. Mas, de que modo o estado do homem é mudado pelas confirmações e, assim, pelas persuasões, dir-se-á agora, mas nesta ordem: Primeiro: Nada há que não possa ser confirmado, e o falso mais do que o vero. Segundo: O falso sendo confirmado, o vero não aparece, mas pelo vero confirmado o falso aparece. Terceiro: Poder confirmar tudo o que se quer não é inteligência, mas somente sagacidade, que existe até com os piores. Quarto: Existe a confirmação intelectual e não ao mesmo tempo voluntária, mas toda confirmação voluntária é também intelectual. Quinto: A confirmação do mal intelectual e voluntária ao mesmo tempo faz com que o homem creia que a prudência própria é tudo e a Divina Providência não é coisa alguma, mas não se dá o mesmo com a confirmação intelectual somente. Sexto: Tudo o que é confirmado pela vontade e pelo entendimento ao mesmo tempo permanece pela eternidade, mas não o que é confirmado somente pelo entendimento.
[2] No que concerne ao primeiro ponto: Nada há que não possa ser confirmado, e o falso mais do que o vero. O que não pode ser confirmado, quando é confirmado pelos ateus que Deus não é Criador do universo, e que a natureza é sua própria criadora? Que a religião é somente um vínculo para os simples e para as pessoas comuns? Que o homem é como a besta e que morre do mesmo modo? Que os adultérios são lícitos, do mesmo modo que os furtos clandestinos, as fraudes e as maquinações dolosas? Que a astúcia é inteligência e a malícia, sabedoria? Quem não confirma suas heresias? Não há volumes cheios de confirmações das duas heresias reinantes no mundo cristão? Inventa dez heresias, mesmo as mais intrincadas, e diz a um engenhoso que as confirme, e ele as confirmará todas. Se, depois, as examinares somente pelas coisas confirmadas, não verás os falsos como sendo veros? Uma vez que o falso brilha no homem natural pelas aparências e suas falácias, e o vero não brilha senão no homem espiritual, é evidente que o falso pode ser confirmado mais do que o vero.
[3] Para que se saiba que todo falso e todo mal podem ser confirmados a ponto de o falso parecer vero e o mal parecer bem, seja o seguinte exemplo: Confirme-se que a luz é trevas e que as trevas são luz. Não se pode dizer: "O que é a luz em si? Não é senão algo que se mostra ao olho segundo o seu estado? O que é a luz para o olho fechado? Porventura os morcegos e as corujas não têm olhos tais que vêm a luz como trevas e as trevas como luz? Ouvi a respeito de alguns que vêem de modo semelhante, e de infernais que, embora estejam nas trevas, vêem-se, porém, mutuamente. Não há luz para o homem nos sonhos no meio da noite? Assim, não são as trevas luz e a luz, trevas?" Mas a isso se pode responder: "O que é isso? Luz é luz assim como o vero é vero, e trevas são trevas, assim como o falso é falso".
[4] Seja ainda outro exemplo: Confirme-se que o corvo é branco. Não se pode dizer: "Seu negrume é apenas uma sombra, que não é realmente sua? Suas penas são brancas por dentro, do mesmo modo que seu corpo, e estas são as substâncias de que ele é composto. Como seu negrume é uma sombra, por isso o corvo embranquece quando se torna velho; viram-se alguns assim. O que é o negro em si mesmo senão o que é branco? Pulveriza um vidro negro, e verás que o pó é branco. Por isso, quando dizes que o corvo é negro, falas da sombra e não da realidade". Mas pode-se responder: "O que é isso? Assim todas as aves podem ser consideradas brancas". Estas coisas, ainda que sejam contra a razão sã, foram referidas para que se possa ver que podem ser confirmados um falso inteiramente oposto ao vero e um mal inteiramente oposto ao bem.
[5] Segundo: O falso sendo confirmado, o vero não aparece, mas pelo vero confirmado, o falso aparece. Todo falso está nas trevas e todo vero na luz, e nas trevas nada se mostra, nem se sabe o que é, a não ser apalpando-se. Na luz é diferente. Por isso, na Palavra os falsos são também chamados trevas, e, daí, dos que estão nos falsos se diz que andam nas trevas e na sombra da morte. Ao contrário, os veros ali são chamados luz, e os que neles estão se chamam filhos da luz.
[6] Que sendo o falso confirmado o vero não apareça, e que sendo o vero confirmado o falso apareça, é evidente por muitas coisas. Por exemplo, quem vê algum vero espiritual senão aquele que a Palavra ensina? Não haveria aí mera escuridão, que não poderia ser dissipada a não ser pela luz em que a Palavra está e a não ser naquele que quer ser iluminado? Que herético pode ver seus falsos, a não ser que admita o vero genuíno da igreja? Antes, não vê nenhum. Falei com alguns que se tinham confirmado na fé separada da caridade e perguntei-lhes se não tinham visto tantas passagens na Palavra sobre o amor e a caridade, sobre as obras e os feitos, sobre observar os preceitos, e que bem-aventurado e sábio é quem o faz, e estulto o que não o faz. Disseram que, quando leram, não viam outra coisa senão que eram a fé e, assim, tinham passado adiante como se estivessem de olhos fechados.
[7] Aqueles que se confirmaram nos falsos são como os que vêem riscos numa parede e, quando na sombra da tarde, em sua fantasia vêem esses riscos como um cavaleiro ou um homem, e essa imagem visionária é dissipada quando a luz do dia influi. Quem pode sentir a imundície espiritual do adultério senão quem está na pureza da castidade espiritual? Quem pode sentir a crueldade da vingança, senão quem está no bem pelo amor ao próximo? Qual adúltero e qual sedento de vingança não zomba daqueles que chamam seus prazeres infernais e, por outro lado, os prazeres do amor conjugal e do amor ao próximo, celestes? E assim por diante.
[8] Terceiro: Que poder confirmar tudo o que se quer não seja inteligência, mas somente sagacidade, que existe até com os piores. Há confirmadores habilíssimos que não conhecem vero algum e que, no entanto, podem confirmar o vero e o falso, e alguns deles dizem: "O que é o vero? É alguma coisa? Não é vero aquilo que faço ser um vero?" Esses sempre se crêem inteligentes no mundo, e, todavia, não passam de rebocadores de parede. Não há inteligentes senão os que percebem o vero ser vero, e isso eles confirmam por verdades continuamente percebidas. Estes e aqueles podem ser pouco diferenciados, porque não se pode discernir entre a luz da confirmação e a luz da percepção do vero. Há uma aparência de que aqueles que estão na luz da confirmação também estão na luz da percepção do vero, quando, todavia, a diferença é como a que existe entre uma luz fátua e a luz genuína. E a luz fátua no mundo espiritual é tal que se muda em treva quando a luz genuína influi. Essa luz fátua existe com muitos no inferno, que nada vêem quando são postos sob a luz genuína, do que é evidente que poder confirmar tudo o que se quer é somente uma engenhosidade que existe até com os piores.
[9] Quarto. Que exista a confirmação intelectual e não ao mesmo tempo voluntária, mas que toda confirmação voluntária seja também intelectual. Sejam os seguintes exemplos para ilustração: aqueles que confirmam a fé separada da caridade e, não obstante, vivem a vida da caridade - em geral, os que confirmam um falso da doutrina e, todavia, não vivem segundo esse falso - são aqueles que estão na confirmação intelectual e não ao mesmo tempo na confirmação voluntária. Mas aqueles que confirmam um falso da doutrina e vivem segundo esse falso são aqueles que estão na confirmação voluntária e ao mesmo tempo na intelectual. A razão é porque o entendimento não influi na vontade, mas a vontade no entendimento. Daí também se vê o que é o falso do mal e o que é o falso que não é do mal. O falso que não é do mal pode se conjuntar ao bem, mas não o falso do mal. A causa disso é que o falso não do mal é o falso no entendimento e não na vontade, e o falso do mal é o falso no entendimento proveniente do mal na vontade.
[10] Quinto: Que a confirmação do mal intelectual e voluntária ao mesmo tempo faça com que o homem creia que a prudência própria é tudo e a Divina Providência não é coisa alguma, mas que não se dê o mesmo com a confirmação intelectual somente. Há muitos que confirmam em si a prudência própria pelas aparências no mundo, mas, não obstante, não negam a Divina Providência. Esta é somente uma confirmação intelectual. Mas os que ao mesmo tempo negam a Divina Providência, esses estão também na confirmação voluntária. Esta, porém, unida à persuasão, está principalmente naqueles que são adoradores da natureza e adorares de si ao mesmo tempo.
[11] Sexto: Que tudo o que é confirmado pela vontade e pelo entendimento ao mesmo tempo permaneça pela eternidade, mas não o que é confirmado somente pelo entendimento. Com efeito, o que é somente do entendimento não está no homem, mas fora dele. Está somente no pensamento, e nada entra no homem nem lhe é apropriado senão o que for recebido pela vontade, pois isso se torna parte do amor de sua vida. Que isso permaneça pela eternidade, é o que se dirá agora, no número seguinte.
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