VRC &569

A Verdadeira Religião Cristã
Emanuel Swedenborg
Contendo toda a teologia da Nova Igreja

- Terceiro Memorável (N. 58). Cada amor do homem exala um prazer pelo qual se faz sentir, e o exala primeiramente no espírito, e depois no corpo, e o prazer de cada amor de companhia com o encanto do seu pensamento faz a vida do homem; estes prazeres e êstes encantos não são sentidos senão obscuramente pelo homem, enquanto vive no corpo Natural, porque êste corpo os absorve e os embota; mas depois da morte, quando o Corpo material foi retirado, e que assim a cobertura ou a vestimenta do espírito foi afastada, os prazeres do amor e os encantos do pensamento são plenamente sentidos e percebidos, e, cousa admirável, por vezes como odores; daí vem que todos, no Mundo espiritual, são consociados segundo seus amores, no Céu segundo os amores celestes, e no Inferno segundo os amores, infernais; os odores, em que são mudados os prazeres dos amores, do Céu, são todos sentidos como doces e suaves odores, agradáveis exalações e deliciosas percepções, tais como se sentem nos jardins, nos bosques, nos campos e nas florestas, de manhã, na estação da primavera; mas os odores, em que são mudados os prazeres dos amores, dos que estão no Inferno, são sentidos como odores, infectos, fétidos e mal cheirosos, tais como os das latrinas, dos cadáveres e dos pântanos cheios de plantas e de lodo; e, o que é admirável, os diabos e os satanases os sentem como odores de bálsamo, de perfumes e de incenso, que deleitam suas narinas e seus corações. No Mundo natural também foi dado às bestas, aos pássaros e aos vermes serem consociados segundo os odores, mas isso não é dado aos homens senão depois que depositaram seus corpos como um despojo. Daí vem que o Céu foi disposto em ordem muito distintamente segundo tôdas as variedades do amor do bem, e o Inferno pelo oposto segundo tôdas as variedades do amor do mal; é por causa desta oposição, que entre o Céu e o Inferno há um Abismo, que não pode ser transposto; pois os que estão no Céu não podem suportar nenhum odor do Inferno, porque excita neles náusea e vômitos, e os expõe a cair em desfalecimento se eles o atraem; dá-se o mesmo com os que estão no Inferno, se atravessam o meio dêste Abismo. Vi uma vez um diabo que apareceu de longe como um leopardo; tinha sido visto alguns dias antes entre os Anjos do último Céu e possuía a arte de se fazer Anjo de luz; ele atravessou o meio do abismo, e ficou entre duas oliveiras, e não sentiu odor algum oposto à sua vida; isto provinha de que não havia Anjos presentes; mas desde que se apresentaram foi tomado de convulsões, e caiu tendo todas as juntas contraídas, e então apareceu como uma grande serpente enrolando-se em anéis e se precipitando por fim através do Abismo, e foi recebido pelos seus, e lançado em uma caverna, onde o odor infecto do seu prazer o chamou à vida. Uma outra vez vi um Satanás punido pelos seus; perguntei a causa, me foi dito que tendo tapado suas narinas, se tinha aproximado dos que estavam no odor do Céu, e que tinha voltado, e trazido consigo esse odor sobre suas roupas. Aconteceu algumas vezes que um fétido de cadáver, saído de alguma caverna aberta do Inferno, passou de leve pelas minhas narinas, e excitou em mim o vômito. Por esses detalhes pode-se ver porque na Palavra o olfato significa a percepção, pois se diz muitas vezes que Jehovah sentiu o odor agradável dos holocaustos; se diz também que o óleo de unção e os incensos eram preparados com substâncias aromáticas; e que, vice-versa, tinha sido ordenado aos filhos de Israel que levassem para fora do acampamento o que aí havia de imundo, e fazer um buraco na terra para seus excrementos, e cobri-los (Deut. 23, 14, 15); era porque o Acampamento de Israel representava o Céu, e o Deserto fora do acampamento representava o Inferno.

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