- III. A Fé hipócrita não é uma fé. O homem tornasse hipócrita, quando pensa muito em si e se prefere aos outros, pois assim determina e mergulha em seu corpo os pensamentos e as afeições de sua mente e os conjunta com os sentidos do corpo; por isso, o homem se torna natural, sensual e corporal; e então, sua Mente não pode ser retirada da carne com a qual está em coerência, nem ser elevada para Deus, nem ver cousa alguma de Deus na luz do Céu, isto é, coisa alguma de espiritual; e como é homem carnal, os espirituais que entram, o que tem lugar pelo ouvido no entendimento, não lhe parecem ser senão fantasmas ou flocos no ar e mesmo como moscas em torno da cabeça de, um cavalo a galope e suado, também escarnecem disso em seu coração; pois sabe-se que o homem Natural considera como loucura as coisas que pertencem ao Espírito ou os espirituais. Entre os homens naturais, o hipócrita é natural no mais baixo grau, pois é sensual; com efeito, sua Mente foi estreitamente ligada aos sentidos do corpo; por conseguinte, não gosta de ver senão o que os seus Sentidos sugerem; e como seus Sentidos são da natureza, forçam a Mente a pensar pela natureza sobre cada cousa, por conseguinte, também sobre todas as cousas da fé. Se este Hipócrita se torna um Pregador, êle retém em sua memória as cousas que foram ditas sobre a fé em sua infância e em sua juventude, mas como não há interiormente nelas coisa alguma de espiritual, e que tudo é natural, quando êle as pronuncia diante da Assembléia, não são senão palavras inanimadas; se ressoam, como se fossem animadas, isto vem dos prazeres do amor de si e do Mundo, segundo os quais, pela sua facilidade de elocução, elas retinem e encantam os ouvidos, como o fazem ordinariamente os cantos harmoniosos. Quando após seu sermão o pregador hipócrita volta à sua casa, êle ri de tudo que expôs diante da Assembléia sobre a fé, sobre as passagens da Palavra e talvez diga em si mesmo: "Lancei a redes no lago e apanhei rodovalhos e mariscos"; pois, em sua fantasia, como tais lhe aparecem todos os que estão nos veros da fé. 0 hipócrita é como uma estátua que tem duas cabeças, uma dentro da outra; a cabeça interna é coerente com o tronco ou corpo, e a cabeça externa, que pode girar em torno da interna, é pintada na frente com cores naturais como a face humana, pouco mais ou menos como as cabeças de madeira, expostas diante das lojas de cabeleireiros. E como uma Barca, que o marinheiro, pela disposição da vela, pode dirigir à sua vontade com o vento e contra o vento; a seu favor por tudo que deleita a carne e os prazeres dos sentidos é esta manobra da vela. Os Ministros, que são hipócritas, são absolutamente como comediantes, palhaços e histriões, que podem desempenhar papéis de Rei, Generais, Primazes, Bispos e que, imediatamente depois de tirarem seus costumes, entram em lugares de depravação e ai vivem com prostitutas. São também como Portas de gonzo redondo que podem ser voltadas para diante e para trás; tal é sua Mente, pois pode ser aberta do lado do Inferno e do lado do Céu; e quando é aberta de um lado, é fechada do outro; com efeito, o que é espantoso, no instante em que desempenham as funções sacerdotais e ensinam os veros segundo a Palavra, não sabem outra coisa senão que crêem nesses veros, pois então a porta do lado do Inferno foi fechada, mas desde que voltam para casa, não crêem em cousa alguma, pois então a porta do lado do Céu está fechada. Naqueles que são profundamente hipócritas, há uma inimizade intestina contra os homens verdadeiramente espirituais, pois é tal como a dos Satanases contra os Anjos do Céu; que seja assim, eles não se apercebem enquanto vivem no Mundo, mas isso se manifesta depois da morte, quando seu externo pelo qual simulam o homem espiritual lhes é retirado, pois é seu homem Interno que é um tal Satanás. Mas direi como aparecem diante dos Anjos os hipócritas espirituais, isto, é, "aqueles que se apresentam com roupas de ovelha e que, por dentro, são lobos devoradores" (Mateus VII, 15): Aparecem como charlatões caminhando sobre as palmas das mãos e orando, que de boca se dirigem de todo coração aos demônios e lhes dão beijos, mas batem no ar os seus sapatos um ,contra o outro, e assim celebram a Deus; quando se mantêm sobre os pés, aparecem quanto aos olhos como leopardos; quanto ao andar, como lobos quanto à boca como raposas; quanto aos dentes, como crocodilos, e quanto à fé, como abutres.
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