DIVPROV &328

Sabedoria Angélica sobre a DIVINA PROVIDÊNCIA
Emanuel Swedenborg
Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Divina Providência

. Mas estas afirmações vão ser demonstradas em série. Primeiro: No decorrer do tempo, toda religião decresce e se acaba. Nesta Terra existiram muitas igrejas, uma após a outra, pois onde há o gênero humano, aí há a igreja, porque o céu, que é o propósito da criação, vem do gênero humano, como se demonstrou acima, e ninguém pode vir ao céu se não estiver nesses dois universais da igreja, que são reconhecer Deus e viver no bem, como foi mostrado logo acima (n° 326). Daí se segue que nesta Terra existiram igrejas desde o tempo antiqüíssimo até o dia de hoje. Essas igrejas são descritas na Palavra, mas não de forma histórica, exceto a Igreja Israelita e Judaica. Antes dessa, porém, existiram várias que foram descritas somente pelos nomes de nações e pessoas, e por algumas coisas a respeito delas.
[2] A Igreja Antiqüíssima, que foi a primeira, foi representada por Adão e Eva, sua esposa. A Igreja seguinte, que deve ser chamada Igreja Antiga, foi representada por Noé, seus três filhos e seus descendentes. Esta foi esparsa e estendeu-se por vários reinos da Ásia, que eram a terra de Canaan e a região além do Jordão, Síria, Assíria e Caldéia, Mesopotâmia, Egito, Arábia, Tiro e Sidon. Com eles havia a Palavra Antiga de que se trata na Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Escritura Santa (n° 101-103). Que essa Igreja tenha existido nesses reinos, é evidente por várias coisas que a respeito desses reinos são relatadas nos livros proféticos da Palavra. Mas essa Igreja foi mudada notavelmente por Éber, de quem surgiu a Igreja Hebraica. Nesta foi instituído pela primeira vez o culto por meio de sacrifícios de animais. Da Igreja Hebraica nasceu a Igreja Israelita e Judaica, que, porém, foi instituída com solenidade por causa da Palavra, que aí seria escrita.
[3] Essas quatro igrejas foram entendidas pela estátua vista em sonho por Nabucodonosor, da qual a cabeça era de ouro puro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de bronze, e as pernas e os pés de ferro e argila (Daniel 2:32, 33). Não é outra coisa que se entende pelas Idades de Ouro, Prata, Cobre e Ferro, relatadas pelos escritores antigos. Que a Igreja Judaica tenha sido sucedida pela Igreja Cristã, é notório. Que no decorrer do tempo todas essas Igrejas tenham decrescido até seu fim, que se chama consumação, também se pode ver pela Palavra.
[4] A consumação da Igreja Antiqüíssima - que aconteceu por terem comido da árvore da ciência, pela qual é significado o orgulho da própria inteligência - é representada pelo dilúvio. A consumação da Igreja Antiga é representada pelas várias devastações das nações de que se trata na Palavra, tanto a histórica quanto a profética, principalmente pela expulsão das nações da terra de Canaan pelos filhos de Israel. A consumação da Igreja Israelita e Judaica se entende pela destruição do tempo hierosopolitano e pela transmigração do povo israelita ao perpétuo cativeiro, da nação judaica à Babilônia e, finalmente, pelo segundo templo e, ao mesmo tempo, pela destruição de Jerusalém e a dispersão de seu povo. Essa consumação foi predita em muitas passagens nos Profetas (e em Daniel 9:24-27). Mas a sucessiva devastação da Igreja Cristã até o seu fim é descrita pelo Senhor em Mateus (24), em Marcos (13) e em Lucas (21), e sua consumação mesma, no Apocalipse. Por aí se pode ver que a igreja, no decorrer do tempo, decresce e é consumada, como também a religião.
[5] Segundo: Toda religião decresce e se acaba pela inversão da imagem de Deus no homem. Sabe-se que o homem foi criado à imagem de Deus, segundo a semelhança de Deus (Gn. 1:26). Mas vai ser dito o que é imagem e o que é semelhança de Deus. Deus, só, é Amor e Sabedoria. O homem foi criado para ser receptáculo de um e outra, para a sua vontade ser receptáculo do Divino Amor e o seu entendimento ser receptáculo da Divina Sabedoria. Que estes dois estejam por criação no homem, que eles façam o homem e que sejam formados em cada um desde o útero, mostrou-se acima. Assim, o homem é imagem de Deus por ser recipiente da Divina Sabedoria, e semelhança de Deus por ser recipiente do Divino Amor. Por isso, o receptáculo que se chama entendimento é a imagem de Deus e o receptáculo que se chama vontade é a semelhança de Deus. Por conseguinte, visto que o homem foi criado e formado para ser receptáculo, segue-se que foi criado e formado para que sua vontade receba o amor que vem de Deus e seu entendimento receba a sabedoria que vem de Deus. Estes o homem recebe quando reconhece Deus e vive segundo Seus preceitos, mas em maior ou menor grau conforme pela religião conhece Deus e os preceitos, por conseqüência, conforme conhece os veros, pois os veros ensinam quem é Deus e de que maneira deve ser reconhecido; depois, o que são os preceitos e de que maneira se deve viver segundo eles.
[6] A imagem de Deus e a semelhança de Deus não são perdidas no homem, mas são como que perdidas, permanecendo, porém, ínsitas em suas duas faculdades que se chamam liberdade e racionalidade, de que se tratou muitas vezes acima. Tornaram-se como que perdidas quando o homem fez do receptáculo do Divino Amor, que é a sua vontade, receptáculo do amor de si, e do receptáculo da Divina Sabedoria, que é seu entendimento, receptáculo da própria inteligência. Desse modo ele inverte a imagem e a semelhança de Deus, pois desvia de Deus esses receptáculos e os volta para si. Assim é que eles ficam fechados por cima e abertos por baixo, ou fechados na face e abertos por detrás, quando, todavia, foram por criação abertos na face e fechados por detrás. E quando foram assim inversamente abertos e fechados, então o receptáculo do amor, ou a vontade, recebe o influxo do inferno ou de seu proprium, ocorrendo de modo semelhante com o receptáculo da sabedoria ou o entendimento. Assim surgiu nas igrejas o culto de homens em lugar do culto de Deus, e o culto pelas doutrinas do falso em lugar das doutrinas do vero, este pela própria inteligência e aquele pelo amor de si. Por aí é evidente que no decorrer do tempo a religião decresce e é consumada pela inversão da imagem de Deus no homem.
[7] Terceiro: Isso existe pelo aumento contínuo do mal hereditário pelas gerações. Que o mal hereditário não seja proveniente de Adão e sua esposa, Eva, por terem comido da árvore da ciência, mas seja sucessivamente derivado e transplantado dos pais nos filhos, e que, assim, por contínuos aumentos, se agrave pelas gerações, foi dito e mostrado acima. Quando o mal assim se agravou em muitos, então se espalhou por si mesmo em muitos, pois que em todo mal existe um desejo de seduzir, em alguns ardendo de ira contra os bons. Daí o contágio do mal. Quando este invadiu os encarregados, dirigentes e líderes na igreja, a religião foi pervertida, e os meios de cura, que são os veros, tornaram-se corrompidos pelas falsificações. Daí vem, então, a sucessiva devastação do bem e a desolação do vero na igreja, até a sua consumação.
[8] Quarto: Mas o Senhor provê que cada um possa ser salvo. O Senhor provê que em toda parte haja uma religião e em cada religião haja os dois essenciais da salvação, que são reconhecer Deus e não fazer o mal porque isso é contra Deus. As demais coisas, que são do entendimento e, assim do pensamento, as quais se chamam da fé, são providas a cada um segundo a sua vida, pois elas são acessórias da vida. E, se precedem, todavia não recebem a vida antes. É provido também que todos os que viveram no bem e reconheceram Deus sejam instruídos depois da morte pelos anjos, e, então, aqueles no mundo que estiveram nesses dois essenciais da religião aceitam os veros da igreja, os quais estão na Palavra, e reconhecem o Senhor como Deus do céu e da igreja. E eles recebem isso mais facilmente do que os cristãos que trouxeram consigo do mundo a idéia do Humano do Senhor separado de Seu Divino. Também é provido pelo Senhor que todos os que morreram na infância sejam salvos, onde quer que tenham nascido.
[9] A cada homem também é dada após a morte a oportunidade de corrigir a vida, se possível. Todos são instruídos e conduzidos pelos anjos e, porque então sabem que vivem após a morte e que existe um céu e um inferno, recebem, a princípio, os veros. Mas aqueles que no mundo não reconheceram Deus e não fugiram dos males como pecados, pouco depois se aborrecem com os veros e se afastam. E aqueles que os reconheceram de boca e não de coração são como as virgens néscias que, tendo lâmpada mas não óleo, pediram óleo às outras, e também saíram e compraram, e não foram introduzidas nas núpcias. As 'lâmpadas' significam os veros da fé, e o 'óleo' significa o bem da caridade. Por aí se pode ver que a Divina Providência é que cada um possa ser salvo, e que é culpa do homem mesmo se não é salvo.
[10] Quinto: Também é provido que uma nova igreja surja em lugar da anterior que foi devastada. Isto se fez desde os tempos antiqüíssimos, a saber, a uma igreja anterior devastada sucedeu uma nova. À Igreja Antiqüíssima sucedeu a Antiga; à Antiga sucedeu a Israelita ou Judaica, à qual sucedeu a Cristã. A esta última também sucederá uma nova igreja; isto está predito no Apocalipse, em que ela se entende pela "Nova Jerusalém" que desce do céu. A razão por que foi provido pelo Senhor que uma nova igreja deva suceder à anterior devastada vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Escritura Santa (n° 104-113).

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