- IV. AS NAÇÕES E OS POVOS TIVERAM E TÊM, POR VÁRIAS CAUSAS, OPINIÕES DIFERENTES SOBRE A QUALIDADE DÊSTE DEUS úNICO.
Uma primeira cousa é que não pode haver conhecimento de Deus, nem por conseguinte, reconhecimento de Deus sem -Revelação; e que não há conhecimento do Senhor e, por conseguinte, reconhecimento de que no Senhor habita corporalmente Toda a plenitude da Divindade, senão pela Palavra, que é a coroa das Revelações; pois o homem, quando uma Religião foi dada, pode ir ao encontro de Deus e receber o influxo; e por conseqüência tornar-se, de natural espiritual: ora, uma primitiva Revelação foi espalhada sôbre todo o Globo, mas o homem natural a perverteu de várias maneiras, daí os afastamentos, os dissentimentos, as heresias e os cismas das religiões. Uma segunda causa é que o homem Natural nada pode perceber nem aplicar- se a cousa alguma do que concerne a Deus, mas pode únicamente perceber e aplicar aquilo que concerne ao mundo; por isso se diz nos Cânones da Igreja Christã que o homem Natural é oposto ao homem Espiritual e que êles combatem um contra o outro; daí vem que aquêles que, segundo uma Palavra resultante de uma outra Revelação, conheceram que há um Deus, tiveram e têm opiniões diferentes sôbre a Qualidade de Deus e sôbre a Unidade de Deus. Aquêles portanto de quem a vista da mente estava sob a dependência dos sentidos do corpo, e que entretanto queriam ver Deus, formaram para si Imagens de ouro, de prata,
de pedra -e de madeira, a fim de que sob essas Imagens, como objetos da vista, adorassem Deus; e outros que pela religião ti- nham rejeitado as Imagens, representaram Deus por símbolos do Sol e da Lua, dos Astros e de diversos objetos da Terra; mas aquêles que se acreditavam mais sábios que o Vulgo e que, en-tretanto, tinham permanecido homens naturais, reconheceram, pela imensidade de Deus e por Sua onipresença criando o Mundo, por Deus a Natureza, uns nos seus íntimos e outros em seus últimos, e alguns, a fim de separar Deus da Natureza, imagina-ram alguma cousa de muito universal que chamaram o Ser do universo; e como não sabem nada mais sôbre Deus, êste Ser torna- se nêles um ser de razão, isto é, uma cousa de nada. Que não pode compreender que os conhecimentos sôbre Deus são es-pelhos de Deus eque aquêles que nada sabem de Deus vêem Deus não em um espelho voltado para seus olhos, mas em um espelho virado pelo dorso que é coberto de mercúrio ou de negro de fumo (noir Gluten), e não reflete a imagem, mas a oculta? A Fé em Deus entra no homem pelo Caminho anterior, que vai da alma aos superiores do entendimento; mas os conhecimentos so- bre Deus entram pelo Caminho posterior porque o Entendimento os tira pelos sentidos do corpo da Palavra revelada; e o encon- tro dos influxos se faz no meio do Entendimento, e aí a fé natural, que não é senão uma persuasão, se torna a fé espiritual, que é o reconhecimento mesmo; o Entendimento humano é portanto como um entreposto de trocas no qual se faz a permuta.
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