. [74.] III. Da formação do homem no útero pelo Senhor por meio do influxo nos dois receptáculos.
Visto que na formação do homem no útero as coisas espirituais se conjungem às naturais, há muitas coisas que não podem ser descritas, pois há coisas espirituais que são abstraídas das naturais e, assim, não têm palavras na língua natural, exceto algumas palavras universais que um homem mais inteligente do que outros compreende. Por elas, todavia, e por comparativos, que também são correspondências, as seguintes serão descritas:
1. O Senhor Se conjunge ao homem no útero da mãe desde a primeira concepção, e o forma.
2. Ele se conjunge nos dois receptáculos, em um pelo amor e no outro pela sabedoria.
3. O amor e a sabedoria, junta e unanimemente, formam todas e cada uma das coisas, mas se distinguem nelas.
4. Os receptáculos no homem são distintos em três graus, um dentro do outro, e os dois superiores são habitáculos do Senhor, mas não o mais baixo.
5. Um receptáculo é para a vontade do futuro homem e o outro é para o seu entendimento, e, no entanto, nada absolutamente de sua vontade e seu entendimento está presente na formação.
6. No embrião, antes do parto, há vida, mas o embrião não é ciente dela.
[75.] [Seção III. 1]
1. Que o Senhor Se conjunta ao homem no útero da mãe desde a primeira concepção, e o forme. Pelo Senhor, aqui como em outros lugares, entende-se o Divino que procede d’Ele como o Sol do céu onde estão os anjos, do qual e pelo qual foram criadas todas as coisas em todo o mundo. Que este seja a vida mesma foi confirmado anteriormente. Que a vida mesma esteja presente desde a primeira concepção e forme, segue-se disto: o homem deve ser formado pela vida, para que seja uma forma da vida, a qual é o homem; para que seja imagem e semelhança de Deus, que também é o homem; para que seja recipiente do amor e da sabedoria, que são a vida, provenientes do Senhor, assim, recipiente do Senhor mesmo. Que o homem esteja no Senhor e o Senhor nele, e que o Senhor tenha morada no homem, se o homem O ama, Ele mesmo o ensina. Isto o Senhor prepara para Si no útero, como se verá pela sequência. Por esse motivo Jehovah ou o Senhor é chamado, na Palavra,
Criador, Formador e Feitor desde o útero (Is. 43:1; 44:2, 24; 49:5),
e, em David, que
Sobre Ele foi lançado e [n’Ele] se apoiou desde o útero (Sl. 22:10; 71:6).
Enquanto está no útero o homem se acha no estado de inocência; assim, seu primeiro estado após o parto é o estado de inocência, e o Senhor não habita no homem senão em sua inocência, portanto, principalmente quando o homem é inocência, por assim dizer. Semelhantemente, o homem está então num estado de paz. Que o homem então esteja no estado de inocência e no estado de paz é porque o Divino Amor e a Divina Sabedoria são a inocência mesma e a paz mesma, como se pode ver na obra O Céu e o Inferno (n. 276-283 e 284-290). Prevejo que, quando leres estas coisas, algumas dúvidas ocorrerão na mente, mas lê até o fim e, depois, retorna, e não as verás mais.
[2] [76.] [Seção III. 2]
2. Que Ele se conjunja nos dois receptáculos, em um pelo amor e no outro pela sabedoria. Isto segue do artigo antecedente, onde foi confirmado que desses dois receptáculos são formadas e produzidas todas as coisas do corpo, tanto as internas quanto as externas, desde a cabeça até o calcanhar; e como os princípios e os inícios de tudo vêm deles, segue-se que o Divino que forma está neles e, por eles, nos continuados, mas, quando está nestes e naqueles, não está aí materialmente, mas espiritualmente, porque está nos usos deles, e os usos considerados em si mesmos são imateriais, mas as coisas necessárias, pelas quais os usos se tornam efeitos, são materiais. Esses dois receptáculos, que são os começos do homem, são provenientes do pai; a sua formação até o pleno parto vem da mãe, porque a semente vem do varão; ele tem vasos espermáticos e testículos nos quais a semente é elaborada e secretada. A sua recepção é pela mulher; ela tem o útero no qual há o calor em que a semente é fomentada, e no qual há pequenas bocas pelas quais é nutrida. Nada na natureza existe senão por uma semente, e nada cresce senão pelo calor. Em que forma se acham esses começos, que são do homem somente, dir-se-á também na sequência. Como o começo do homem é a semente, e esta é o receptáculo germinado da vida, é evidente que a alma humana não é a vida da vida, ou a vida em si, pois não há senão uma única Vida, e ela é Deus. De onde o homem tem o perceptivo da vida foi dito em outro lugar. E como há uma continuidade dos receptáculos e dos cérebros, por meio das fibras, em todas as coisas do corpo, também é evidente que há continuidade de recepção da vida nelas, e que, assim, a alma não está aqui ou ali, mas em toda forma proveniente delas, não diferentemente do que a causa nos causados, e o princípio nos principiados.
[3] [77.] [Seção III. 3]
3. O amor e a sabedoria, junta e unanimemente, formam todas e cada uma das coisas, mas se distinguem nelas. Amor e sabedoria são duas coisas distintas, absolutamente como o calor e a luz; o calor é sentido, semelhantemente ao amor, e a luz é vista, semelhantemente à sabedoria. A sabedoria é vista quando o homem pensa, e o amor é sentido quando o homem afeiçoa (afficitur). Todavia, operando nas formações, eles não são como se fossem dois, mas como um só. Também isto é semelhante ao calor e a luz do sol do mundo; o calor, nas estações da primeira e do verão, coopera com a luz e a luz com o calor, e fazem vegetar e germinar. Igualmente, o amor num estado de paz e de tranquilidade coopera com a sabedoria e a sabedoria com o amor, e produzem e formam, isto no embrião e no homem. Que a cooperação do amor e da sabedoria sejam como a cooperação do calor e da luz é claramente evidente pelas aparências no mundo espiritual. Ali, o amor é o calor, e a sabedoria é a luz, e ali todas as coisas nos anjos vivem e, ao redor deles, florescem, absolutamente segundo a união do amor e da sabedoria neles. A união do amor e da sabedoria é recíproca; o amor se une à sabedoria, e a sabedoria se reúne ao amor; assim, o amor age e a sabedoria reage. Por esse recíproco é que todo efeito existe. Tal união é recíproca e, assim, a reciprocidade pertence à vontade e ao entendimento, ao bem e ao vero e, também, à caridade e à fé, no homem em que o Senhor está. De fato, assim é a união do Senhor mesmo com a igreja; essa união é que se entende pelas palavras do Senhor aos discípulos, em João,
Que eles estivessem n’Ele e Ele neles (Jo. 14:20 e outras passagens).
A mesma união também se entende pela união do marido e da esposa, em Marcos:
“Serão dois numa só carne; por isso não são mais dois, mas uma só carne” (Mc. 10:8),
pois o varão nasce para ser entendimento e, daí, sabedoria, mas a mulher para ser vontade e, daí, afeição que pertence ao amor (a cujo respeito se vê na obra O Céu e o Inferno, n. 366-386). Visto que são duas coisas, o amor e a sabedoria, que formam o embrião no útero, por isso há dois receptáculos, um para o amor e o outro para a sabedoria. Por isso, também, em toda parte no corpo há duas coisas que são semelhantemente distintas e unidas; há dois hemisférios do cérebro, dois olhos, dois ouvidos, duas narinas, dois tálamos do coração, duas mãos, dois pés, dois rins, dois testículos. As demais vísceras são também geminadas, e, em todo lugar, a parte direita delas se refere ao bem do amor, e a esquerda, ao vero da sabedoria. Que essas duas coisas sejam conjuntas e ajam como uma só, mútua e reciprocamente, um dissecador cuidadoso pode ver, se se empenhar. A união mesma se apresenta à vista nas fibras estendidas na frente e atrás, e pelo entrelaçamento no meio. Daí é, também, que isto é significado na Palavra por ‘direita’ e esquerda’. Por aí é evidente a verdade que o amor e a sabedoria, junta e unanimemente, formam no embrião todas e cada uma das coisas, mas se distinguem nelas.
[4] [78.] [Seção III. 3]
4. Que os receptáculos no homem sejam distintos em três graus, um dentro do outro, e que os dois superiores sejam habitáculos do Senhor, mas não o mais baixo. Talvez alguém formule para si uma ideia enganosa a respeito dos começos da forma humana, que pertence à semente do homem, por eles serem chamados de receptáculos, pois por essa palavra, ‘receptáculo’, cai-se facilmente na ideia de pequenos vãos ou tubos. Eu gostaria de designar e descrever essa forma inicial, que foi mostrada do céu e vista por mim, tanto quanto as palavras da língua natural permitirem. Esses receptáculos não são tubulares ou preenchidos como vasinho, mas são como o cérebro, do qual é uma imagem menor e inconspícua e, ao mesmo tempo, como que um delineamento da face por trás. Nenhum apêndice foi visto. Esse cérebro primitivo na parte superior convexa era uma junção de glóbulos ou esférulas contíguas; cada uma dessas esférulas sendo composta de conglomerados semelhantes e ainda menores, e cada um destes, de novo, de muito menores ainda. Na parte frontal, achatada, um delineamento que aparecia em lugar de face, mas nos intervalos entre a parte convexa e essa achatada não havia fibra. A parte convexa era envolta por uma meninge muito tênue, transparente. Assim me foi mostrado e visto o primitivo do homem, cujo grau primeiro ou mais baixo foi o conglomerado descrito primeiro, o segundo grau ou médio foi o conglomerado descrito em segundo lugar, e o terceiro grau ou supremo o conglomerado descrito em terceiro lugar, assim, um dentro do outro.
[79.] Foi-me dito que em cada uma dessas esférulas há contexturas inefáveis, cada vez mais admiráveis segundo os graus, e, também, que em cada parte direita há leitos ou receptáculo do amor, e, na parte esquerda, leitos ou receptáculo da sabedoria, e isto por maravilhosos arranjos até que haja consortes ou casais, semelhantemente aos dois hemisférios do cérebro. Foi mostrado, além disso, numa luz brilhante, que os ajuntamentos dos dois graus interiores eram, quanto à situação e ao fluxo, na ordem e na forma do céu, mas os ajuntamentos mais baixos eram, quanto à situação e ao fluxo, na forma do inferno. Daí é que se disse que os receptáculos são distintos em três graus no homem, um dentro do outro, e que os dois superiores são habitáculos do Senhor, mas não os mais baixos. Que haja o tal grau mais baixo é porque o homem, por causa da nódoa hereditária, nasce contra a ordem e a forma do céu, e, daí, em males de todo gênero, e essa nódoa está no natural, que é o mais baixo da vida do homem, e ela não é removida a não ser que se abra nele o grau interior, que é formado para a recepção do amor e da sabedoria do Senhor. Mas, de que maneira esse grau, e também o íntimo, são abertos, o Senhor ensina na Palavra e será ensinado na sequência. A fim de lançar nisso alguma luz, porém, que sejam vistas as coisas que foram ditas anteriormente a respeito dos graus e, também, do cérebro.
[80.] Esses graus são chamados superiores, embora sejam interiores. A razão disso é que há a ordem sucessiva e a ordem simultânea dos graus. Na ordem sucessiva há superiores e inferiores, mas na ordem simultânea há interiores e exteriores, e as mesmas coisas que são interiores na ordem simultânea são superiores na ordem sucessiva, assim também em relação aos exteriores e inferiores. E visto que há três graus no homem, por isso há três graus de céus, pois os céus consistem em homens que se tornaram anjos. Esses céus, segundo o grau na ordem sucessiva, aparecem um acima do outro, e segundo o grau na ordem simultânea, um dentro do outro. Daí é que na Palavra ‘alto’ significa interno, e o Senhor é chamado ‘Altíssimo’ porque está nos íntimos. Ora, visto que o homem, na sua primeira origem, é esse habitáculo do Senhor, como foi descrito, e então esses três graus se acham abertos, e tudo o que procede do Senhor como Sol, nos mínimos e nos máximos, é um homem, como foi confirmado anteriormente em suas passagens, por isso a extensão não pode se formar em outra forma senão a forma humana; e a extensão não pode existir senão pelos raios de luz da sabedoria por intermédio do calor do amor, assim, por fibras vivificadas, que são os raios formados. Uma determinação semelhante é visível aos olhos.
[3] [81.] Há igual número de graus de vida no homem. Nas bestas, porém, não há os graus superiores, mas apenas os mais baixos; por isso os começos da vida delas não são receptáculos do amor e da sabedoria do Senhor, mas receptáculos da afeição e dos conhecimentos naturais em que elas nascem. Nas bestas limpas esses receptáculos não são voltados contra a ordem do fluxo do universo, mas estão em conformidade com o fluxo. Por isso, desde o nascimento, logo após o parto elas são conduzidas às suas funções e as conhecem, porquanto não puderam perverter as suas afeições, já que elas não têm um entendimento que pode pensar e raciocinar pela luz espiritual e fazer violências às leis da ordem Divina.
[5] [82.] [Seção III. 5]
5. Que um receptáculo seja para a vontade do futuro homem, e o outro para o seu entendimento, e, no entanto, nada absolutamente de sua vontade e seu entendimento esteja presente na formação. A vontade e o entendimento não começam no homem senão quanto os pulmões são abertos, o que não acontece antes, mas após o parto, pois então a vontade do homem se torna receptáculo do amor, e o entendimento receptáculo da sabedoria. Que esses não se tornem receptáculos logo que pulmões são abertos é porque os pulmões correspondem à vida do entendimento e o coração corresponde à vida da vontade, e sem a cooperação do entendimento e da vontade o homem não tem vida própria alguma, assim como não a tem sem a cooperação do amor e da sabedoria pela qual é formado e vivificado o embrião, como acima foi dito. No embrião o coração bate somente e o fígado saltita; o coração, para a circulação do sangue, e o fígado, para a recepção da nutrição. O movimento das demais vísceras vem deles. Esse movimento que é sentido, após a metade da gestação, como um movimento pulsante. Mas esse movimento não vem de alguma vida própria do feto; a vida própria é a vida da vontade e a vida do entendimento, mas a vida da criança é a vida da vontade e do entendimento que começam. Destes somente existe a vida sensitiva e a vida motora no corpo; essa vida não pode existir somente pelo batimento do coração, mas existe por sua conjunção com a respiração do pulmão. Que seja assim é evidente pelos homens, que têm vontade e entendimento, que desmaiam ou sufocam; interrompida a respiração, eles estão como mortos: não sentem, não movem os membros, não pensam nem querem, e, todavia, o coração opera suas sístoles e circula o sangue. Mas tão logo o pulmão retorna à sua respiração, o homem retorna às suas ações e sentidos, por conseguinte, à sua vontade e ao seu entendimento. Por aí se pode concluir como é a vida do feto no útero, no qual somente o coração faz seus movimentos e não ainda o pulmão, ou seja, nada da vida da vontade e nada da vida do entendimento estão presentes nele, mas somente a vida oriunda do Senhor – pela qual o homem depois viverá – opera a formação. A esse respeito, porém, muitas coisas serão vistas no artigo seguinte.
[6] [83.] [Seção IV. 6]
6. Que no embrião, antes do parto, haja vida, mas que [o embrião] não seja ciente dela segue-se do que foi dito acima; assim, que vida pela qual o embrião vive no útero não seja sua, mas do Senhor, somente, que unicamente é a Vida.
1. Que o Senhor Se conjunte ao homem no utero da mae desde a primeira concepcao, e o forme.
2. Que o Senhor se conjunte nesses dois receptaculos; em um pelo amor e no outro pela sabedoria.
3. Que o amor e a sabedoria, junta e unanimemente, formem todas e cada uma das coisas, mas sempre se distingam nelas.
4. Que os receptaculos no homem sejam distintos em tres graus, um dentro do outro, e que os dois superiores sejam habitaculos do Senhor, mas nao o mais baixo.
5. Que um receptaculo seja para a vontade do futuro homem e o outro para o seu entendimento, e, todavia, nada absolutamente da vontade e do entendimento esta presente na formacao.
6. Que no embriao, antes do parto, haja vida, mas o embriao nao e ciente dela.