposto ao amor espiritual, que é o amor para com o próximo. Ora, como esses dois amores são opostos aos dois amores do céu, por isso o inferno e os céus são opostos entre si, pois todos os que estão nos céus visam o amor ao Senhor e ao próximo, enquanto todos os que estão nos infernos visam a si e o mundo. Todos os que estão nos céus amam o Senhor e amam o próximo, mas todos os que estão nos infernos amam a si mesmos e o mundo, e, daí, têm ódio ao Senhor e ao próximo. Todos os que estão nos céus pensam o vero e querem o bem, porque o fazem pelo Senhor, mas todos os que estão nos infernos pensam o falso e querem o mal, porque o fazem por si mesmos. Por isso é que todos os que estão nos infernos aparecem virados, com a face voltada para trás em relação ao Senhor, e também invertidos, com os pés para cima e a cabeça para baixo. Essa aparência vem dos seus amores, que são opostos aos amores do céu.
[5] Como o inferno é o amor de si, também é um fogo, porque todo amor corresponde ao fogo, e, no mundo espiritual, de longe se apresenta à vista como fogo, embora não seja fogo, mas amor. Daí é que o infernos aparecerem interiormente como que fogueados e, por fora, como as emanações do fogo na fumaça de fornalhas ou de incêndios. Às vezes, também, os próprios diabos aparecem como fogo de brasas. O calor deles proveniente desse fogo é como uma efervescência das faces, que é a concupiscência, e a luz desse modo é apenas a aparência da luz vinda das fantasias e das confirmações do mal por meio dos falsos, mas não é luz, pois quando a luz do céu influi eles têm escuridão, e quando o calor do céu influi eles têm frio. No entanto, eles veem por sua luz e vivem por seu calor, mas veem como corujas, mochos e morcegos, cujos olhos escurecem à luz do céu, e vivem semimortos. O que é vivo neles procede do fato de poderem pensar, querer, falar, fazer e, assim, ver, ouvir, saborear, cheirar e sentir, vivo esse que é somente uma faculdade oriunda da vida que vem de Deus, agindo neles por fora segundo a ordem e urgindo continuamente para a ordem. Por essa faculdade é que eles vivem eternamente. E o que é morto neles vem dos males e falsos oriundos dos seus amores. Daí é que a vida deles, por causa dos seus amores, não é vida considerada em si mesma, mas morte. Por isso na Palavra o inferno é chamado ‘morte’, e os que ali estão, ‘mortos’.
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