-- Segundo Memorável (N. 66). Depois de um certo espaço de tempo, entrei em um Bosque, e passeei meditando sobre os que estão na cobiça e por conseguinte na fantasia de possuir as cousas que estão no mundo; e então, a alguma distância de mim vi dois Anjos que conversavam um com o outro e por vezes me olhavam; por isso me aproximei de mais perto, e enquanto me aproximava, eles me dirigiram a palavra, dizendo: "Percebemos em nós que meditas sobre um assunto com que nos entretínhamos, ou que conversávamos sobre um assunto sobre o qual meditas, o que provém de uma comunicação recíproca de afeições". Em conseqüência lhes perguntei de que falavam; responderam: "Da Fantasia, da Cobiça e da Inteligência, e no momento mesmo, daqueles que se deleitam com a visão e a imaginação de possuir tôdas as cousas do Mundo". E então lhes pedi que me pusessem em evidência a sua mente sobre êstes três assuntos, a Cobiça, a Fantasia e a Inteligência; e tendo começado a falar, disseram: "Cada um está na Cobiça interiormente de nascença, mas na Inteligência exteriormente por educação; e ninguém está na Inteligência, nem com mais forte razão na Sabedoria, interiormente, assim quanto ao espírito, a não ser que o esteja pelo Senhor; pois todo homem é desviado da cobiça do mal, e mantido na inteligência, conforme olha para o Senhor, e ao mesmo tempo segundo a conjunção com o Senhor; sem isso o homem não é senão cobiça; mas entretanto, nos externos, ou quanto ao corpo, está na inteligência por educação; com efeito, o homem cobiça as honras e as riquezas, ou a proeminência e a opulência; e não adquire nem uma nem outra, a não ser que se mostre moral e espiritual, por conseqüência inteligente e sábio; e aprende desde a infância a se mostrar assim; é isso que faz com que, desde que entra na companhia dos homens ou entra na sociedade, torça seu espírito e o afaste da cobiça; fala e age segundo as coisas decentes e honestas que aprendeu desde a infância, e que retém na memória do corpo; e toma cuidado principalmente para que não se manifeste nada da loucura em que está seu espírito; daí vem que todo homem, que não é interiormente conduzido pelo Senhor, seja dissimulado, enganador, hipócrita, assim, homem em aparência, e não homem entretanto; pode-se dizer dele que sua casca ou seu corpo é sábio, e que sua amêndoa ou seu espírito é louco; que seu externo é de homem, e que seu interno é de uma bêsta; tais homens olham pelo occipute para cima, e pelo sincipute para baixo; assim, andam com a cabeça inclinada para diante e a face inclinada para a terra, como os que são vítimas de uma violenta dor de cabeça; quando se despojam do corpo e se tornam espíritos, e são então liberados, tornam-se as loucuras de sua cobiça; pois os que estão no amor de si desejam ardentemente dominar sobre o universo, e mesmo estender-lhe os limites, para tornar maior a dominação, para eles não há limites jamais; os que estão no amor do mundo desejam ardentemente possuir tudo o que êle encerra, e são tomados de pesar e de inveja, se há tesouros encerrados em poder de outros; portanto para que os que são tais não se tornem puramente cobiças, e assim deixem de ser homens, lhes é concedido no mundo espiritual pensar pelo medo da perda da reputação, e por conseqüência da perda da honra e do ganho, como também pelo medo da lei e da pena que ela inflinge; e lhes é permitido também aplicar sua mente a algum estudo ou a alguma obra, pelos quais são mantidos nos externos e assim em um estado de inteligência, embora estejam interiormente no delírio e na loucura". Em seguida, lhes perguntei se todos os que estão na cobiça, estão também em sua fantasia; responderam. que na fantasia de suas cobiças estão os que pensam interiormente em si mesmos, e que se entregam. demasiado à sua imaginação, falando com eles mesmos; pois quase sempre separam seu espírito da ligação com o corpo, e inundam seu entendimento de visões, e se regozijam loucamente com elas como se possuíssem o universo; neste delírio é mergulhado depois da morte o homem que destacou do corpo seu espírito, e não quisemos: "Não nascestes homens racionais? de onde vos vem essa loucura visionária?" Disseram: "Sabemos que é uma vaidade imaginária, mas como faz o prazer dos interiores de nossa mente, nós entramos aqui, e aqui encontramos delícias como se possuíssemos tudo; entretanto não permanecemos aqui senão algumas horas, depois das quais saímos, e de cada vez o bom-senso. nos volta; mas não obstante o nosso divertimento visionário volta alternativamente, e faz com que sucessivamente entremos e tornemos a sair; assim, somos alternativamente sábios e loucos. Sabemos também que uma sorte cruel aguarda aquele que por manha tiram os bens dos outros". Perguntamos-lhes qual era essa sorte; disseram: "São vagados, e lançados nus em uma prisão infernal, onde são obrigados a trabalhar pelo alimento, e em seguida por algumas pequenas peças de moeda, em que põe a alegria de seu coração; mas se fazem mal a seus companheiros, é preciso que dêem uma parte desta moeda como multa".
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