VRC &388

A Verdadeira Religião Cristã
Emanuel Swedenborg
Contendo toda a teologia da Nova Igreja

- Quarto Memorável. Conversei com alguns Espíritos que, no Apocalipse, são entendidos pelo Dragão, e um deles me disse: "Vem comigo e eu te mostrarei os prazeres dos nossos olhos e dos nossos corações". E me conduziu através de uma floresta sombria, sobre uma colina, de onde pude considerar os prazeres dos dragões e a um Anfiteatro elevado em forma de Circo com bancos em toda volta, alinhados até ao alto, sÔbre os quais estavam assentados os espectadores; os que estavam nos bancos mais baixos me apareciam de longe como Sátiros e Príapos, alguns com um véu sÔbre as partes vergonhosas; e outros, nus sem este véu; sobre os bancos acima deles estavam sentados libertinos e prostitutas, pelo menos por seus gestos pareciam tais; e então o Dragão me disse: "Vais ver o nosso divertimento". E vi na Arena do Circo como touros, carneiros, ovelhas, cabritos e cordeiros que aí foram introduzidos; e depois que foram introduzidos, uma porta sé abriu, e aí se lançaram como leões, tigres o e lobos, e se lançaram com furor sobre o gado e os despedaçaram e massacraram; mas os Sátira, depois desta horrenda carnificina, espalharam areia sÔbre o lugar do massacre. Então o Dragão me disse: "São estes os nossos Divertimentos, que alegram as nossas mentes" (animus). E eu respondi: "Vai-te, Demônio, dentro em pouco verás este Anfiteatro mudado em lago de fogo e enxofre". A estas palavras, êle riu e se foi. E em seguida, eu pensava comigo mesmo: '.Por que tais coisas são permitidas pelo Senhor? e recebi em meu coração estas respostas: que elas são permitidas, enquanto aqueles estão no Mundo dos Espíritos, mas que depois que seu tempo neste Mundo terminou, estas cenas teatrais são mudadas em medonhos tormentos infernais. Todas estas coisas que eu tinha visto,era o Dragão que as tinha produzido por fantasias; não havia portanto touros, nem carneiros, nem ovelhas, nem cabritos, nem cordeiros, mas os dragões faziam aparecer assim os bens e os veros reais da Igreja, que eram os objetos de seu ódio; os leões, as panteras, os tigres e os lobos eram as aparências das cobiças daqueles que tinham sido vistos como Sátiros e Príapos; os que não tinham véu em torno das partes vergonhosas eram os que acreditavam que os males não aparecem diante de Deus; e os que tinham um véu, eram os que acreditavam que estes aparecem, mas que não danam, desde que se esteja na fé; os libertinos e as prostitutas eram os falsificadores dos veros da Palavra, pois a escortação significa a falsificação do vero. No Mundo espiritual tôdas as cousas aparecem de longe segundo as correspondências; e quando aparecem em formas, são chamadas representações das coisas espirituais e são objetos semelhantes às coisas naturais. Em seguida, eu os vi sair da floresta, o Dragão no meio dos Sátiros e dos Príapos; e depois deles escudeiros e vivandeiras, que eram os escortadores e as prostitutas; o bando aumentou no caminho, e então ouvi o que diziam entre si. Diziam que viam em um prado um rebanho de ovelhas com cordeiros, o que em sinal de que perto dali havia uma das Cidades de Jerusalém, onde a caridade é o principal; e disseram: "Vamos e apoderemo-nos desta cidade, expulsemos as habitantes e pilhemos seus bens eles se aproximaram, mas havia uma muralha em torno da cidade e os Anjos guardiães sobre a muralha; e então disseram: "Tomemo-la pela astúcia, enviemos alguém hábil na mussitação, que possa branquear o preto e enegrecer o branco e dissimular o fundo de cada objeto". E se achou um Espírito hábil em Metafísica, que podia mudar as idéias de cousas em idéias de termos, esconder as coisas mesmas sob fórmulas e assim voar como um gavião com a presa sob as asas. Este Espírito tinha por instrução, logo que falasse com os habitantes da cidade, dizer-lhes que aqueles que o enviavam eram consociados em Religião a eles, e pediam para serem introduzidos. Este, aproximou-se da porta, bateu, e quando ela foi aberta, disse que queria falar ao mais sábio daquela cidade; entrou, e foi conduzido para um certo personagem; e lhe falou, dizendo: "Meus irmãos estão fora da cidade e pedem para serem recebidos; eles são vossos consociados em Religião; fazemos, vós e nós, a Fé e a Caridade os dois essenciais da Religião; a única diferença é que vós dizeis que a Caridade é o principal e que a Fé procede dela; que importa que se diga que uma ou outra seja o principal, quando se crê em uma e outra?" 0 sábio da cidade respondeu: "Não conferenciemos sós sobre este assunto, mas discutamos em presença de muitos que sejam árbitros e juízes; de outro modo não se chega a uma decisão". E imediatamente se fez vir muitos, aos quais o enviado do Dragão dirigiu palavras semelhantes às que tinha pronunciado antes; e então o Homem sábio da cidade respondeu: "Tu disseste que é a mesma cousa, seja que a Caridade fosse tomada pelo principal da Igreja, seja que fosse a Fé, desde que se concorda que uma e outra fazem a Igreja e sua Religião; entretanto, há a mesma diferença que entre o anterior e o posterior, que entre a causa e o efeito, que entre o principal e o instrumental, e que entre o essencial e os formal; emprego esses termos porque notei que tu és hábil na arte da Metafísica, arte que chamamos mussitação, e que alguns chamam encantação; mas deixemos para lá esses têrnos; há uma diferença como entre o que está em cima e o que está em baixo, e mesmo, se o quiserdes crer, há uma diferença como entre as Mentes daqueles que habitam nas regiões superiores e as Mentes dos que habitam as regiões inferiores neste Mundo; pois o que é o Principal faz a Cabeça e o Peito e o que daí procede faz os Pés e as plantas dos Pés; mas convenhamos primeiro sobre o que é a Caridade e sobre o que é a Fé; convenhamos que a Caridade é a afeição do amor de fazer o bem ao próximo por causa de Deus, da salvação e da vida eterna, e que a Fé é o Pensamento segundo a confiança concernente a Deus, à salvação e à vida eterna". Mas o emissário disse: "Concordo que isso é a Fé e concordo também que a Caridade é essa afeição por causa de Deus, porque é por causa de seu mandamento, mas não por causa da salvação, nem por causa da vida eterna". Após esta convenção e esta restrição, o Sábio da cidade disse: "A afeição ou a direção não é o principal e o pensamento não procede dela?" Mas o enviado do Dragão disse: "Eu o nego". Foi-lhe respondido: "Tu não o podes negar; não é segundo uma ~certa dileção que o homem pensa? tira a dileção, pode ele pensar alguma coisa? é absolutamente como s, da linguagem, tirasses o som; se tirasses o som, poderias dizer alguma cousa? o som pertence também à afeição de algum amor e a linguagem pertence ao pensamento, pois o amor soa e o pensamento fala; e é também como a chama e a luz; se tirares a chama, a luz não perece? dá-se o mesmo com a Caridade porque ela pertence ao amor; e com a Fé porque ela pertence ao pensamento; será que desta maneira não podes apreender que o principal é tudo no secundário, absolutamente como a chama na luz? daí resulta evidentemente que se não fazes principal o que é principal, tu não estás no outro; se, portanto, pões em primeiro lugar a Fé que está em segundo, tu não aparecerás no Céu senão como um homem às avessas, cujos pés estão em cima e a cabeça em baixo; ou como um charlatão que, invertendo seu corpo, caminha sobre as palmas das mãos; pois que assim apareceis no Céu, quais são as vossas boas obras, que são a Caridade em ato, senão tais como as faria este charlatão com os pés, porque não as pode fazer com as mãos? daí, vem que a vossa Caridade é natural e não espiritual porque está invertida". 0 Emissário compreendeu isto, pois todo diabo pode compreender a verdade quando a ouve pronunciar, mas não a pode reter quando a afeição do mal, que em si mesma é a cobiça da carne, expulsa o pensamento do vero; em seguida, o sábio da cidade mostrou de várias maneiras qual é a Fé, quando foi aceita como o principal, a saber, é propriamente natural e é uma persuasão sem nenhuma vida espiritual, que por conseqüência não é a Fé; quando e acrescentou: "Poderia quase dizer que em vossa Fé não há mais de espiritual, do que há na ação de pensar no Reino de Mogol, em sua mina de diamantes e no Tesouro ou na Corte de seu Imperador". A essas palavras o Draconiano se foi irritado e fez o relato aos seus fora da cidade; e quando souberam que tinha sido dito que a Caridade é a afeição de fazer bem ao próximo pela salvação e pela vida
eterna, exclamaram todos: "Isso é uma mentira". E o Dragão mesmo disse: "Que abominação! Todas as obras pertencentes à Caridade, se são feitas pela salvação, não são elas meritórias?"Então disseram entre si: Convoquemos ainda muitos dos nossos sitiemos esta cidade e expulsemos estes Caridades". Ora enquanto faziam seus preparativos, eis que apareceu como um fogo do Céu, que os consumiu; mas o fogo do Céu era a aparência da cólera e do ódio contra os que estavam na cidade, porque estes tinham transferido a Fé do primeiro lugar para o segundo, e mesmo para mais baixo sob a Caridade, dizendo que não era a fé; se apareceram como consumidos pelo fogo, é porque o Inferno se abriu sob seus pés eles foram tragados. Acontecimentos semelhantes aconteceram em vários lugares no dia do Julgamento Final; é também o que é entendido no Apocalipse por esta passagem: "0 Dragão sairá para seduzir as Nações que (estão) nos quatro ângulos da terra, a fim de as reunir para uma guerra; e subirão sobre a largura da terra e cercarão o campo dos santos e a cidade querida; e desceu um fogo do Céu e os consumiu" (20, 8, 9).

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