. Pela ave de pedra estavam também representados os habitantes dessa terra que transformam de um modo estranho a vida de seus pensamentos e de suas afeições em uma vida quase nula sobre o que ouvi o seguinte: Havia acima de minha cabeça um espírito que me falava. Segundo o som de sua voz, percebi que estava como que num estado sonolento; nesse estado falava muitas coisas, e isso com uma prudência tal que não falaria mais prudentemente, estando acordado. Foi-me dado perceber que era um sujeito recipiente pelo qual anjos falavam e ele nesse estado percebia o que lhe era influído e apresentava-o(37). Com efeito, ele não falaria senão o que era verdade; se algo influía de outra parte, ele o recebia, é verdade, mas não o apresentava. Perguntei-lhe sob o seu estado; disse-me que esse estado para ele era um estado de paz; não tinha inquietação alguma sobre coisas do futuro e, ao mesmo tempo, prestava usos, pelos quais tinha comunicação com o céu. Foi-me dito que tais, no Máximo Homem, representam o sinus longitudinal, que está situado entre os dois hemisférios do cérebro e, ali, num estado de repouso, qualquer que tenha sido a perturbação que o cérebro pudesse ter sofrido de qualquer dos lados. Enquanto estava conversando com esse espírito, outros espíritos dirigiram-se à parte anterior da cabeça, onde ele estava, e empurravam-no. Por isso ele retirou-se para um dos lados e cedeu-lhes o lugar. Os espíritos recém-chegados conversavam entre si; mas nem os espíritos ao meu redor nem eu compreendíamos o que eles diziam. Fui informado pelos anjos que eram espíritos da terra de Marte, que sabiam falar entre si de modo que os espíritos presentes não compreendessem e não percebessem nada.
[%2] Estava admirado de que pudesse existir tal linguagem, porquanto todos os espíritos têm uma só linguagem que tiveram do pensamento, e consiste em idéias que são entendidas como palavras no mundo espiritual. Foi-me informado que esses espíritos formam, de um certo modo, idéias expressas pelos lábios e pela face que não são inteligíveis aos outros, e naquele instante retraírem habilmente seus pensamentos aos outros, tendo sobretudo cuidado de que nada da afeição se manifestasse, pela razão de que, se alguma coisa da afeição fosse percebida, o pensamento seria, então, exposto, pois o pensamento flui da afeição e está como que presente nela. Além disso, fui informado que os habitantes da terra de Marte que atribuem a vida celeste aos conhecimentos somente e não à vida do amor inventam uma tal linguagem, entretanto não todos; e eles, quando se tornam espíritos, conservam-na consigo. São eles os que foram especialmente simbolizados pela ave de pedra, pois apresentar uma linguagem por expressões do rosto e por movimento dos lábios, suprimindo as suas afeições e retraindo seus pensamentos aos outros, é tirar a alma da linguagem e dela fazer uma espécie de estátua e, gradualmente, tornar-se também em algo semelhante. Embora pensem que o que dizem entre si não é compreendido por outros, entretanto, os espíritos angélicos percebem todas e cada uma das coisas que eles dizem, pelo fato de que nenhum pensamento pode ser-lhes suprimido. Foi isso mesmo o que lhes foi demonstrado por um caso real; eu estava pensando no fato de que os espíritos maus de nossa Terra não sentem vergonha alguma, quando infestam os outros. Esse pensamento influía em mim dos espíritos angélicos que compreendiam a linguagem dos espíritos de Marte; então, estes reconheceram que aquilo que eu pensava era o mesmo de que falavam entre si e ficaram admirados. Além disso, por meio de um espírito angélico foram reveladas várias coisas, tanto as que diziam quanto as que pensavam, apesar de se esforçarem a todo custo por suprimir-lhes essas coisas. Em seguida, esses espíritos influíram de cima na minha face; o influxo era sentido como uma leve chuva estriada que era sinal de que não estavam na afeição da verdade e do bem, pois isso é o que é representado pela estria. Falaram-me, então, de modo inteligível e disseram-me que habitantes de sua terra falam entre si de uma maneira semelhante. Então foi-lhes dito que isso é mau, porque assim obstruem os interiores e daí retiram-se para os exteriores, os quais também privam de sua vida; e, sobretudo, porque não há sinceridade em falar assim, pois os que são sinceros nada querem dizer, nem mesmo pensar, que não possa ser do conhecimento dos outros, mesmo se fosse todo mundo, mesmo o céu inteiro, enquanto os que não querem que os outros saibam o que dizem formam um juízo dos outros, deles têm uma má opinião e têm uma boa opinião de si próprios; enfim, são levados pelo hábito até o ponto de terem conceitos maus e falar mal da igreja, do céu e mesmo do próprio Senhor. Foi dito que os que amam os conhecimentos e não a vida de acordo com os conhecimentos representa, no Máximo Homem, a membrana interior do crânio; mas aqueles que se habituam a falar sem afeição e a atrair para si o pensamento e a suprimi-lo aos outros, representam essa membrana, mas a sua parte óssea, porque de um pouco de vida espiritual não derivam vida nenhuma.
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