. Mas esses pontos serão explicados na ordem proposta. Primeiro: Aquele que se confirma na aparência de que a sabedoria e a prudência procedem do homem e estão nele como coisas suas não pode ver outra coisa senão que, de outro modo, não seria homem, mas uma besta ou uma estátua, quando, todavia, é o contrário. É uma lei da Divina Providência que o homem pense como por si mesmo e aja prudentemente como por si mesmo, mas que reconheça que é pelo Senhor. Segue-se daí que aquele que pensa e age prudentemente como por si mesmo e reconhece ao mesmo tempo que o faz pelo Senhor, esse é homem, mas não aquele que se confirma em que tudo o que pensa e faz provém de si, nem aquele que, por saber que a sabedoria e a prudência vêm de Deus, espera sempre o influxo. Com efeito, este se torna como uma estátua e aquele como uma besta. Que aquele que espera o influxo se torne como uma estátua é evidente, pois precisa ficar imóvel, de pé ou sentado, mãos caídas, olhos abertos ou fechados sem piscar, sem pensar e sem respirar. Que vida então esse tem?
[2] É também evidente que aquele que crê que todas as coisas que ele pensa e faz procedem de si não é diferente de uma besta, pois pensa somente pela mente natural, que o homem tem em comum com as bestas, e não pela mente racional, que é a mente verdadeiramente humana. Pois essa mente reconhece que só Deus pensa por si e o homem pensa por Deus. Por isso, também, ele não conhece outra diferença entre o homem e a besta senão que o homem fala e a besta emite sons, e ambos igualmente morrem.
[3] Agora se dirá a respeito daqueles que esperam o influxo. Eles não recebem influxo algum, a não ser no caso de alguns poucos que de coração o desejam; esses, de vez em quando, recebem alguma resposta pela viva percepção no pensamento ou por uma linguagem tácita neles e raramente manifesta. E isto, então, para que pensem e ajam conforme querem e podem, e o que age sabiamente seja sábio, e que o age estultamente seja estulto. E nunca são instruídos sobre o que devem crer e fazer, e isso a fim de que o racional e o livre humano não pereça, o qual consiste em que cada um aja pelo livre segundo a razão, com toda a aparência de que é como por si mesmo. Aqueles que são instruídos pelo influxo sobre o que devem crer ou fazer não são instruídos pelo Senhor nem por algum anjo do céu, mas por algum espírito entusiasta, quaqueriano ou moraviano, e são enganados. Todo influxo proveniente do Senhor se faz pela iluminação do entendimento e pela afeição do vero, e por esta naquela.
[4] Segundo: Crer e pensar, como é a verdade, que todo bem e vero procede do Senhor e todo mal e falso procede do inferno parece algo impossível, quando, todavia, isso é verdadeiramente humano e, assim, angélico. Crer e pensar que todo bem e vero procede de Deus parece possível, contanto que não se diga nada além. A razão é porque isso é segundo a fé teológica, contra a qual não é lícito pensar. Mas crer e pensar que todo mal e falso procede do inferno parece impossível, porque assim se crê que o homem não pode pensar coisa alguma. Mas sempre o homem pensa por si, ainda que pelo inferno, porque o Senhor dá a cada um que o pensamento, de onde quer que seja, pareça nele como seu, pois de outro modo o homem não viveria como homem, nem poderia ser tirado do inferno e introduzido no céu, isto é, ser reformado, como se mostrou muitas vezes acima.
[5] Por isso, também, o Senhor dá ao homem saber e, assim, pensar que está no inferno se estiver no mal e que pensa pelo inferno se pensar pelo mal. E lhe dá também pensar nos meios pelos quais pode sair do inferno e não pensar pelo inferno, mas vir ao céu e ali pensar pelo Senhor. E, também, dá ao homem a liberdade de escolha. Por aí se pode ver que o homem pode pensar o mal e o falso como por si mesmo, e também pensar que isso ou aquilo é um mal e um falso. Por conseguinte, é somente uma aparência que ele pensa por si mesmo, sem a qual o homem não seria homem. O humano mesmo - e, assim, o angélico - é pensar pela verdade, e essa verdade é que o homem não pensa por si, mas é-lhe concedido pelo Senhor, em toda a aparência, pensar como por si mesmo.
[6] Terceiro: Crer e pensar assim é impossível para aqueles que não reconhecem o Divino do Senhor e não reconhecem que os males são pecados, mas é possível para aqueles que reconhecem essas duas coisas. Que isto seja impossível para aqueles que não reconhecem o Divino do Senhor é porque só o Senhor dá ao homem o pensar e o querer, e os que não reconhecem o Divino do Senhor, por estarem separados d'Ele, crêem que pensam por si. Que seja também impossível para aqueles que não reconhecem os males como pecados é porque esses pensam pelo inferno, e cada um ali acha que pensa por si mesmo. Que, porém, seja possível para aqueles que reconhecem esses dois doutrinais, pode-se ver pelas coisas que foram referidas abundantemente acima (n° 288-294).
[7] Quarto: Os que estão nesses dois reconhecimentos refletem somente sobre os males que estão neles e os rejeitam de si para os infernos, de onde procedem, quando fogem deles como pecados e lhes têm aversão. Quem não sabe, ou não pode saber que o mal vem do inferno e o bem vem do céu? E quem não pode por isso saber que quanto mais o homem foge do mal e lhe tem aversão, mais foge do inferno e tem aversão ao inferno? E quem não pode daí saber que quanto mais alguém foge do mal e lhe tem aversão, mais quer e ama o bem e, por conseguinte, mais é tirado do inferno pelo Senhor e conduzido ao céu? Essas coisas todo homem racional pode ver, contanto que saiba o que são o inferno e o céu, e que o mal tem a sua origem e o bem tem a sua. Ora, se o homem refletir sobre os males em si (que é o mesmo que examinar-se) e fugir deles, então se desprende do inferno e o rejeita para trás de si, e se introduz no céu e ali vê o Senhor em face. Diz-se que o homem faz isso, mas faz como por si e, então, pelo Senhor. Quando o homem reconhece esse vero por um coração bom e uma fé piedosa, esse vero então se encerra interiormente em tudo que em seguida ele pensa e faz por si, do mesmo modo que o prolífico na semente, que a acompanha interiormente até à nova semente, e da mesma maneira que o prazer no apetite por um alimento que se conhece ser salutar. Em suma, é como o coração e a alma em tudo o que pensa e faz.
[8] Quinto: Assim, a Divina Providência a ninguém o apropria o mal nem o bem, mas a prudência própria apropria um e outro. Isto é conseqüência de tudo o que agora se disse. O propósito da Divina Providência é o bem e para isso tende em toda operação. Por isso a ninguém apropria o bem, pois assim o faria meritório, nem a ninguém apropria o mal, pois assim o faria culpado de fazer mal. Todavia, o homem faz uma e outra coisas pelo proprium, porque este não é senão o mal. O proprium de sua vontade é o amor de si, e o proprium de seu entendimento é o orgulho da própria inteligência, e desse vem a própria prudência.
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XII - Todo homem pode ser reformado, e não existe predestinação