DWIS &7

Da Divina Sabedoria
Emanuel Swedenborg
Tratado sobre a Natureza e Manifestacao da Divina Sabedoria

. [94.] VII. Que a conjunção do corpo e do espírito no homem seja por seus movimentos cardíacos e pulmonares, e que se faça a separação quando esses movimentos cessam. Para que se compreenda isto é necessário que sejam antecipadas algumas coisas, que são uma tocha posta adiante. Pelas coisas que são antecipadas ver-se-á que assim é, por exemplo:
1. Que o espírito do homem seja igualmente homem.
2. Que ele tenha, igualmente, um coração e, daí, a pulsação, e um pulmão e, daí, uma respiração.
3. Que a pulsação de seu coração e a respiração de seu pulmão influam na pulsação do coração e na respiração dos pulmões no homem no mundo.
4. Que a vida do corpo, que é natural, exista e subsista por esse influxo, e que termine por sua remoção, assim, pela separação.
5. Que o homem, de natural, então se torne espiritual.
[95.] [Seção VII. 1]
1. (Que o espírito do homem seja igualmente homem.) Que o espírito do homem seja igualmente homem verás testificado por muitas experiências na obra O Céu e o Inferno (n. 73-77, 311-316, 445-452 e 461-469); e que cada homem seja um espírito quanto aos seus interiores, n. 432-444. A isto pode-se acrescentar que todo espiritual em sua essência é um homem; por conseguinte, tudo do amor e da sabedoria que procede do Senhor, pois isto é espiritual. Que todo espiritual ou procedente do Senhor seja um homem é porque o Senhor mesmo, que é o Deus do universo, é Homem, e d’Ele não pode proceder outra coisa senão o que é semelhante a Ele, porquanto o Divino não é mutável em si nem é extenso, e o que não é extenso é assim em toda parte. Daí vem a Sua onipresença. Que o homem tenha concebido a respeito do anjo, do espírito e de si mesmo a ideia de que, após a morte, serão como algo etéreo ou o aéreo, sem um corpo humano, é porque os eruditos sensuais conceberam isso pelo nome ‘espírito’, que é o hálito da boca, e também por sua invisibilidade e não aparência perante os olhos, porque os sensuais pensam somente pelo sensual corpóreo e pelo material. E foi, também, por algumas passagens na Palavra não entendidas espiritualmente. Souberam, contudo, pela Palavra que o Senhor, embora tenha sido Homem quanto à carne e os ossos, tornou-Se, todavia, visível diante dos discípulos e passou através de portas fechadas. E sabem, também, que os anjos foram vistos como homens diante de muitos, na Palavra, os quais não tomavam a forma humana, mas se manifestavam em sua forma diante dos olhos do espírito deles, olhos que então estavam abertos. A fim de que, portanto, os homens não permaneçam por tanto tempo na ideia falaciosa a respeito dos espíritos e anjos e de suas almas após a morte, agradou ao Senhor abrir a visão de meu espírito e conceder que eu falasse face a face com os anjos e com homens falecidos, contemplá-los, tocá-los e dizer muitas coisas a respeito da incredulidade e das falácias dos homens então viventes. Tenho estado na companhia diária deles desde aquele ano até o tempo presente, isto é, por dezenove anos. Por aí se pode ver que o espírito do homem é (igualmente) homem.
[2] [96.] [Seção VII. 2] Que o espírito do homem tenha igualmente um coração e, assim, uma pulsação, e um pulmão e, assim, uma respiração. Isto deve ser confirmado pela experiência e, em seguida, pela razão. Pela experiência: O céu angélico foi distinto em dois reinos, um chamado celeste e outro chamado espiritual. O reino celeste está no amor ao Senhor, e o reino espiritual está na sabedoria desse amor. O céu foi distinto assim porque o amor e a sabedoria no Senhor, e proveniente do Senhor, são duas coisas distintas, mas, no entanto, unidas, pois são distintas como o calor e a luz do sol, como foi dito anteriormente. Os anjos do reino celeste, por estarem no amor ao Senhor, se referem ao coração do céu, e os anjos espirituais, por estarem na sabedoria desse amor, se referem ao pulmão do céu, porque, como também foi dito anteriormente, todo o céu, à vista do Senhor, é como um único homem. Há, também, um influxo do reino celeste no reino espiritual semelhantemente ao influxo do coração no pulmão, no homem. Daí vem a correspondência universal do céu com os dois movimentos, o cardíaco e o pulmonar, em cada um. Também me foi concedido ouvi-los dizer que as artérias neles pulsam igualmente pelo coração e que respiram igualmente, como os homens no mundo; também, que as pulsações neles variam segundo o estado do amor, e a respiração, segundo o estado de sabedoria; até tocaram o próprio polegar de sua mão e me disseram, e eu percebi muitas vezes a respiração mesma de suas bocas.
[97.] [Seção VII. 2(2)]
Uma vez que todo o céu foi distinto em sociedades segundo as afeiçoes que pertencem ao amor, e toda sabedoria e inteligência é segundo elas, por isso cada sociedade tem uma respiração peculiar, distinta da respiração de outra sociedade e, semelhantemente, uma pulsação peculiar e distinta do coração. Por isso, ninguém de uma sociedade pode entrar em outra distante, nem algum do céu superior descer a um céu inferior, ou de um inferior subir a um superior, pois o coração fica fatigado e o pulmão oprimido. E muito menos pode alguém subir do inferno ao céu; quem ousa subir ofega como um moribundo em agonia, ou como peixe tirado das águas e posto no ar.
[Seção VII. 2 (3)]
A distinção universal das respirações e das pulsações é segundo a ideia de Deus, pois dela resultam as diferenças de amor e, daí, de sabedoria. Por isso é que a nação de uma religião não pode ir às nações de outra religião. Vi que os cristãos não puderam ir aos maometanos, por causa da respiração. Têm a respiração mais fácil e mais suave de todas aqueles que têm sobre Deus a idéia de um Homem, e, do mundo cristão, os que têm a idéia de que o Senhor é o Deus do céu, mas têm a respiração difícil e dura aqueles que negam a divindade d’Ele, como fazem os socinianos e os arianos. Visto que a pulsação faz um com o amor da vontade, e a respiração faz um com a sabedoria do entendimento, por isso os que hão de vir ao céu são primeiramente iniciados na vida angélica por meio de respirações concordantes, o que se faz por vários modos. Daí eles entram nas percepções interiores e no livre celeste.
[98.] [Seção VII. 2 (4)] Pela razão: O espírito do homem não é uma substância separada das vísceras, dos órgãos e dos membros do homem, mas se adere conjuntamente a eles, pois o espiritual acompanha todo filamento deles desde os mais externos até os íntimos, e assim também todo filamento e toda fibra do coração e dos pulmões. Por isso, quando se rompe a conexão entre o corpo e o espírito do homem, o espírito está numa forma semelhante à que o homem esteve anteriormente. Há somente uma separação entre as substâncias espirituais e materiais. Daí é que o espírito tem igualmente um coração e um pulmão, como o homem teve no mundo. Por isso, também, o espírito tem semelhantes sentidos e semelhantes movimentos e também a fala; e os sentidos, os movimentos e a fala não existem sem o coração e o pulmão. Eles também têm atmosferas, mas espirituais. Quão imensamente deliram aqueles que atribuem à alma algum lugar específico, seja no cérebro, seja no coração, pois a alma do homem, que irá viver após a morte, é seu espírito.
[3] [99.] [Seção VII. 3] 3. Que a pulsação de seu coração e a respiração de seu pulmão influam na pulsação do coração e na respiração do pulmão no homem no mundo. Isto também foi confirmado pela experiência e, depois, pela razão. Pela experiência: Ignora-se que o homem, enquanto vive no mundo, tenha dupla respiração pulmonar e dupla pulsação cardíaca, porque se ignora que o homem é um espírito quanto aos seus interiores e que o espírito é igualmente homem. Que, todavia, ambos os movimentos existam continuamente, e que esses dois movimentos do espírito influam nos dois movimentos do corpo, foi-me dado perceber sensivelmente. Fui uma vez posto neles, quando estavam comigo espíritos que, por uma forte persuasão, puderam tirar do entendimento toda a faculdade de pensar e, semelhantemente, a capacidade de então respirar. Para que isto não me causasse dano, fui posto na respiração de meu espírito, a qual então senti claramente ser concordante com a respiração dos anjos do céu. Daí também se fez evidente para mim que o céu em geral e cada anjo em particular respiram, e também que, assim como o entendimento, a respiração também sofre, pois o persuasivo, que alguns maus espíritos no mundo espiritual têm, também sufoca ao mesmo tempo, pelo que se chama sufocativo do corpo e letal do espírito [animi]. Certa vez, também, foi concedida aos anjos a capacidade de dirigir minha respiração e diminuir, suprimindo sucessivamente, a respiração de meu corpo até que restasse somente a respiração de meu espírito, o que também percebi sensivelmente. E, além disso, estive na respiração de meu espírito todas as vezes em que estive com os espíritos e com os anjos num estado semelhante. Estive muitas vezes no espírito e não no corpo; outras vezes, tanto no corpo quanto no espírito. Sobre a remoção da animação do pulmão e do corpo, e a restante animação do meu espírito, vide também na obra O Céu e o Inferno (n. 449).
[100.] [Seção VII. 3(2)] Pela razão: Por essas vivas experiências pode-se ver que, como cada homem desfruta de dupla respiração, uma dentro da outra, ele pode pelo entendimento pensar racionalmente e, até, espiritualmente, e por isso também se distingue das bestas; pode, ainda, ser iluminado quanto ao entendimento e ser elevado ao céu e respirar com os anjos, e assim ser reformado e regenerado. Além disso, onde há um externo, aí também deve haver um interno; este deve estar em toda ação e em toda sensação. O externo dá o geral, e o interno, o singular, e onde não há o geral tampouco há o singular. Daí é que existe o movimento sistólico e respiratório [animatorius] tanto interno quanto externo no homem, o externo que é natural e o interno que é espiritual. Assim também, a vontade unida ao entendimento pode produzir o movimento corpóreo, e o entendimento com a vontade pode produzir o sentido corpóreo. Pulsações e respirações gerais e singulares também existem nas bestas, mas tanto o externo quanto o interno nelas são naturais, enquanto no homem o externo é natural e o interno, espiritual. Em suma, qual é o entendimento, tal é a respiração, porque tal é o espírito do homem; o espírito é que pensa pelo entendimento e quer pela vontade. Para que essas operações espirituais possam influir no corpo e dar ao homem o pensar e o querer naturalmente, a respiração e a pulsação do espírito devem ser conjuntas à respiração e à pulsação do corpo, e deve haver influxo de uma na outra, caso contrário não existe a transferência.
[4] [101.] [Seção VII. 4]
4. Que a vida do corpo, que é natural, exista e subsista por esse influxo, e que termine por sua remoção, assim, pela separação. Que o homem após a morte seja igualmente homem, como fora antes no mundo, é porque o seu espiritual é adjunto ao seu natural, ou, o substancial do espiritual ao material do corpo de uma forma tão adaptada e unida que não há fibrila, estaminado ou o menor filamento deles onde o humano do espírito não foi unido ao corpo humano; e como a vida do todo e a vida das partes dependem unicamente desses movimentos universais, o movimento sistólico do coração e o movimento respiratório do pulmão, segue-se que, quando esses movimentos cessam no corpo, os naturais, que são as coisas materiais, são separados dos espirituais, que são as coisas substanciais, pois não podem mais fazer juntamente a mesma obra. É por isso que o agente mesmo, que é o espiritual, se afasta dos singulares que eram movidos, que são as coisas naturais, e assim o homem se torna outro homem. Esta é, pois, a morte do homem, e esta é a sua ressurreição. A respeito disso, por viva experiência, vide algumas coisas na obra O Céu e o Inferno (n. 445-452, 453-460, 461-469).
[102.] [Seção VII. 4 (2)] Que pareça como se o homem estivesse morto quando a respiração cessa [é notório]; no entanto, não está morto antes que cesse juntamente o movimento do coração, o que usualmente ocorre depois. Que o homem não esteja morto antes é claro pela vida das crianças no útero e também pela vida dos adultos nos desmaios e nas sufocações, nos quais o coração opera suas sístoles e diástoles, enquanto o pulmão repousa, e, todavia, eles estão vivos, ainda que sem sentido e movimento, por conseguinte, sem consciência de qualquer vida. A razão disso é que, de fato, a respiração do espírito continua, mas sem que a ela corresponda respiração alguma do corpo. Assim não existe tampouco o recíproco dos dois movimentos vitais, do coração e do pulmão. Sem a correspondência e sem o recíproco não há vida no sentido nem ação tampouco. Com a vida natural do corpo dá-se de modo semelhante em relação à vida espiritual de sua mente. Se a vontade e o entendimento, ou o amor e a sabedoria, não agem conjuntamente, não há operação racional alguma. Se o entendimento ou a sabedoria se afastam a vontade com o amor é como morta, embora viva não consciente de si, se o entendimento for somente suspenso, como acontece naqueles em que a memória falha. Diferentemente, se a vontade ou o amor se afasta, então é o fim para a mente do homem, assim como é o fim para ele quando o coração cessa. Que a separação entre o espírito e o corpo aconteça principalmente no segundo dia após a agonia foi[-me] dado saber pelo fato de eu ter falado com alguns falecidos, que então se tornaram espíritos, no terceiro dia.
[5] [103.] [Seção VII. 5]
5. Que então o homem, de natural, se torne espiritual. O homem natural difere completamente do homem espiritual, e o espiritual do natural, e diferem tanto que não podem existir simultaneamente. Quem não sabe o que é o espiritual em sua essência pode acreditar que o espiritual é somente um natural mais puro, que no homem é chamado racional, mas o espiritual está acima do natural, e é tão distinto como a luz do meio-dia em relação à sombra da tarde na estação do outono. Ninguém pode conhecer a distinção e a diferença senão aquele que está em ambos os mundos, natural e espiritual, e a quem foi concedido estar alternadamente ora num, ora noutro, e pela reflexão olhar para um desde o outro. Por esta concessão fui plenamente instruído sobre a qualidade do homem natural e a qualidade do homem espiritual, que é o espiritual. Para que se saiba, isto será descrito em poucas palavras.
[104.] O homem natural, em todas as coisas de seu pensamento e linguagem, e em todas as coisas de sua vontade e ação, tem por sujeito a matéria, o espaço, o tempo e a quantidade. Estes foram nele fixados e estabelecidos, e sem eles não está em ideia alguma do pensamento e, assim, da linguagem, nem em afeição alguma da vontade e, por esta, na ação. O homem espiritual ou o espírito não tem essas coisas como sujeitos, mas somente como objetos.
[Seção VII. 5 (2)]
A razão disso é que no mundo espiritual há objetos inteiramente semelhantes aos que há no mundo natural. Há terras, há campos, há jardins e florestas, há casas e, nelas, câmaras, e nelas todas as coisas que são de uso. Há, além disto, vestimentas, para as mulheres as suas, e para os varões as suas, como no mundo. Há mesas, comida e bebida, como no mundo. Também há animais, tanto os mansos quanto os nocivos. Assim, há espaços e tempos, e também números e medidas. Todas essas coisas estão numa semelhança tal às que estão no mundo que não podem ser discernidas. Mas, todas elas são, no entanto, aparências da sabedoria que pertencem ao entendimento, e percepções dos amores que pertencem à vontade dos anjos, pois elas são criadas num momento pelo Senhor e são também num momento dissipadas, permanentes ou não permanentes segundo a constância e a inconstância dos espíritos ou dos anjos em que essas aparências estão. A razão disso é que eles são somente objetos dos pensamentos e das afeições deles, e os sujeitos são as coisas pelas quais aparecem, as quais são, como se disse, coisas tais que pertencem à sabedoria e ao amor, assim, coisas espirituais. Por exemplo, quando eles veem espaços, não pensam neles pelo espaço; quando veem jardins e, ali, árvores, frutos, arbustos, flores e sementes, não pensam neles pela aparência, mas pelas coisas pelas quais aparecem. Semelhantemente em relação ao resto.
[Seção VII. 5 (3)]
Daí é que os pensamentos dos espirituais são inteiramente diferentes dos pensamentos dos naturais, do mesmo modo que as afeições. E são tão diferentes que transcendem e não caem nas ideias naturais senão em alguma medida na visão racional interior, e isto não de outro modo senão por abstrações ou remoções das quantidades e qualidades.
[105.] Daí é evidente que os anjos têm uma sabedoria que é incompreensível e, também, inefável ao homem natural. Visto que assim são os pensamentos deles, por isso também eles têm uma linguagem que difere tanto das linguagens dos homens que elas não concordam nem mesmo quanto a um vocábulo. É semelhante em relação à escrita deles, que, todavia, quanto às letras é semelhante às escritas dos homens do mundo, ainda que não possam ser compreendias por nenhum homem do mundo. Cada letra consoante ali tem um sentido, e cada letra vogal ali tem uma afeição. As letras vogais não são escritas, mas acentuadas. Suas obras manuais, que são inumeráveis, e as funções de seus ofícios, diferem semelhantemente das obras e funções dos homens no mundo, as quais não podem, por isso, ser descritas com palavras da língua humana.
[Seção VII. 5 (4)]
Por estes poucos exemplos pode-se perceber que o natural e o espiritual diferem como a sombra e a luz. Mas há muitas diferenças, pois há os espirituais sensuais, os espirituais racionais e os espirituais celestes; e há os espirituais do mal e espirituais do bem. As diferenças são segundo as afeições e os pensamentos daí, e as aparências são segundo elas. Disso é evidente que de natural o homem se torna espiritual tão logo o pulmão e o coração do corpo cessam o movimento e por esse meio o corpo material é removido do corpo espiritual.

1. Que o espirito do homem seja igualmente homem.

2. Que ele tenha, igualmente, um coracao e, dai, a pulsacao, e um pulmao e, dai, uma respiracao.

3. Que a pulsacao de seu coracao e a respiracao de seu pulmao influam na pulsacao do coracao e na respiracao dos pulmoes no homem no mundo.

4. Que a vida do corpo, que e natural, exista e subsista por esse influxo, e que termine por sua remocao, assim, pela separacao.

5. Que o homem, de natural, entao se torne espiritual.

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