VRC &400

A Verdadeira Religião Cristã
Emanuel Swedenborg
Contendo toda a teologia da Nova Igreja

- IV. Do Amor de si e do Amor do mundo em particular.
1) 0 Amor de si consiste em não querer bem senão a si mesmo, e a não o querer aos outros, mesmo à Igreja, à Pátria, a uma Sociedade humana e ao concidadão, senão em relação a si; como também em não fazer o bem senão tendo em vista a reputação, a honra e a glória, de sorte que, se não se vê a reputação, a honra ou a glória no bem que se lhes pode fazer, se diz no coração: Que me importa? Por que o faria? Que lucrarei com isso? E assim não o faz; daí é evidente que aquele que está no amor de si não ama a Igreja, nem a Pátria, nem a Sociedade, nem o Concidadão, nem Bem algum real, mas não ama senão a si só e o que lhe pertence. 2) 0 homem está no Amor de si quando nas cousas que pensa e que faz não considera o próximo, nem o Público, ainda menos o Senhor, mas não vê senão êle mesmo e os seus: por conseqüência, quando faz tôdas as cousas para si mesmo e para os seus, e também quando faz alguma cousa para o Público, unicamente para se fazer ver; e para o próximo unicamente a fim de que lhe seja favorável. 3) Diz-se para Si mesmo e para os Seus, pois aquele que se ama, ama também os seus, que são especialmente seus Filhos e seus Descendentes e geralmente todos os que fazem um com êle e que êle chama os Seus; amar uns e outros, é também amar-se a si mesmo pois os considera como em si e se considera como neles; entre os que chama os seus estão também todos os que o louvam, o honram e o veneram. Quanto a todos os outros, êle os olha, é verdade, com os olhos do corpo como homens, mas aos olhos de seu espírito, apenas são outra cousa mais que fantasmas. 4) No Amor de si está o homem que despreza o próximo comparando-o a si mesmo, que o considera como inimigo, se não lhe é favorável e se não o venera e não lhe presta homenagem; ainda mais no Amor de si está aquele que, por causa disso, odeia o próximo e o persegue; e ainda mais aquele que, por causa disso, arde em vingança contra êle e deseja ardentemente a sua perda; tais ho mens gostam de praticar crueldades. 5) Pela comparação com o Amor celeste, pode-se ver qual é o Amor de si; o Amor celeste consiste em amar por causa dos usos, os usos, ou por causa dos bens, os bens, que se faz à Igreja, à Pátria, a uma Sociedade humana e ao concidadão; mas aquele que ama por causa de à, não os ama senão como criados porque o servem; segue-se daí que aquele que está no Amor de si quer que a Igreja, a Pátria, as Sociedades humanas e os concidadãos o sirvam e não quer servi-los; coloca-se acima deles e os põe abaixo de si. 6) Além disso, tanto mais alguém está no Amor celeste, que -consiste em amar os usos e os bens, e em ser afetado pelo prazer do coração fazendo-os, tanto mais é conduzido pelo Senhor, porque este Amor é aquele em que está o Senhor e aquele que vem do Senhor; mas quanto mais alguém está no Amor de si, tanto mais é conduzido por si mesmo; e quanto, mais é conduzido por si mesmo, tanto mais o é por seu Próprio; e o Próprio do homem não é senão mal, pois é seu mal hereditário, que consiste em se amar de preferência a Deus e em amar ao Mundo, de preferência ao Céu. 7) 0 Amor de si é ainda tal que, quanto mais se lhe soltam as rédeas, isto é, quanto mais são afastados os laços externos, que são o medo da perda da reputação, da honra, do ganho, dos empregos e da vida, tanto mais se lança, até querer dominar não somente sobre todo o Globo, mas ainda sobre o Céu e mesmo sobre Deus; jamais há para êle algum termo ou algum fim; esta cupidez está escondida em todo homem que está no Amor de si, ainda que não se manifeste diante do Mundo, onde os freios e os laços acima mencionados, o retêm; e quem é tal quando encontra um obstáculo impossível de vencer, aí se detém, até que a cousa se tome possível; é por causa de tudo isso que o homem que está neste amor, não sabe que esta louca cupidez sem limites está escondida nele. Que, entretanto, seja assim, cada um pode vê-lo nos Poderosos e nos Reis, para quem estes freios, estes laços e estas impossibilidades não existem, os quais se precipitam sobre as Províncias e os Reinos, os subjugam, tanto quanto o sucesso os ajuda e aspiram a um poder e a uma glória sem limites; e mais ainda naqueles que estendem sua Dominação sobre o Céu e transferem para eles todo o Poder Divino do Senhor; estes desejam contInuamente mais. 8.0) Há dois gêneros de Dominação: Uma do amor em relação ao próximo; e a outra do Amor de si. Estas duas Dominações são opostas uma à outra, aquele que domina pelo Amor em relação ao próximo, quer bem a todos e nada ama mais de que fazer usos, e também servir aos outros, é pelo bem querer fazer bem aos outros e fazer usos; é este seu Amor, é este o prazer de seu coração; quanto mais este é elevado às dignidades, tanto mais também se regozija, não por causa das dignidades, mas por causa dos usos que pode fazer com maior abundância e em um grau mais extenso; tal a Dominação nos Céus. Mas aquele que domina pelo amor de si não querer bem a quem quer que seja e só o quer para si e para os seus; os usas que faz são para sua própria honra e sua própria glória, são estes para de os únicos usos; serve aos outros a fim de ser de mesmo servido, ser honrado e dominar; ambiciona as dignidades, não pelos bens que poderá fazer, mas para ficar acima dos outros e na glória, por conseguinte, pelo prazer de seu coração. 9) 0 amor da Dominação permanece, também em cada um após a vida no Mundo; mas aos que, dominaram pelo Amor em relação ao próximo, é também confiada. uma Dominação nas Céu, e então não são eles que dominam, mas são os usos e os bens que eles amam; e quando os usos e as bens dominam, o Senhor domina; quanto àqueles que no Mundo dominaram pelo Amor de si, são despojados da dominação após a vida no Mundo e são reduzidos à servidão. Ora, pelo que acaba de ser dito, pode-se conhecer quais são os que estão no Amor de si; pouco importa que aparências tenham na forma externa, que estejam elevados ou submissos, pois os motivos da dominação estão no homem Interno, e na maioria o homem Interno está escondido; e o homem Externo está habituado a fingir afeições que pertencem ao Amor do Público e do próximo, assim afeições Contrárias e isso também em vista de si mesmo; pois esses sabem que amar o Público e o próximo faz interiormente impressão sobre todos os homens e que se é mais estimado por isso; se isso faz impressão, é porque o Céu influi nesse Amor. 10) os males, naqueles que estão no Amor de ai, são em geral, o Desprezo pelos outros, a Inveja, a Inimizade contra os que não lhes são favoráveis, a Hostilidade que dai provém, os ódios de toda espécie, a Vingança a Astúcia, as Velhacarias, a Desumanidade, a Crueldade; e onde estão tais males, há também o Desprezo por Deus e pelos Divinos, que são os bens e os veros da. Igreja; se honram, é somente de boca e não de coração. E coma esses males provêm desse amor, dele provêm também os falsos semelhantes, pois os falsos vêm dos males. 11) 0 Amor do Mundo consiste em querer atrair a si as Riquezas dos outros por qualquer meio que seja, em pôr seu coração nessas riquezas em deixar que o Mundo o retire e o afaste do Amor Espiritual, que é o Amor em relação ao próximo, e assim o afasta do Céu. No Amor do Mundo estão os que desejam se apoderar dos bens dos outros por diversos meios, sobretudo os que empregam a astúcia e a velhacaria, considerando como nada o, bem do próximo; os que estão neste Amor cobiçam os bens dos outros; e quando, não temem as leis, nem a perda de sua reputação por causa dos proveitos que procuram, eles roubam e pilham. 12) Entretanto, o Amor do Mundo não é oposto ao Amor celeste no mesmo grau que o Amor de si, porque não tem tão grandes males encerrados em si. 13) Este Amor é de várias espécies; há o Amor das riquezas para se elevar às honras; há o Amor das honras e das dignidades para obter as riquezas; há o Amor das riquezas Rara diferentes usos que dão prazer no Mundo; há o Amor das riquezas pelas riquezas sós, tal é o Amor dos avarentos; e assim por diante; o Em pelo qual se deseja as riquezas é chamado uso; e é do fim ou do uso que o amor tira sua qualidade; pois tal é o fim pelo qual se deseja, tal é o Amor; tôdas as outras coisas lhe servem como meios. 14) Em uma palavra, o Amor de si e o Amor do Mundo são absolutamente opostos ao Amor para com o Senhor e ao Amor em relação ao próximo; é por isso que o Amor, em si e o Amor do Mundo, tais como foram descritos acima, são Amores infernais, reinam por isso no Inferno e fazem mesmo o Inferno no homem. Ao contrário, o Amor para com o Senhor e o Amor em relação ao próximo são Amores celestes, reinam por isso no Céu, e fazem mesmo o Céu no homem.

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