-Quarto Memorável. Um dia, tendo despertado do sono ao amanhecer, vi diante de meus olhos como Espectros de aparências diversas; e em seguida, quando amanheceu, vi Luzes quiméricas sob diferentes formas, umas como pergaminhos cobertos de escrituras, que dobrados e redobrados apareciam por fim como Estrelas cadentes, e dissipavam-se no ar; e as outras como Livros abertos, dos quais, alguns brilhavam como pequenas luas e outros como velas; entre estes havia Livros que se elevavam ao alto e aí se perdiam; e outros que caíam por terra e aí eram reduzidos a pó. De tudo que eu acabava de ver augurei que abaixo destes Meteoros havia Espíritos que discutiam sobre cousas imaginárias, que acreditavam ser de grande importância, pá, no Mundo espiritual, tais Fenômenos aparecem nas atmosferas pelos raciocínios daqueles que estão em baixo; e pouco depois, a vista de meu espírito me foi aberta e notei numerosos Espíritos, cujas cabeças estavam ornadas com folhas de loureiro e os Corpos cobertos de roupas floridas; significava que eram Espíritos que, no ,Mundo natural, tinham gozado de grande renome de erudição; e como eu estava em espírito, aproximei-me e me misturei com a Assembléia; então, ouvi que discutiam com vivacidade e ardor sobre as idéias inatas (ideae connatae), se havia algumas nos homens desde o nascimento como nas bestas; os que negavam, se afastavam dos que afirmavam; e por fim, se conservaram separados uns dos outros como as falanges de dois Exércitos prestes idéias desembainhar as; espada, mas, como não havia espadas, combatiam com as pontas das palavras. Mas então, de repente um Espírito Angélico se achou no meio deles; e, falando em voz alta, diste: Ouvi à distância, não longe de vós, que vos inflamáveis de, parte a parte, em uma discussão sobre as Idéias inatas; se havia algumas nos homens como nas bestas; mas eu vos digo, que pão há idéia alguma inata nos homens, e que não as há tampouco nas bestas; disputais, portanto, por nada ou, como se diz, sobre a lã da cabra, ou sobre a barba do século. Ouvindo estas palavras, todos se arrebataram e gritaram: Expulsai-o, ele fala contra o Senso comum; mas esforçando-se por expulsá-lo, viram-no cercado de uma Luz celeste, através da qual não podiam se lançar, pois era Espírito Angélico; voltaram pois sobre seus passos e se afastaram um pouco dele; depois que esta luz se concentrou nele, ele lhes disse: Por que vos arrebatais, escutai antes e reuni as razoes que vou dar te vós mesmos tirai uma conclusão delas; prevejo que os que são dotados de julgamento as aceitarão e acalmarão as tempestades levantadas em vossas mentes. A estas palavras, eles disseram com um tom de voz que encerrava indignação: Fala, pois, e nós escutaremos; então, começando a falar, disse: Acreditais que nas Bestas há idéias inatas e concluístes isto porque suas ações parecem resultar de pensamentos; entretanto, nelas não há a menor coisa que pertença ao pensamento; e as idéias são atributos do pensamento, o caráter do pensamento é que se aja em vista disto ou daquilo, de tal ou qual maneira; examinai pois: Será que a Aranha, que tece a sua teia com a maior arte, pensa em sua cabecinha: Vou estender meus fios nesta ordem e os ligarei em conjunto, por fios postos de través, a fim de que minha teia não seja dispersada pela primeira agitação do ar; às primeiras extremidades dos fios que formarão o meio de minha teia, eu me prepararei uma morada, de onde perceberei tudo que nela caia, para aí acorrer; por exemplo, se uma mosca para ai voa, ela ficará presa nos fios e, imediatamente, me lançarei sobre ela e a envolverei com fios e me alimentarei com ela? E mais, será que a Abelha pensa em sua cabecinha: Vou voar, eu sei onde há campos cobertos de flores e aí sugarei em umas, a cêra e em outras, o mel; e com a cera construirei células contíguas, em série, de tal maneira, que eu e minhas companheiras entremos e saiamos livremente como pelas ruas e, em seguida, ai depositamos mel em abundância, a fim de que haja bastante para o inverno que está para vir, para que não morramos? além de muitas outras maravilhas, nas quais não somente elas rivalizam com a prudência política e econômica dos homens, mas por vezes mesmo a excedem. Ver o n.12. - Além disso, será que o Zangão pensa em sua cabecinha: Eu e meus companheiros f fabricaremos unia casinha de delgado papirus, da qual contornaremos as paredes no interior em forma de labirinto e no centro disporemos uma praça pública onde haverá uma entrada e uma saída; e isso com uma tal esperteza, que nenhum ser vivo que não seja da nossa raça, não ache o caminho que conduz ao lugar intimo onde nós nos reunimos? Além disso, será que o Bicho da seda, enquanto não é mais. que verme, pensa em sua cabecinha: É tempo agora de me preparar para fiar minha seda, a fim de que, quando estiver fiada, eu voe e no ar, onde ainda não tinha podido me elevar, brinque com meus semelhantes e proveja à minha progenitura? Da mesma forma os outros vermes, quando se arrastam ao longo dos muros e se tornam ninfas, aurélios, crisálidas e, enfim, borboletas. Será que a mosca tem alguma idéia de ligação com uma outra mosca, se é aqui e não lá? E para os animais de um corpo maior, não é a mesma coisa que para estes insetos, por exemplo, para os pássaros e para os empenados de todo gênero quando se acasalam, depois quando constroem seus ninhos, aí põem seus ovos, os chocam, tiram os filhotes, lhes dão o biscate, os educam até que voem e, em seguida, os expulsam do ninho como se não fossem sua progenitura, sem falar de muitos outros detalhes sem número? Não se dá ainda o mesmo com as bestas da terra, com as serpentes e com os peixes? Quem de vós não pode ver, por estes exemplos, que seus atos espontâneos não profluem de pensamento algum, do qual a idéia unicamente se pode dizer? 0 erro de que há idéia nas bestas não proflui de outra parte senão da persuasão de que elas pensam como os homens e que só a linguagem faz a diferença. Depois de falar assim, o Espírito Angélico olhou em torno de si e como os visse ainda incertos, se as bestas tinham ou não pensamentos, continuou seu discurso e disse: Percebo que a semelhança dos atos dos animais brutos com os dos homens está ainda ligada em vós à idéia visionária sobre o pensamento desses animais; direi de onde vêm seus atos. Em cada besta, cada pássaro, cada peixe, cada réptil Em cada inseto, há seu amor natural, sensual e corporal, de que suas cabeças são as moradas; e nelas estão os cérebros, pelos quais o Mundo espiritual influi imediatamente nos Sentidos de seus corpos; e por estes sentidos determina os atos, o que faz com que os Sentidos de seus corpos sejam muito mais agudos do que os dos homens. É este influxo do Mundo espiritual que é chamado, Instinto; e é chamado Instinto porque existe sem o pensamento intermediário; há também os acessórios do Instinto, que provêm do hábito. Mas seu amor pelo qual vem do Mundo espiritual a determinação para os atos, é unicamente para a Alimentação e a Propagação e não para alguma ciência, alguma inteligência e alguma sabedoria, pelas quais o amor chega sucessivamente ao, homem. Que, no homem não haja também idéia inata, pode-se ver claramente pelo fato de que nele não há pensamento inato e onde não há pensamento, não há também idéia, pois esta pertence àquele, reciprocamente; é o que se pode concluir das crianças recém-nascidas, pelo fato de que elas só podem mamar e respirar; se podem mamar, não é por alguma cousa inata, mas é devido à contínua sucção no útero da mãe; e se podem respirar é porque vivem, pois é isso um universal da vida; os Sentidos mesmos de seus corpos estão em uma profunda obscuridade e elas saem desta obscuridade sucessivamente com esforço pelos objetos; do mesmo modo seus movimentos se desenvolvem pelo hábito; e sucessivamente, à medida que aprendem a dizer palavras e a pronunciá-las, a princípio, sem idéia, começa a aparecer uma certo obscuro de fantasia; e à medida que se esclarece nasce um obscuro de imaginação e, em seguida, de pensamento; segundo a formação deste último estado existem as idéias, que, assim como acaba de ser dito, fazem um com o pensamento; e o pensamento, de nulo que era, cresce pelas instruções; é por isso que os homens têm idéias, não inatas, mas formadas; e destas idéias decorrem suas palavras e seus atos. (Que não haja de inato no homem senão a faculdade de saber, de compreender e de ser sábio e também a inclinação para amar não somente a ciência, a inteligência e a sabedoria, mas também o próximo e a Deus, pode-se ver acima no Memorável n. 48, e também mais abaixo em um outro Memorável). Depois destes discursos do Espírito Angélico, olhei em torno de mim e vi, a pouca distância, Leibnitz e Wolf, que meditavam profundamente sobre as razões dadas pelo Espírito Angélico; e então Leibnitz se aproximou e deu seu assentimento; mas Wolf foi embora negando e afirmando, pois ele não era dotado de um tão bom julgamento interno como Leibnitz.
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