DIVPROV &215

Sabedoria Angélica sobre a DIVINA PROVIDÊNCIA
Emanuel Swedenborg
Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Divina Providência

. (i.) As coisas temporais se referem às dignidades e às riquezas, assim, às honras e ao ganho no mundo. As coisas temporais são muitas, mas todas elas se referem às dignidades e às riquezas. Pelas coisas temporais se entendem aquelas que perecem com o tempo ou acabam juntamente com a vida do homem no mundo, ao passo que pelas eternas se entendem as que não perecem nem acabam com o tempo, por conseguinte, juntamente com a vida no mundo. Visto que, como se disse, todas as coisas temporais se referem às dignidades e às riquezas, importa conhecer essa seqüência, ou seja: [Primeiro:] O que são e de onde vêm as dignidades e riquezas. [Segundo:] O que é amor das dignidades e riquezas por causa delas mesmas e o que é o amor delas por causa dos usos. [Terceiro:] Esses dois amores são distintos entre si como o inferno e o céu. [Quarto:] A diferença entre esses dois amores é dificilmente conhecida pelo homem. Mas tratar-se-á de cada um desses pontos distintamente.
[2] Primeiro: O que são e de onde vêm as dignidades e riquezas. As dignidades e riquezas eram coisas inteiramente diferentes do que se tornaram nos tempos seguintes. As dignidades nos tempos antiqüíssimos não foram outra coisa senão as que existem entre pais e filhos, dignidades essas que foram dignidades do amor, cheias de respeito e veneração, não por causa de seu nascimento, mas por causa da instrução e da sabedoria vindas deles, que é outro nascimento, espiritual em si, pois era de seu espírito. Só essa dignidade existiu nos tempos antiqüíssimos, em que então se habitava separadamente por nações, famílias e casas, e não sob impérios, como hoje. Era no pai de família que estava essa dignidade. Os antigos chamaram esses tempos de Idade de Ouro.
[3] Após esses tempos surgiu [invasit] gradativamente o amor de dominar pelo prazer único desse amor; e como então surgiu ao mesmo tempo as inimizades e hostilidades contra que os que não queriam se submeter, as nações, famílias e casas precisaram se congregar em comunidades e se sujeitaram a um governante a quem no começo chamavam juiz, em seguida príncipe e finalmente rei e imperador. E também começaram a se prover de torres, paliçadas e muralhas. Do juiz, príncipe, rei e imperador, como uma cabeça no corpo, surgiu como que um contágio de dominar sobre muitos, donde nasceram os graus de dignidades e também de honras segundo as dignidades, e, com elas, o amor de si e o orgulho da prudência própria.
[4] O mesmo aconteceu com o amor das riquezas. Nos tempos antiqüíssimos, quando as nações e famílias habitavam distintamente entre si, não havia outro amor das riquezas senão o de possuírem as coisas necessárias da vida, que adquiriam para si por meio de rebanhos e gados e por meio de lavouras, campos e jardins, de que lhes provinha o alimento. Entre as coisas necessárias de suas vidas estavam também a arrumação da casa, ornada de todo gênero de utensílios, e também as vestimentas. Ao cuidado e à obra de todas essas coisas se dedicavam os pais, filhos, criados e criadas que havia na casa.
[5] Mas, depois que o amor de dominar surgiu e destruiu essa coisa pública, também surgiu o amor de possuírem riquezas além das necessidades, que cresceu ao extremo de quererem possuir todas as riquezas dos outros. Esses dois amores são como consangüíneos, pois quem quer dominar sobre todas as coisas, quer também possuí-las todas, uma vez que assim todos se tornam servos e eles, somente, senhores. Isso se vê claramente por aqueles da nação católica, que exaltaram seu domínio até o céu e o trono do Senhor, sobre o qual se puseram, e também procuraram todas as riquezas da terra e ampliaram sem fim os seus tesouros.
[6] Segundo: O que é amor das dignidades e riquezas por causa delas mesmas e o que é o amor delas por causa dos usos. O amor das dignidades e das honras por causa das dignidades e honras é o amor de si, propriamente o amor de dominar pelo amor de si, e o amor das riquezas e da opulência por causa das riquezas e da opulência é o amor do mundo, propriamente o amor de possuir os bens dos outros por um artifício qualquer. Mas o amor das dignidades e das riquezas por causa dos usos é o amor dos usos, que é o mesmo que o amor ao próximo, pois aquilo por que o homem age é um fim de onde as demais coisas procedem; é o primeiro e o primário, e as demais coisas são meios e são secundárias.
[7] O amor das dignidades e das honras por causa delas mesmas - que é o mesmo que o amor de si, propriamente o amor de dominar pelo amor de si - é o amor do proprium, e o proprium do homem é inteiramente o mal. Assim é que se diz que o homem nasce em todo mal e que seu hereditário não é outra coisa senão o mal. O hereditário do homem é o seu proprium, no qual está e ao qual vem pelo amor de si e principalmente pelo amor de dominar pelo amor de si. Porque o homem, ao nascer nesse amor, não visa senão a si mesmo e, assim, imerge seus pensamentos e afeições no proprium. Daí vem que o amor de si tem interiormente o amor de fazer o mal. A razão é porque não ama o próximo, mas a si só, e quem ama só a si não vê os outros senão como fora de si, ou os vê como vis ou como nada, aos quais despreza em relação a si e considera como nada fazer-lhes mal.
[8] Por isso é que aquele que está no amor de dominar pelo amor de si considera como nada defraudar o próximo, adulterar com a esposa dele, difamá-lo, aspirar a vingança contra ele até a morte, fazer-lhe crueldades e outras coisas semelhantes. Isso o homem deriva do fato de o diabo mesmo, com quem está conjunto e pelo qual é conduzido, não ser outra coisa senão o amor de dominar pelo amor de si, e quem é conduzido pelo diabo, isto é, o inferno, é conduzido a todos esses males e conduzido continuamente pelos prazeres desses males. Daí vem que todos os que estão no inferno querem fazer mal a todos, enquanto os que estão no céu querem a todos fazer bem. Por essa oposição existe o que está no meio, onde o homem está, e está aí como em equilíbrio, a fim de poder voltar-se ou para o inferno ou para o céu; quanto mais favorece os males do amor de si, mais se volta para o inferno, e quanto mais os afasta de si, mais se volta para o céu.
[9] Foi-me concedido sentir a qualidade e a intensidade do prazer do amor de dominar pelo amor de si. Fui posto nele a fim de o conhecer, e era tal que excederia todos os prazeres que existem no mundo. Era um prazer de toda a mente desde os íntimos até seus últimos, embora no corpo não fosse sentido senão como uma volúpia e um bem-estar pela expansão do peito. E foi-me dado também sentir que desse amor, como se de sua fonte, espalham-se todos os males, como o de adulterar, de se vingar, de defraudar, de blasfemar e de malfazer em geral. Um prazer semelhante também existe no amor de possuir as riquezas dos outros por um artifício qualquer e nas concupiscências desse amor, que são derivações, todavia não nesse grau, a menos que esteja conjunto ao amor de si. No que concerne, porém, às dignidades e riquezas não por causa delas, mas por causa dos usos, isto não é amor das dignidades e das riquezas, mas amor dos usos, aos quais as dignidades e as riquezas servem como meios. Este é um amor celeste. Mas sobre isso serão vistas muitas coisas na seqüência.
[10] Terceiro: Esses dois amores são distintos entre si como o inferno e o céu. Isto se vê pelo que acaba de ser exposto, ao que acrescentarei isto: todos aqueles que no mundo estão no amor de dominar pelo amor de si, estão, quanto ao espírito, no inferno, quem quer que seja, grande ou pequeno. E todos aqueles que estão nesse amor, estão no amor de todos os males, os quais, se não os fazem, crêem-nos, todavia, lícitos em seu espírito, e por isso fazem-nos com o corpo quando a dignidade, a honra e o temor das leis não os impedem. E, o que é mais, o amor de dominar pelo amor de si encerra intimamente em si o ódio a Deus, por conseguinte, às coisas Divinas que são da igreja e, principalmente, ao Senhor. Se reconhecem a Deus, fazem-no somente de boca; e se reconhecem as coisas Divinas da igreja, fazem-no pelo temor da perda das honras. A razão de esse amor encerrar em si o ódio contra o Senhor é porque nesse amor há intimamente o querer ser um deus, pois só a si cultua e adora. Assim é que, se alguém o honra, isto é, a ponto de dizer que tem uma sabedoria divina e que é uma deidade no mundo, a esse ama de coração.
[11] É diferente com o amor das dignidades por causa dos usos. Esse amor é celeste, porque, como se disse, é o mesmo que o amor ao próximo. Pelos usos se entendem os bens; assim, por fazer usos se entende fazer os bens; e por fazer usos ou bens se entende servir aos usos e prestar-lhes serviços. Esses, embora estejam na dignidade e na opulência, não visam, todavia, a dignidade e a opulência senão como meios de fazer usos, assim, meios de servir e prestar serviços. São esses que se entendem por essas palavras do Senhor:
"Quem entre vós quiser fazer-se grande, seja vosso servo; e quem quiser ... ser o primeiro, seja vosso servo" (Mt. 20:26, 27).
São esses também aos quais é confiado o domínio no céu pelo Senhor, pois para eles o domínio é o meio de se praticar usos ou bens, assim, de servir, e quando os usos ou bens são fins ou amores, então não são eles que dominam, mas o Senhor, pois todo bem vem d'Ele.
[12] Quarto: Que a diferença entre esses dois amores seja dificilmente conhecida pelo homem é porque aqueles que estão na dignidade e na opulência, em sua maioria, também prestam usos, mas não sabem se praticam usos por causa de si ou por causa dos usos, ainda mais porque o amor de si e do mundo tem em si mesmo mais fogo e ardor de prestar usos do que ocorre naqueles que não estão no amor de si e do mundo. Mas os primeiros prestam usos por causa da reputação e por causa do ganho, assim, por causa de si, ao passo que aqueles que prestam usos por causa dos usos, ou por causa dos bens, esses não os prestam por si, mas pelo Senhor.
[13] A diferença entre esses amores é dificilmente conhecida pelo homem em razão de que o homem ignora se é conduzido pelo diabo ou se é conduzido pelo Senhor; o que é conduzido pelo diabo presta usos por causa de si e do mundo, mas o que é conduzido pelo Senhor presta usos por causa do Senhor e do céu. E todos os que fogem dos males como pecados prestam usos pelo Senhor, mas todos os que não fogem dos males como pecados prestam usos pelo diabo. Com efeito, o mal é o diabo e o uso ou o bem é o Senhor. Assim e não de outra maneira se conhece a diferença. Um e outro parecem semelhantes na forma externa, mas são inteiramente dessemelhantes na forma interna, pois um é como o ouro em cujo interior há a escória, enquanto o outro é como o ouro que interiormente é ouro puro. E um é como um fruto artificial, que se parece na forma externa com um fruto da árvore, quando porém é cera colorida em cujo interior há pó ou betume, enquanto o outro é como um fruto nobre, de sabor e odor agradáveis, no qual se acham as sementes.

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