DWIS &6

Da Divina Sabedoria
Emanuel Swedenborg
Tratado sobre a Natureza e Manifestacao da Divina Sabedoria

. [87.] VI. (Que haja correspondência do coração com a vontade e do pulmão com o entendimento).
Que haja correspondência do coração com a vontade e do pulmão com o entendimento é coisa ignorada no mundo, porque se ignorou o que é a correspondência e que há correspondência de todas as coisas no mundo com toras as coisas no céu. Igualmente, que há correspondência de todas as coisas do corpo com todas as coisas da mente no homem, pois existe correspondência das coisas naturais com as espirituais. O que é, porém, a correspondência, e qual ela é, e com que coisas no corpo humano, foi dito acima. Visto que há correspondência de todas as coisas do corpo com todas as coisas da mente no homem, há, principalmente, uma correspondência com o coração e o pulmão. Essa correspondência é universal, porque o coração reina em todo o corpo, como também o pulmão. O coração e o pulmão são como duas fontes de todo movimento natural no corpo, e a vontade e o entendimento são as duas fontes de todas as atividades espirituais no mesmo corpo. E os movimentos naturais do corpo correspondem às atividades de seu espírito, pois, se não correspondessem, a vida do corpo cessaria, e também a vida da mente. A correspondência faz com que ambas existam e subsistam.
[2] [88.] [Seção VI. (2-3)] Que o coração corresponda à vontade, ou, o que é mesmo, ao amor, é evidente pela variação de seus batimentos segundo as afeições. As suas variações são que ele bate ou lento ou acelerado, ou alto ou baixo, ou suave ou arduamente, regular ou irregularmente, e assim por diante; assim, diferentemente na alegria e na tristeza, diferentemente na tranquilidade da mente e na cólera, diferentemente na intrepidez e no temor, diferentemente no calor do corpo e no frio, variavelmente nas doenças, e assim por diante.
[3] Todas as afeições pertencem ao amor e, daí, à vontade. Visto que o coração corresponde às afeições que pertencem ao amor, por isso os sábios antigos atribuíram as afeições ao coração, e alguns estabeleceram aí a sede delas. Daí veio de se dizer na linguagem [comum] ‘coração magnânimo’, ‘coração tímido’, ‘coração alegre’, ‘coração abatido’, ‘coração mole’, ‘coração duro’, ‘coração grande’, ‘coração pequeno’, ‘coração íntegro’, ‘coração partido’, ‘coração de carne’, ‘coração de pedra’, ‘gordo, mole, vil de coração’, ‘não ter coração’, ‘pôr o coração na obra’, ‘dar um novo coração’, ‘guardar no coração’, ‘receber no coração’, ‘não chegar ao coração’, ‘afirmar-se de coração’, ‘elevar-se de coração’, ‘amigo do coração’. Daí se dizer ‘concórdia’, ‘discórdia’, ‘loucura’ [vecordia] e muitas palavras semelhantes. Também, em toda parte na Palavra, pelo ‘coração’ é significada a vontade ou o amor, pelo fato de ela toda ter sido composta de correspondências.
[4] [89.] [Seção VI. (4)]. Dá-se de modo semelhante com o pulmão, por cuja respiração (anima) ou fôlego é significado o entendimento, porque assim como o coração corresponde ao amor ou vontade, assim a respiração (anima) ou o fôlego dos pulmões, que é a respiração, corresponde ao entendimento. Daí que na Palavra se diz tantas vezes que o homem deve amar a Deus ‘de todo coração e de toda alma’, que significa que deve amar de toda a vontade e de todo o entendimento. Semelhantemente, que Deus há de criar no homem ‘um novo coração e um novo espírito’; aí, pelo ‘coração’ é significada a vontade, e pelo ‘espírito’, o entendimento, porque o homem é criado de novo quando é regenerado. Daí também se diz de Adão que Jehovah Deus inspirou em suas narinas ‘alma de vidas’ e o tornou ‘alma vivente’, pelo que é significado que Deus inspirou nele a sabedoria. Também as ‘narinas’, por causa da correspondência da respiração por elas, significam a percepção, donde procede que se diz do homem inteligente que tem ‘nariz fino’, e do homem não inteligente, ‘nariz gordo’. Daí, também, é que o Senhor soprou sobre os discípulos e lhes disse:
“Recebei o Espírito Santo” (Jo. 20:22).
[5] [Seção VI. (5-6)] Por ‘soprar sobre eles’ é significada a inteligência que haviam de receber, e pelo ‘Espírito Santo’ se entende a Divina Sabedoria que ensina e ilumina o homem. Isto foi feito para que se mostrasse que a Divina Sabedoria, que se entende pelo ‘Espírito Santo’, procede d’Ele. Que a alma e o espírito sejam atribuídos à respiração é notório também pela linguagem comum, pois se diz que o homem ‘entrega a alma’ e ‘entrega o espírito’ quando morre, porque então deixa de respirar [animare et spirare]. E, também, pelo fato de que ‘espírito’, na maioria das línguas, significa ambos, tanto o espírito no céu quanto a respiração do homem, e também vento. Daí vem a ideia que reina em muitos que o espírito nos céus é como um vento, e também a alma do homem após a morte, e até Deus mesmo, porque é chamado Espírito, quando, todavia, Deus mesmo é Homem, semelhantemente à alma do homem após a morte e todos os espíritos nos céus. Mas são chamados assim porque ‘alma’ e ‘espírito’ significam, pelas correspondências, a sabedoria.
[6] [90.] Que assim como o coração corresponde à vontade, o pulmão corresponda ao entendimento, é evidente ainda pelo pensamento e pela fala do homem. Todo pensamento pertence ao entendimento, e toda fala pertence ao pensamento. O homem não pode pensar a não ser que o fôlego pulmonar concorra e concorde; por isso, quando ele pensa tacitamente, tacitamente ele respira; se profundamente, profundamente respira. Semelhantemente, se o faz lentamente, rapidamente, atentamente, bondosamente, ardentemente e assim por diante. Se retém completamente a respiração, não pode pensar, a não ser no espírito e de sua respiração, e assim por diante. Que a fala da boca, que procede do pensamento do entendimento do homem, faça um com a respiração dos pulmões, e isto de um modo tal que ele não posa proferir o menor som e o menor vocábulo sem a ajuda do pulmão por meio da laringe e da epiglote, qualquer pode conhecer por viva experiência em si mesmo, se o desejar.
[7] [91.] [Seção VI. (7)]. Que o coração corresponda à vontade e o pulmão ao entendimento é também evidente pelo governo universal de um e outro no corpo inteiro, e em todas e cada uma de suas coisas. É sabido que o governo do coração aí se faz por meio de artérias e veias. Que também haja o governo dos pulmões é o que qualquer anatomista pode ver, pois o pulmão, por sua respiração, age nas costelas e no diafragma, e por esta e aquelas, por meio de ligamentos e por meio do peritônio, em todas as vísceras do corpo inteiro, e também em todos os seus músculos. E [os ligamentos] não somente envolvem, mas também entram profundamente, e tão profundamente que não há a menor coisa na víscera e no músculo, desde a superfície até seu íntimo, que não derive alguma coisa dos ligamentos e, consequentemente, da respiração. E o estômago mais do que outros, pelo fato de o seu esôfago passar pelo diafragma e se ajuntar à traqueia, que sai do pulmão. Assim, o próprio coração, além de seu movimento, tem também um movimento pulmonar, pois ele repousa sobre o diafragma e fica no seio dos pulmões, ligando-se e mantendo-se unido a eles por meio das aurículas. Por ele, também, a respiração passa para as artérias e veias. É por isso que eles têm coabitação numa câmara separada do resto do corpo, câmara essa que se chama peito.
[8] [Seção VI. (8)]. Um investigador hábil pode ver por isso que todos os movimentos vivos, os quais se chamam ações e existem por meio dos músculos, se fazem pela cooperação do movimento cardíaco e do movimento pulmonar, a qual existe em cada parte, tanto as gerais, que são o externo, quanto as singulares, que são o interno. E quem for perspicaz também pode ver que essas duas fontes dos movimentos do corpo correspondem à vontade e ao entendimento, visto que por estes são produzidos.
[92.] Isto foi confirmado também do céu. Foi-me concedido estar entre os anjos que apresentavam isso ao vivo. Por uma admirável ondulação em giros que não se pode expressar por meio de palavras, eles formavam uma espécie de coração e de pulmões, com todas as contexturas interiores e exteriores que eles têm, e então seguiam o fluxo do céu, pois o céu se esforça para estar em tais formas pelo influxo de amor e de sabedoria provenientes do Senhor. Assim eles representavam cada coisa que há no coração e cada coisa que há nos pulmões, e também a união delas, a que chamavam casamento do amor e da sabedoria. E diziam que acontece o mesmo em todo o corpo e em cada um de seus membros, órgãos e vísceras, com as coisas que ali pertencem ao coração e com as que pertencem aos pulmões, e que, onde ambos não agem, e cada um distintamente por sua vez, aí não pode ver movimento algum de vida por algum princípio voluntário, nem sentido algum de vida por algum princípio intelectual.
[9] [93.][Seção VI. (9)]. Pelo que foi dito até agora, o homem que quer saber até as causas pode ser instruído e informado quanto a de que maneira a vontade se conjunge ao entendimento e o entendimento à vontade, e como estes agem em conjunção. Pelo coração, de que maneira a vontade age, e, pelo pulmão, de que maneira age o entendimento; e, pela conjunção do coração e do pulmão, a conjunção recíproca da vontade e do entendimento. A verdade do artigo precedente pode então ser confirmada: que no homem, após o parto, o receptáculo do amor se torna vontade, e o receptáculo da sabedoria se torna entendimento, porque após o parto os pulmões se abrem e, juntamente com o coração, começam a vida ativa que pertence à vontade e a vida sensitiva que pertence ao entendimento do homem. Uma e outra vidas não existem pela operação em separado do coração nem pela operação em separado dos pulmões, mas pela cooperação deles. Tampouco existem sem a correspondência, nem no desmaio, nem nos que estão sufocados.

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