VRC &12

A Verdadeira Religião Cristã
Emanuel Swedenborg
Contendo toda a teologia da Nova Igreja

- V. A RAZÃO HUMANA, DE ACORDO COM UM GRANDE NúMERO DE COISAS DO MUNDO, PODE PERCEBER OU CONCLUIR, SE QUISER, QUE HÁ UM DEUS E QUE ÊLE É UM.
Esta verdade pode ser confirmada por inúmeras c coisas do Mundo visível. Com efeito, o Universo é como um Teatro no qual se apresentam contInuamente Testemunhas de que há um Deus, e que Êle é um. Mas para ilustrar êste assunto, narrarei êste Memorável do Mundo Espiritual: Um dia, quando conversava com Anjos, chegaram alguns Noviços do Mundo natural; logo que os vi, desejei-lhes uma vinda feliz e lhes contei sôbre o Mundo Espiritual várias coisas que êles ignoravam; e depois da conversação lhes perguntei que saber traziam consigo do Mundo sôbre Deus e sôbre a Natureza. Disseram-me: Eis nosso saber: a Natureza opera tôdas as coisas que se fazem no Universo Criado; e que Deus, depois da Criação, lhe deu e imprimiu esta faculdade e esta potência, Deus as sustentando únicamente e as conservando a fim de que não pereçam; é por isso que tôdas as cousas que existem, nascem e renascem sôbre a Terra são atribuídas hoje à Natureza. Mas respondi que a Natureza por si mesma não opera cousa alguma, que é Deus que opera pela Natureza; e como pedissem uma demonstração, eu lhes disse: Aquêles, que crêem na Divina Operação em cada coisa da Natureza, podem, por um muito grande número de fatos que vêem no Mundo, confirmar-se por Deus muito mais que pela Natureza: aquêles, com efeito, que se confirmam pela Divina operação em cada cousa da Natureza, prestam atenção às Maravilhas que percebem tanto na Produção dos Vegetais como na dos Animais: NA PRODUÇÃO DOS VEGETAIS, no fato de que de uma semente muito pequena lançada em terra sai uma raiz, pela raiz uma haste e sucessivainente ramos, galhos, folhas, flores, frutos até novas sementes, absolutamente como se a Semente soubesse a sucessão ou o processo pelo qual ela deve se renovar. Um homem racional pode pensar que o Sol, que é puro fogo, sabe isso, ou que possa insinuar o seu calor e a sua luz que façam isso e que possa ter em vista os usos? Quando o homem, cujo racional elevado, vê estas Maravilhas e as examina atentamente, não pode deixar de pensar que elas vêm d'Aquele cuja Sabedoria é infinita, por conseqüência de Deus; aquêles que reconhecem a Divina operação em cada uma das cousas da natureza se confirmam também nisso, quando as vêem; aquêles, ao contrário, que não a reconhecem, as vêem não com os olhos da razão na fronte, mas com os olhos no occipute; são êstes que tiram dos sentidos do corpo tôdas as idéias do seu Pensamento e confirmam as ilusões dos sentidos, dizendo: Não se vê o Sol operar tôdas essas cousas por seu -calor e por sua luz? 0 que não se vê, o que é? Os que se confirmam pelo Divino prestam atenção às Maravilhas que vêem nas Produções dos Animais; e para falar aqui primeiro nas que estão nos Ovos, êles vêem aí o filhote escondido em seu germe, com tudo o que é necessário para a formação e também com tudo que concerne ao crescimento após a eclosão, até que se torne pássaro na forma da mãe. De mais, se prestarem atenção aos Voláteis em geral, apresenta-se diante da mente que pensa profundamente, cousas que produzem admiração: por exemplo, o fato de que nos menores como nos maiores, nos que são invisíveis, como nos que são visiveís, isto é, nos mínimos insetos como nos pássaros e nos animais maiores, há órgãos dos sentidos, que são a vista, o ouvido, o olfato, o gosto, o tato e os órgãos dos movimentos, que são os músculos, pois êles voam e andam; como também as vísceras aderentes ao coração e ao pulmão, que são postos em atividade pelos cérebros. Aquêles que atribuem tudo à Natureza, vêem, é verdade, tais cousas, mas pensam sómente o que elas são e dizem que a Natureza os produz; e dizem isso porque desviaram sua mente de todo pensamento sôbre o Divino; e aquêles que se desviaram do Divino, quando vêem as maravilhas da natureza, não podem pensar nelas racionalmente, nem com mais forte razão, espiritualmente, mas pensam nelas sensualmente e materialmente; e então pensam na natureza segundo a natureza e não acima da natureza, diferindo das bestas únicamente no fato de gozar da racionalidade, isto é, de poderem compreender, se quiserem. Aqueles que se desviaram de todo pensamento sôbre o Divino, e por isso se tomaram sensuais-corporais não pensam que a vista do olho é tão grosseira e material, que considera muitos pequenos insetos como uma única cousa obscura; e entretanto, cada pequeno inseto foi organizado para sentir e para se mover; assim não refletem que êle foi dotado de fibras e de vasos, de pequenos corações, de canais pulmonares, de pequenas vísceras e de cérebros, e que estes órgãos foram tecidos com as mais puras substâncias que existem na natureza; e que êstes, tecidos correspondem à vida no último grau, a qual põe distintamente em ação as suas partes mais delicadas. Pois que a vista do olho é tão grosseira que um grande, número de insetos, com as partes inúmeras que cada um encerra, aparecem como um pequeno ponto obscuro, e que entretanto os que são sensuais pensam e julgam segundo esta vista, vê-se claramente quanto sua Mente se tornou espessa, e por conseguinte, em que obscuridade êles estão sôbre as cousas espirituais.
Cada um pelas cousas visíveis na Natureza pode se confirmar pelo Divino, se quiser; e também se confirma aquêle que pensa em Deus e na Sua onipotência criando o Universo e na Sua onipresença, conservando-o; por exemplo, quando vê os Voláteis do Céu; cada espécie conhece seus alimentos e sabe onde estão, conhece os seus semelhantes pelo som e pela vista; e entre os pássaros, êstes conhecem seus inimigos e seus amigos; sabem sob as penas o lugar do acasalamento, formam casamentos, constroem com arte ninhos, aí depositam seus ovos, os cobrem, sabem o tempo da incubação; e quando êste se escoa, fazem sair da casca seus filhotes, que amam com ternura; reaquecem-nos sob suas asas, preparam-lhes alimentos e lhes dão o biscate, isso, até que estejam em estado de agir por si mesmos e de fazerem como êles. Quem quiser pensar no influxo Divino vindo pelo Mundo Espiritual ao Mundo natural, pode ver este influxo nestas cousas; pode, também, se quiser, dizer em seu coração: 0 Sol não pode dar tais ciências a êsses voláteis por seu calor e sua luz pois o Sol, de que a Natureza tira sua origem e sua essência, é um puro Fogo e, por. conseguinte, os efluxos de seu valor e de sua luz são absolutamente mortos; e assim pode-se concluir que tais cousas vêm do influxo Divino pelo Mundo espiritual aos últimos da natureza.
Cada um pelas cousas visíveis na Natureza pode se confirmar pelo Divino, quando vê os Vermes que, segundo o prazer de um certo amor, são levados e aspiram a mudar seu estado terrestre para um estado que é análogo ao estado celeste, e para isso se arrastam para lugares convenientes, se envolvem com uma cobertura, e assim se colocam em um útero para renascer, e aí se tornam crisálidas, ninfas e por fim borboletas; e depois que sofrem a Metamorfose segundo a sua espécie, foram decorados com asas magníficas, voam no ar como em seu céu, ai folgam alegremente -e formam casamentos, põem ovos e provêm à sua posteridade; e então se nutrem de alimento agradável e doce que tiram das flores. Entre os que se confirmam no Divino pelas coisas visíveis na natureza, há algum que não veja nestes seres como uma espécie de imagem do estado terrestre do homem e nesses mesmos seres, como borboletas, uma espécie de Imagem do estado celeste? Aqueles que se confirmam pela Natureza, veem, é verdade, estas maravilhas, mas, como rejeitaram para longe dêles o estado celeste do homem, êles as chamam de puras operações da natureza.
Cada um pelas coisas visíveis na Natureza pode se confirmar no Divino quando presta atenção a tudo que se conhece das Abelhas. Elas sabem recolher das rosas e das flores. a cera, sugar delas o mel, construir células como pequenas casas, e dispôIas em forma de cidades, com lugares pelos quais entram e pelos quais saem; sentem, de longe, o perfume das flores e das ervas de que recolhem a cêra e o mel para a alimentação; e quando estão carregadas, voltam segundo a plaga para suas colméias e provêm assim a sua alimentação para o inverno seguinte, como se o previssem; põem também à sua testa como Rainha uma soberana, pela qual a posteridade deve ser propagada e para a qual constroem uma espécie de palácio acima de suas células, colocando sentinelas ao redor; quando chega o tempo da postura a Rainha, acompanhada de satélites, que são chamados Falsos burbões, vai de célula em célula e põe ovos, que o bando que a segue cerca de um reboco, para que não seja alterado pelo ar; dai para elas uma raça nova; mais tarde, quando esta geração chegou à idade necessária para poder fazer os mesmos trabalhos, é expulsa da colméia; e a princípio o enxame se reúne em bando, a fim de que a consociação não seja rompida e em seguida voa em busca de um domicílio; no Outono, êstes falsosburbões, não tendo contribuído em nada para a colheita da Cera e do mel, são postos fora e privados de suas asas, para que não voltem e não consumam os alimentos para cujo aprovisionamento não cooperaram em cada. Ocorrem ainda vários outros fatos notáveis. Por isso se pode ver que é em razão do Uso prestado por elas ao Gênero Humano que recebem no influxo Divino pelo Mundo Espiritual uma forma de govêrno tal como existe entre os homens, na Terra, e mesmo entre os Anjos nos Céus. Qual é o homem provido de uma razão sã, que não vê que tais cousãs nesses insetos não vêm do Mundo Natural? 0 que é que o Sol, donde provém a Natureza, tem de comum com um governo semelhante e análogo ao Govêrno Celeste? De acôrdo com estas observações e outras semelhantes entre as bestas brutas, aquêle que reconhece e adora a Natureza se confirma pela Natureza, enquanto que aquéle que reconhece e adora Deus se confirma em Deus pois o homem Espiritual vê aí cousas espirituais; e homem Natural ai vê cousas naturais, assim cada um segundo que êle mesmo é. Quanto ao que me concerne, tais observações têm sido para mim testemunhas do Influxo procedente de Deus pelo Mundo Espiritual, ao Mundo Natural. Que se examine se, a respeito de alguma Forma de govêrno ou de alguma Lei civil ou de alguma Virtude moral ou de alguma Verdade espiritual, 6 possível pensar analiticamente, a menos que o Divino, pela Sabedoria influa pelo Mundo Espiritual; quanto ao mim, isso me tem sido e me é impossível; com efeito, tenho notado êste influxo de uma maneira perceptível e sensível há vinte e oito anos contInuamente; falo disso portanto segundo um testemunho certo.
A Natureza pode ter por fim o Uso e dispor os usos nas ordens e nas formas? Só a Sabedoria o
pode fazer; e só Deus em Quem a Sabedoria é Infinita, é que pode assim ordenar e formar o Universo; quem mais pode prever para os homens o que é necessário à alimentação e à roupa e prover a isso; à alimentação pela seara dos campos e pelos frutos da terra e pelos animais; às roupas,, pelas produções da terra e por estes mesmos animais? Não é uma maravilha que êstes feios insetos, que se chamam Bichos da sêda, forneçam vestimentas e decorem com magnificência as mulheres e os homens, desde as Rainhas e o Reis até às camareiras e aos criados; e que êstes minúsculos insetos que se chamam Abelhas, forneçam a cera para a luz que enche de esplendor os Templos e os Palácios? Estas cousas e várias outras são provas existentes de que Deus de Si mesmo pelo Mundo Espiritual opera o que se faz na Natureza.
A isso devo ajuntar que no Mundo Espiritual, vi aquêles que, pelas cousas visíveis do Mundo, se tinham confirmado pela Natureza até se tornarem ateus, e que seu Entendimento na Luz espiritual me apareceu aberto por baixo, mas fechado por cima; e isso, porque pelo pensamento, êles olham para baixo na direção da Terra, e não para cima em direção ao Céu acima do sensual, que é o ínfimo do entendimento, aparecia como que um vês brilhando pelo fogo infernal, em alguns negro como a fuligem e em outros, lívido como um cadáver. Que cada um se guarde portanto de confirmações pela Natureza, mas que se confirme por Deus, pois os meios não faltam.

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