- Terceiro Memorável. Um dia fui levado em espírito à Plaga meridional do Mundo espiritual, e aí a um Paraíso; e vi que êle ultrapassava em beleza tudo o que eu tinha visto até então; isto provinha de que o Jardim significa a Inteligência e. que, ao Sul, são transportados todos os que sobressaem em inteligência; o Jardim do Éden, no qual estavam Adão e sua esposa, não significa outra cousa; é por isso, que a sua expulsão desse jardim significa que foram privados da inteligência e, por conseqüência, também da integridade da vida. Enquanto eu passeava neste Paraíso meridional, notei, sentados sob um loureiro, alguns espíritos que comiam figos; aproximei-me deles, lhes pedi figos e eles me deram; e eis que os Figos na minha mão se tornaram Uvas; como eu me admirasse disso, um Espírito Angélico que estava perto de mim, disse: "Os Figos em tua mão se tornaram. Uvas porque os Figos, pela correspondência, significam os bens da Caridade; por conseqüência, os bens da Fé no homem natural ou externo, ao passo que as Uvas significam os bens da Caridade; por conseguinte, os da Fé no homem espiritual ou interno; e como amas os espirituais, eis porque isso te aconteceu; pois em nosso Mundo tudo se faz, existe e mesmo se muda, segundo as correspondências". Então, me veio, de repente, o desejo de saber como o homem pode fazer o bem por Deus e, entretanto, absolutamente como por si mesmo; perguntei pois aos que comiam figos como eles compreendiam isso. Disseram-me: "Não podemos compreender de outra forma, a não ser assim, que Deus opera interiormente no homem e pelo homem sem que este o saiba, pois que se o homem tivesse consciência disso e que o fizesse assim, não faria senão um bem aparente, que interior-mente é o mal; com efeito, tudo que procede do homem procede de seu próprio, e o próprio de nascença é o mal; como então a bem que vem de Deus e o mal que vem do homem podem estar conjuntos e proceder assim conjuntamente no ato? E o próprio, do homem nas cousas da salvação respira continuamente o mérito, e quanto mais o respira, tanto mais arrebata do Senhor Seu mérito, o que é o cúmulo da injustiça e da impiedade; em uma palavra, se o bem que Deus opera no homem influísse no querer do homem, este seria inteiramente maculado e seria assim profanado, o que, entretanto, Deus não o permite jamais; o homem pode, é verdade, pensar que o bem que êle faz vem de Deus, e chamá-lo o bem de Deus por si, mas todavia, como isso se opera, nós não o compreendemos". Então abri minha mente, e disse: "Vós não compreendeis, porque pensais pela aparência e o pensamento confirmado pela aparência é uma ilusão; há aparência e conseqüentemente, ilusão em vós, porque credes que todas as coisas que o homem quer e pensa, faz e pronuncia, estão nele e, por conseqüência, vêm dele, quanto entretanto não há nele nada dessas cousas, exceto o estado de receber o que influi; o homem não é a vida em si, mas é um órgão que recebe a vida; o Senhor é a vida em si, como o disse também em João: "Como o Pai tem a Vida em Si mesmo, assim Ele deu também ao Filho ter a Vida em Si mesmo" (V, 26), e em outros lugares, por exemplo, João XI, 25; XIV, 6, 9. Há duas cousas que constituem a Vida, a saber, o Bem do Amor e o Vero da Sabedoria; elas influem de Deus e são recebidas pelo homem como se lhe pertencessem; e porque são sentidas assim, procedem também do homem como lhe pertencendo; foi permitido pelo Senhor que fossem sentidas assim pelo homem, a fim de que o que influi o afete e, por conseqüência, seja recebido e permaneça. Mas como todo mal influi também, não de Deus, mas no Inferno, e é recebido com prazer, porque o homem é por nascimento um órgão tal, é por isso que não é recebido de Deus mais bens do que há males afastados do homem como por si mesmo, o que se faz pela Penitência e, ao mesmo tempo, pela Fé no Senhor. Que o Amor e a Sabedoria, a Caridade e a Fé, ou por falar mais comumente, o Bem do amor e da caridade e o Vero da sabedoria e da fé influem, e que as cousas que influem aparecem no homem como lhe pertencendo e, conseqüentemente, procedem como lhe pertencendo, é o que é claramente manifestado pela vista, pelo ouvido, pelo olfato, pelo paladar e o tato; todas as cousas que são sentidas pelos órgãos destes sentidos influem de fora e são sentidas neles; semelhantemente, nos órgãos dos sentidos internos, com a única diferença de que nestes influem os Espirituais que não aparecem, e naqueles, os Naturais que aparecem; em uma palavra, o homem é um órgão recipiente da vida que procede de Deus, por conseqüência é um recipiente do bem tanto quanto renuncia ao mal; o Senhor dá a cada homem o poder de renunciar ao mal porque lhe dá o querer e o compreender; e tudo o que v homem faz pela vontade segundo o entendimento ou tudo o que faz pela liberdade da vontade segundo a razão do entendimento, permanece nele; por isto o Senhor introduz no homem o estado de conjunção com êle e nesse estado Êle o reforma, o regenera e o salva. A Vida que influi é a Vida procedente do Senhor, a qual também é chamada o Espírito de Deus e na Palavra o Espírito Santo, de que se diz também que ilustra e vivifica e mesmo que opera no homem; mas esta Vida é variada e modificada segundo a Organização introduzida pelo amor. Podeis também saber que todo bem do amor e da caridade e todo vero da sabedoria e da fé, influem e não estão no homem; por isto mesmo, que aquele que pensa que este bem e este vero estão no homem por criação, não pode em seguida impedir-se de pensar que Deus se infundiu no homem e que assim os homens se riam em parte, Deuses; entretanto, os que pensam isto pela fé -se tornam diabos, e no Mundo espiritual fedem como cadáveres. Além disso, o que é a ação do homem, senão a Mente agindo? Pois o que a Mente quer e pensa, ela o faz e o pronuncia pelo Corpo seu órgão; é por isso que, quando a Mente é conduzida pelo Senhor, a Ação e a Linguagem são conduzidas também; e a Ação e a Linguagem são conduzidas pelo Senhor quando se crê n'Êle. Se não fosse assim, dizei, se o puderdes, por que o Senhor, em Sua Palavra, ordenou em milhares de passagens, que v homem ame seu próximo, que pratique os bens da caridade, dê frutos como a árvore e que faça os preceitos, a fim de ser salvo? Depois, por que disse que o homem seria julgado segundo seus efeitos ou suas obras, o que faz boas obras para o Céu e -a Vida, e o que as faz más, para o Interno e a Morte? Como o Senhor teria podido falar assim, se tudo o que procede do homem fosse meritório e, por conseqüência, o mal? Sabei, pois que se a Mente é Caridade, a ação também é Caridade; mas que se a Mente é a Fé só, que é também a Fé separada da Caridade espiritual, a Ação também é esta Fé". A estas palavras os que ,estavam sentados sob o loureiro, disseram: "Talvez haja justeza no que acabas de dizer, mas não obstante não compreendemos", Eu lhes respondi: "0 que acabo de dizer, vós compreendeis-lhe a justeza pela percepção comum que está no homem pelo influxo da luz vinda do Céu, quando ouve dizer algum vero; mas pela percepção própria que está no homem pelo influxo da luz vinda do Mundo, vós não o compreendeis; estas duas percepções, a saber, a interna e a externa, ou a espiritual e a natural, não fazem mais que uma nos sábios; vós também podeis destas duas percepções não fazer mais que uma, se dirigirdes os vossos olhos para o Senhor, e se afastardes os males". Como compreendessem isso, tomei ramos de uma Cepa, lhos apresentei e disse: "Acredita que isto vem de mim ou do Senhor?" e eles disseram que isso vinha de mim pelo Senhor. E eis que esses ramos em suas mãos produziram uvas. Mas quando me retirava, vi uma mesa de cedro, sobre a qual estava um Livro, sob uma oliveira verdejante, cujo tronco estava cercado por uma Cepa; olhei, e eis que era um Livro escrito por mim e intitulado: "Arcanos Celestes"; e eu disse que nesse Livro foi plenamente mostrado que o Homem é um órgão recipiente da vida e não a vida; e que esta não pode ser criada, nem se achar criada no homem, mais do que a luz no olho.
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