- Quinto Memorável. Um dia um Satanás, por permissão, subiu do inferno com uma mulher e se aproximou da casa onde eu estava; tendo-os visto, fechei a janela, não obstante lhes falei através do caixilho e perguntei ao Satanás de onde vinha, ele me disse: Da companhia dos meus semelhantes; e perguntei-lhe donde vinha a mulher; disse: Ela vem de lá igualmente; esta era da quadrilha das Sereias que, por fantasias, sabem tomar todos os exteriores e todas as formas da beleza e da graça; ora se dão a beleza de Vênus, ora a fisionomia decente de uma virgem do Parnaso, ora se ornam de coroas e mantos de Rainhas e caminham com majestade apoiadas em um bastão de prata; tais são no Mundo dos Espíritos as cortesãs; elas se aplicam em operar fantasias; a fantasia se opera pelo pensamento sensual, fechando as idéias que provêm de algum pensamento interior. Perguntei ao Satanás seela era sua esposa; respondeu: 0 que é uma esposa, minha sociedade o ignora também; ela é minha cortesã; e então esta inspirou lascívia ao homem, no que se avantajam, também as Sereias; e logo que recebeu esta inspiração, êle lhe deu um beijo, dizendo: Ah! meu Adonis! Mas tratemos do que é sério. Perguntei ao Satanás qual era a sua função e êle disse: Minha função é a Erudição; não vês um laurel sobre minha cabeça? Adonis, por sua arte compôs esta coroa e m'a compôs por trás E eu disse: Pois que vens de uma cidade onde há academias, dizme, que crês tu e que crêem teus companheiros sobre Deus? Éle replicou: Deus para nós é o Universo, que chamamos também Natureza e que os simples dentre nós chamam Atmosfera, que para êles é o ar, mas que os sábios chamam Atmosfera que também é o Éter; Deus, o Céu, os Anjos e outras cousas seme; lhantes, sobre as quais muitos neste Mundo têm composto uma multidão de contos, são palavras vãs e ficções tiradas de Meteoros que,brincam aqui sob os olhos de vários; todas as coisas que se manifestam sobre a Terra não foram criadas pelo Sol? com a sua chegada na primavera, não nascem Vermes com asas e sem elas? e pelo Calor os Pássaros não se entregam mútuamente ao amor e à prolificação? e a Terra aquecida por seu ardor não faz sair das sementes os rebentos e enfim frutos como descendência? assim, o Universo não é Deus e a Natureza Deusa? e como esposa do Universo, não concebe, não cria, não dá à luz e não alimenta? Em seguida, lhe perguntei qual era a sua crença e a de sua Sociedade sobre Religião; respondeu: Para nós que somos mais instruídos do que o vulgo, a Religião nada mais é que um encanto para fascinar a populaça; êste encanto está em torno de cousas sensitivas e imaginárias de sua mente, como uma aura (atmosfera) na qual as idéias de piedade voam como borboletas no ar; e a sua fé, que entrelaça estas idéias em uma espécie de cadeia, é como um bicho da sêda em seu casulo, donde se evola como o rei das borboletas; pois uma comunidade de homens sem instrução gosta das imagens acima do sensual do corpo; por conseguinte, acima dos sensuais do pensamento, no desejo de voar; assim também se fazem asas, a fim de se elevar como águias e de se apresentar com jactância aos habitantes da Terra, para lhes dizer: Eis aqui, sou eu; nós, ao contrário, acreditamos no que vemos e amamos o que tocamos; e então tocou sua companheira e disse: Creio nisto porque vejo e toco; mas lançamos tais brinquedos pela janela e por um sopro repelimos os gracejos. Perguntei, em seguida, qual era a sua crença e a de seus companheiros, sobre o Céu e o Inferno; respondeu com uma gargalhada: 0 que é o Céu, senão o firmamento etéreo em sua altitude; e os Anjos senão manchas errantes em torno do Sol; e os Arcanjos senão comêtas de longas caudas sobre o qual habita seu grupo? e o que é o Inferno, senão pântanos onde as rãs e os crocodilos, em sua fantasia, são os diabos? excetuadas estas idéias sobre o Céu e sobre o inferno, tôdas as outras são futilidades introduzidas por algum Prelado para atrair a glória da parte de um povo ignorante. Mas tôdas estas cousas, êle as pronunciava absolutamente como tinha pensado sobre elas no Mundo, não sabendo que vivia após a morte e tendo esquecido tudo que ouviu quando entrou no Mundo Espiritual; é por isso que, quando o interroguei também sobre a vida depois da morte, respondeu que era uma cousa imaginária (ens, imaginarium); e que talvez algum eflúvio se elevando de um cadáver no túmulo em uma forma como de um homem ou alguma cousa que se chama espectro de que algumas pessoas fazem contos, tinha introduzido uma tal idéia nas fantasias dos homens. A estas palavras não foi mais possível me conter, desatei a rir e disse: Satanás, tu desarrazoas, desarrazoando; o que és tu agora? não és homem na forma? não falas, não vês, não ouves, não caminhas? Recorda-te de que viveste :em um outro Mundo de que não te lembras; e que agora vives depois da morte e que falaste absolutamente como falavas antes; e a recordação lhe foi dada, ele se lembrou e então teve vergonha e exclamou: Eu desarrazoo; vi o Céu acima e ouvi os Anjos dizer aí cousas inefáveis quando eu acabava de chegar aqui; mas agora eu reterei isso para contar aos companheiros que acabo de deixar e talvez então terão, vergonha igualmente; e persistiu em dizer que os chamaria insensatos, mas à medida que descia, o esquecimento expulsava a recordação; e quando chegou, desarrazoou como êles e chamou, loucuras às cousas que me havia ouvido dizer. Tal é o estado do pensamento e da linguagem dos Satanases depois da morte, são chamados Satanases aquêles que em si confirmaram os falsos até à fé; e Diabos aquêles que em si confirmaram os males pela vida.
CAPITULO II
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