- Quarto Memorável. Dirigi os meus olhos para uma Costa marítima no Mundo espiritual e vi um Porto magnífico; aproximei-me e examinei o interior; e eis que havia lá Navios grandes e pequenos, e nesses navios mercadorias de todo gênero; e sobre os bancos estavam sentados rapazes e moças, distribuindo estas mercadorias aos que as queriam; e diziam: "Estamos esperando ver as nossas belas Tartarugas que em breve vão sair do mar para vir a nós". E eis que vi Tartarugas, pequenas e grandes, sobre as cascas e as escamas das quais havia Tartarugas novas, que olhavam para as ilhas ao redor. As Tartarugas-pais tinham duas Cabeças, uma grande, cercada de uma casca semelhante à casca de seu corpo, o que as fazia brilhar; e a outra, pequena, como é ordinariamente nas tartarugas, que elas recolhiam na parte anterior do corpo e que faziam entrar também de uma maneta apenas visível em sua Cabeça grande; eu tinha os olhos fixados sobre a grande Cabeça brilhante e vi que ela tinha uma face como um homem, e que falava com os rapazes e as moças, que estavam nos bancos e lhes lambiam as mãos; então, os rapazes e as moças lhes tocavam docemente, lhes davam alimento e gulodices e também coisas preciosas, como sedas para roupas, madeiras odoríferas para mesas, púrpura para ornamento e escarlata para pintar o rosto. Depois de ter visto estas cousas, desejava saber o que elas representavam, porque sei que tôdas as cousas que aparecem no Mundo espiritual são correspondências é representam os espirituais que pertencem à afeição e ao pensamento; então, os Anjos falaram do Céu comigo e disseram: "Tu mesmo conheces o que representa o Porto, o que representam os Navios, e também o que representam os Rapazes e as Moças nestes Navios mas não sabes o que representam as Tartarugas". E me disseram: "As Tartarugas representam aí os do Clero, que separam interiormente a Fé da Caridade e de suas boas obras, afirmando em si mesmos, que entre a Fé e a Caridade não há absolutamente conjunção alguma, mas que o Espírito Santo pela Fé em Deus Pai, por causa do mérito do Filho, entra no homem e purifica seus interiores até à sua própria Vontade, de que fazem como um Plano oval; e que, quando a operação do Espírito Santo se aproxima desse plano, afasta-se de sua parte esquerda girando e não a toca de modo algum, e que assim a parte interior ou superior do gênio do homem é para Deus, e a parte exterior ou inferior, para o homem; e, por conseqüência, não aparece diante de Deus cousa alguma do que faz o homem, seja bem, seja mal; o bem porque é meritório; o mal porque é o mal; pois se o bem e o mal aparecessem diante de Deus, i homem pereceria por um e por outro; e que, isso sendo assim, permitido ao homem querer, pensar, dizer e fazer tudo o que lhe agrada, desde que tome cuidado consigo por causa do Mundo". Perguntei se eles afirmavam também que é permitido pensar de Deus que Êle não é Onipotente nem Onisciente. Responderam-me do Céu: "Eles pretendem que isso também lhes é permitido, porque Deus, naquele que obteve a Fé e foi por ela purificado e justificado, não olha para coisa alguma do seu pensamento nem de sua vontade e que, entretanto, o homem retém no selo interior ou na região superior de sua mente ou de seu gênio, a Fé que tinha recebido em seu ato e que este ato pode, por vezes, voltar à revelia do homem. E' isso que representa a Cabeça pequena, que eles recolhem na parte anterior do corpo e que fazem entrar também na Cabeça grande, quando falam com os leigos; pois falam com eles, não pela Cabeça pequena, mas pela Grande, que pela frente aparece como tendo uma face humana; e pela Palavra, falam com eles do Amor, da Caridade, das boas obras, dos Preceitos do Decálogo, da Penitência e tiram da Palavra quase tôdas as cousas que aí estão sobre êstes assuntos; mas então fazem entrar na Cabeça grande a Cabeça pequena, pela qual compreendem interiormente em si mesmos, que tôdas estas cousas devem ser feitas não para Deus, nem para a salvação, mas unicamente para o bem público e o bem privado. Todavia, como é segundo a Palavra, que falam com suavidade e elegância destes assuntos, sobretudo do Evangelho, da operação do Espírito Santo e da Salvação, aparecem aos seus ouvintes como homens preciosos e como os mais sábios de todo o Universo; é por isso mesmo que vistes que os rapazes e as moças sentados nos bancos dos navios lhes davam gulodices e coisas preciosas; são êles, portanto, que vistes representados por Tartarugas. Em teu Mundo, eles são pouco distinguidos dos outros, exceto nisto, que se acreditam mais sábios que todos, e que escarnecem dos outros e também, daqueles que estão em uma semelhante doutrina quanto à Fé, mas não em seus arcanos; usam em suas roupas um certo sinal pelo qual se fazem reconhecer pelos outros". 0 que me falava acrescentou: "Não te direi o que eles pensam das outras cousas da Fé, por exemplo, da Eleição, do Livre Arbítrio, do Batismo e da Santa Ceia; são segredos que eles não divulgam, mas nós, no Céu, o sabemos. Entretanto, como eles são assim no Mundo e que depois da morte a ninguém é permitido falar diferentemente do que pensa, é por isso que então, como eles não podem falar senão pelas loucuras de seus pensamentos, são reputados como loucos, expulsos das Sociedades e precipitados nos poços do abismo, de que se fala no Apocalipse 9.10, 2; e se tornam Espíritos corporais e aparecem como Múmias Egípcias; pois uma calosidade foi introduzida nos interiores de sua Mente, porque no Mundo tinham interposto aí uma separação. A Sociedade Infernal destes Espíritos fica sobre os confins da Sociedade infernal dos Maquiavelistas e eles entram indistintamente de uma na outra, e se chamam entre si companheiros; mas saem dela porque diferem deles pelo fato de haver neles alguma cousa da religião concernente ao ato da justificação pela fé, enquanto que nos Maquiavelistas nada há de religião". Depois que os vi expulsos das Sociedades e reunidos para serem precipitados, vi no ar um Navio voando com sete velas e nesse navio, pilotos e marinheiros, cobertos com roupas de púrpura, tendo sobre seus bonés magníficas coroas de louro e exclamando: "eis no Céu, somos Doutores revestidos de púrpura e coroados de louro de preferência a todos os outros porque somos os chefes dos sábios de todo o (Mero da Europa?". Estava admirado do que via e me foi dito que eram imagens do fasto e dos pensamentos ideais, que se chamam fantasias, daqueles que, precedentemente, tinham sido vistos cormo Tartarugas, e que agora, tendo sido, como loucos, expulsos das Sociedades e reunidos, se mantinham juntos em um mesmo lugar; e então, desejei falar com eles, me aproximei do lugar onde estavam, os saudei e lhes disse: "Sois vós que haveis separado os Internos dos homens de seus Externos e a Operação do Espírito Santo como estando na Fé de sua cooperação com os homens fora da Fé e, por conseqüência, separado Deus dos homens; não tendes vós assim afastado da Fé não somente a Caridade e suas Obras, como vários outros Doutores do Clero, mas também a Fé mesma quanto à sua manifestação diante de Deus pelo homem? Mas, eu vos peço, quereis que eu converse convosco sobre este assunto segundo a Razão ou segundo a Escritura Santa?" Disseram: "Fala primeiro segundo a Razão". E falei, dizendo: "Como o Interno e o Externo no homem podem ser separados? Quem não vê ou não pode ver, pela percepção comum, que todos os interiores do homem mergulham e são continuados nos seus Exteriores e até nos seus extremos, para produzir seus efeitos e operar suas obras? Os Internos não são, em relação aos Externos, para terminar neles, aí subsistir e assim existir, pouco mais ou menos, como uma coluna em relação a seu pedestal? Podeis ver que se não houvesse continuação e assim, conjunção, os externos seriam dissolvidos te se dissipariam como bolhas de sabão no ar; quem pode negar que as operações interiores de Deus, no homem, sejam por miríades de miríades, sem que o homem saiba cousa alguma? e de que lhe serviria saber alguma cousa delas? é suficiente que conheça os extremos, nos quais com seu pensamento e sua vontade, está com Deus. Mas isso vai ser ilustrado com um exemplo: 0 homem conhece as operações interiores de sua linguagem? Sabe êle como o pulmão atrai o ar e enche dele as suas vesículas, os brônquios e os lóbulos; como empurra este ar na Traquéia, e aí o muda em som; como este som é modificado na glote com o auxílio do laringe; como, em seguida, a língua o articula e como os lábios completam a articulação, a fim de que se torne linguagem? Tôdas estas operações interiores de que o homem nada sabe, não são elas para o extremo, a fim de que o homem possa falar? Afastai ou separai um destes internos de sua continuidade com os extremos, será que o homem poderia falar mais do que um toco? Seja ainda um exemplo: As duas mãos são os últimos do homem; os Interiores que são continuados até elas não vêm .da Cabeça pelo Pescoço, depois pelo Peito, as Espáduas, os Bragos e os Antebraços? Não há inumeráveis tecidos musculares, inumeráveis falanges de fibras motrizes, inumeráveis feixes de nervos e de vasos sanguíneos e um grande número de juntura de ossos, com seus ligamentos e sua membranas? 0 homem sabe alguma coisa de sua ação? Entretanto, as mãos operam pelo jogo de tôdas e de cada uma destas partes; suponde que estes interiores, em direção ao punho, se voltam à esquerda ou à direita e não entrem por continuidade na mão, a mão não se destacaria do antebraço, e não apodreceria como uma parte arrancada e sem vida? E mesmo, se quiserdes acreditar, seria como o ,corpo, se o homem fosse decapitado. Aconteceria absolutamente o mesmo com a Mente humana e com as suas duas Vidas, a Vontade e o Entendimento, se as Divinas Operações que pertencem à Fé e à Caridade, cessassem no meio do caminho e não tendessem por continuidade até ao homem; certamente, então o homem seria não somente um bruto, mas uma prancha apodrecida. Eis o que eu tinha a dizer segundo a razão. Agora, se quiserdes me ouvir, provarei as mesmas cousas segundo a Escritura Santa: 0 Senhor não disse: "Permanecei em Mim, e Eu em vós; Eu sou a Cepa; vós os sarmentos; aquele que permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto" (João XV, 4, 5); os frutos não são as boas obras que o Senhor faz pelo homem e que o homem faz de si mesmo pelo Senhor? 0 Senhor não disse ainda: "Eu estou à porta e bato e naquele que abre a porta, eu entro e ceio com ele, e ele comigo" (Apoc. 3, 20). 0 Senhor não dá minas e talentos, a fim de que o homem os faça render e tire lucro deles e a fim de lhe dar segundo o ganho, a vida eterna? (Mateus XXV, 14-30; Lucas XIX, 13-26). 0 Senhor não dá a cada um o salário segundo o trabalho em sua vinha? (Mateus XX, 1, 2, 17). Mas não é isto mais que um pequeno número, de passagens da Palavra, encher-se-ia páginas com aquelas onde se diz que o homem deve dar frutos como a árvore, deve cumprir os mandamentos, que deve amar ao Deus e ao próximo, etc. Mas eu sei que a vossa própria Inteligência nada pede ter de comum com as cousas que estão na Palavra, como é em si; ainda que tenhais estas cousas na boca, contudo as vossas idéias as pervertem; e não podeis fazer de outro modo, pois que afastais do homem tôdas as coisas de Deus quanto à comunicação e, por conseguinte, quanto à conjunção; que vos resta então, senão afastar também tôdas as cousas do culto?" Depois disso, eles me apareceram na luz do Céu que descobre e manifesta cada um tal qual é; e então foram vistos não como precedentemente sobre um navio no ar, como em um Céu, nem cobertos de vestimentas de púrpura e com a cabeça coroada de louro, mas em um lugar arenoso com vestimentas esfarrapadas e os rins cercados de redes de pescar, através das quais aparecia sua nudez e então foram enviados para a sociedade que estava nos confins da, sociedade dos Maquiavelistas.
FIM DO PRIMEIRO VOLUME