- Quinto Memorável. Um dia vi um Papel descendo do Céu ao Mundo dos espíritos, em uma Sociedade onde havia dois Prelados da Igreja tendo sob estes Cônegos e Padres; este papel continha uma exortação para reconhecer o Senhor Jesus Christo como Deus do Céu e da Terra, como Ele mesmo tinha en-sinado (Mateus XXVIII, 18); e para se retirar da doutrina da Fé justificante sem as obras da lei, porque esta doutrina é errônea. Este papel foi lido e copiado por um grande número; e vários pensavam e falavam judiciosamente das cousas que ele continha. Mas depois de o terem recebido, disseram entre si: "Ouçamos os Prelados". E estes foram ouvidos, mas contradisseram e desaprovaram; ora, os Prelados desta Sociedade eram duros de coração em conseqüência dos falsos de que se tinham imbuído no inundo precedente; por isso, depois de uma curta consulta entre si, devolveram o papel para o Céu, de onde tinha vindo; feita esta devolução, a maior parte dos Leigo, depois de alguns murmúrios, retiraram seu precedente assentimento, e então a luz de seu julgamento nas cousas espirituais, que tinha brilhado antes, extinguiu-se de repente; depois de terem sido, de novo, advertidos, mas em vão, eu vi esta sociedade afundar, mas não vi a que profundidade; e desapareceu assim à vista daqueles que adoravam unicamente o Senhor e têm em aversão a fé só justificante. Mas alguns dias depois, vi uma centena de espíritos subir da terra inferior, onde esta pequena sociedade se tinha afundado; aproximaram-se de mim e um deles, tomando a palavra, disse: "Escuta uma cousa maravilhosa: Quando nos afundamos, apresentou-se a nós um lugar como um lago, mas pouco depois como uma terra seca e em seguida como uma cidadezinha, na qual, muitos tinham, cada um, sua casa; no dia seguinte, consultamo-nos entre nós sobre o que havia a fazer; muitos disseram que era preciso ir procurar, esses dois Prelados da Igreja e os repreender com doçura por terem devolvido o Papel para o Céu de onde tinha descido, o que tinha sido a causa do que nos, tinha acontecido; escolheram então alguns deles que foram a procura dos Prelados - o que me falava me disse que era um deles; e então um de nós que sobressaia em sabedoria, falou assim aos Prelados: "Nós acreditávamos que entre nós, mais do que entre todos os outros, havia a Igreja e a Religião porque ouvimos repetir que estávamos na suprema luz do Evangelho; mas foi dada a alguns de nós a ilustração procedente do Céu; e na ilustração, a percepção de que hoje em dia no Mundo Cristão não há mais Igreja porque não há Religião". Os Prelados responderam: "Que dizeis? Não está a Igreja onde está a Palavra, onde o Christo Salvador é conhecido e onde estão os Sacramentos?" A isso, o nosso respondeu: "Estas cousas são a Igreja porque fazem a Igreja, entretanto, elas a fazem não fora do homem, mas dentro do homem". E além disso, êle disse: "A Igreja pode estar onde se adora três Deuses? A Igreja pode estar onde toda sua doutrina é fundada sobre uma única passagem de Paulo falsamente entendida e não sobre a Palavra? Pode haver Igreja, quando não se dirigem ao Salvador do Mundo, que é, Ele mesmo, o Deus da Igreja? Quem pode negar que a Religião consiste em fugir do -mal e fazer o bem? Há uma Religião onde se ensina que a fé só salva, e não ao mesmo tempo a caridade? Há uma Religião onde se ensina que a Caridade procedendo do homem não é senão uma Caridade moral e civil? Quem não vê que nessa caridade nada há da Religião? Há na fé só alguma coisa de ato ou de obra, quando, entretanto, a Religião consiste em fazê-lo? Existe sobre todo o Globo uma Nação, que exclua todo salvífico dos bens da Caridade, que são as boas obras, quando, entretanto, tudo na Religião consiste no bem e tudo da Igreja na doutrina que ensina os veros e pelos veros os bens? Que glória para nós, se tivéssemos aceito o que trazia em seu seio esse Papel descido do Céu!" Então os Prelados disseram: "Tu falas demasiado alto; a Fé pelo ato, que é a Fé plenamente justificante e salvante, não é a Igreja? e a Fé pelo ato, que é a Fé procedente e aperfeiçoante, não é a Religião? aprendei isso, filhos". Mas então o nosso Sábio disse: "Escutai, pois! Será que o homem não concebe a Fé pelo ato como um toco, segundo o vosso dogma? Um toco, pode ser vivificado na Igreja? Será que a Fé pelo estado não é, segundo a vossa idéia, a continuação e a progressão da fé pelo ato? E, pois que em vosso dogma, todo salvífico está na Fé e que não há salvífico algum no bem da caridade pelo homem, onde está então a Religião? Os Prelados disseram: "Amigo, tu falas assim porque não conheces os Arcanos da justificação pela Fé só; e quem não os conhece, não conhece o caminho da salvação pelo interior; teu caminho é externo e plebeu; segue-o se quiseres, mas sabe apenas que todo bem vem de Deus e que bem algum vem do homem; e assim, o homem nas cousas, espirituais nada pode por si mesmo; como então o homem pode por si mesmo fazer o bem, que é um bem espiritual?" Fortemente indignado com estas palavras, aquele dentre nós que lhes falava, respondeu: "Conheço os vossos Arcanos da justificação mais do que vós, e vos digo abertamente que não vejo interiormente em vossos Arcanos senão fantasmas; a Religião não consiste em reconhecer e amar a Deus e em fugir e odiar o diabo? Deus não é o Bem mesmo, e o Diabo o Mal mesmo? Quem é, em todo o Globo, o homem que, tendo uma religião, não sabe isso? Não é reconhecer e amar a Deus fazer o bem, porque é de Deus e vem de Deus? e não é fugir do Diabo e odiá-lo, não fazer o mal, porque o mal é do Diabo e vem do Diabo? Vossa Fé pelo ato, que dizeis plenamente justificante e servante, ou, o que é a mesma cousa, vosso Ato de justificação pela fé só, ensina a fazer algum bem, que é de Deus e vem ,de Deus e ensina a fugir de algum mal que é do Diabo e vem do Diabo? de modo algum, pois decidistes que não há salvação alguma em fazer um e fugir do outro. 0 que é a vossa Fé pelo estado, que chamais Fé procedente e aperfeiçoante, senão a mesma Fé pelo ato? Como pode ela ser aperfeiçoada, pois que excluis todo bem que o homem faz como por si mesmo, dizendo em vossos Arcanos: Como o homem pode ser salvo por algum bem que faça, pois que a salvação é gratuita? Dizendo também: 0 que é o bem que o homem faz, senão um bem meritório e, entretanto, o mérito do Christo é tudo? Fazer o bem para a salvação seria atribuir-se o que pertence ao Christo só, assim seria também querer se justificar e salvar por si mesmo? Enfim, dizendo ainda: Como alguém pode fazer o bem, pois que o Espírito Santo faz tudo sem nenhuma ajuda humana? Que necessidade há ainda de algum bem acessório por parte do homem? Quando todo bem vindo do homem não é em si o Bem? e multas outros raciocínios semelhantes. Não são esses os vossos Arcanos? Mas a meus olhos ao puras argúcias e finuras inventadas com o fim de afastar as boas Obras, que são os bens da Caridade, a fim de estabele-cer a vossa fé só; e como agis, assim, considerais o homem quanto a esta fé, e em geral, quanto a todos os espirituais que pertencem à Igreja e à Religião, como um toco ou como uma estátua inanimada e não como um homem criado à imagem de Deus, a quem foi dada a faculdade de compreender e de querer, de crer e de amar, de falar e de fazer, absolutamente como por si mesmo sobretudo nas cousas espirituais, porque -é por elas que o homem é homem; se o homem, nas cousas espirituais, não pensasse e não agisse como por si mesmo, que seria entra a Palavra, que seria então a Igreja e a Religião e que seria então o cultos? Sabeis que fazer o bem ao próximo por amor, é a Caridade; mas não sabeis que é a Caridade, quando, entretanto, a Caridade é a alma a essência da Fé; e pois que a Caridade é a alma e a essência que se torna então a Fé afastada da Caridade, senão uma Fé morta? Ora, a Fé morta não é mais que um espectro: eu a chamo um espectro porque Jacques chama a Fé sem as boas Obras não somente fé morta, mas mesmo fé diabólica. Então um desses Prelados, tendo ouvido que a sua fé era chamada fé morta, fé diabólica e espectro, arrebatou-se de tal modo, que arrancou a Mitra da Cabeça e a lançou sobre a mesa, dizendo: "Não a retomarei enquanto não tiver tirado vingança dos inimigos da Fé de nossa Igreja". E sacudiu a cabeça, murmurando e dizendo: "Este Jaques, este Jaques!" Na frente de sua mitra, havia uma lâmina de metal sobre a qual estava esta inscrição: Fé só justificante; e então apareceu de repente um monstro saindo da terra com sete cabeças, tendo os pés como os de um urso, o corpo como o de um leopardo e a goela como a de um leão, absolutamente semelhante à bêsta que está descrita no Apocalipse (8, 1, 2) de que unia imagem foi feita e adorada (vers. 14, 15). Este espectro tomou a Mitra de cima da Mesa, alargou-a em baixo e a pôs sobre as suas sete cabeças; feito isto, a terra se abriu sob seus pés e êle foi tragado. A vista disto, o prelado exclamou: "Violência! Violência!" Então nos separamos deles; e eis, que diante de nossos olhos uma escada, pela qual subimos e voltamos esta terra e à vista do Céu, onde estávamos antes". Eis o que me contou este espírito, que tinha reascendido da terra inferior com cem outros espíritos.
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