- Terceiro Memorável (N. 67). Um dia, eu me encontrava no meio de Anjos, e ouvi sua conversa; a sua conversa era sobre a Inteligência e sobre a Sabedoria; diziam que o homem não sente e não percebe outra cousa, senão que elas estão uma e outra nele, e que assim tudo que quer e pensa vem dele, enquanto que, entretanto, do homem não vem a menor cousa da inteligência e da sabedoria, de só tem a faculdade de recebe-Ias; entre várias outras coisas que disseram, se achava também esta, que a Arvore da ciência do Bem e do Mal no Jardim do Éden, significava a fé que a Inteligência e a Sabedoria vinham do homem; e que a Arvore da Vida significava a fé que a Inteligência e a Sabedoria vinham de Deus; e que Adão, persuadido pela serpente, tendo comido da Primeira árvore, crendo que assim era ou se tornaria como Deus, foi por isso expulso do Jardim e condenado. Enquanto os Anjos tratavam deste assunto, vieram dois padres com um Homem que no Mundo tinha sido Embaixador de um Rei, e lhes contei o que tinha ouvido dizer pelos Anjos sobre a Inteligência e sobre a Sabedoria. Desde que ouviram o que lhes referi, se puseram a discutir os três sobre uma e sobre a outra, e também sobre a Prudência, a fim de decidir se vinham de Deus ou do homem; a discussão era viva; todos os três acreditavam igualmente que vinham do homem, porque a sensação mesma e, por conseguinte a percepção o confirmam; mas os Padres, que estavam então no zelo teológico, sustentavam que nada da Inteligência nem da Sabedoria e, por conseguinte nada da Prudência, vinha do homem; e confirmavam isso por esta passagem da Palavra: "Um homem nada pode tomar, a não ser que lhe seja dado do Céu" (João 111, 27); e por esta: "Jesus disse a Seus discípulos: Sem mim nada podeis fazer" (João XV, 5); mas como os Anjos tinham percebido que, embora os Padres falassem assim, tinham de coração a mesma crença que o Diplomata, disseram-lhes: "Tirai a vossa roupa, e toma! roupas de Ministros Políticos, e acreditai que sois esses Ministros". E fizeram assim; e então pensaram pelos seus interiores, e falaram segundo os argumentos que tinham interiormente abraçado, os quais eram que toda sabedoria e toda inteligência habitam no homem, e que lhe pertencem, dizendo: "Quem jamais sentiu que elas influíam de Deus?" E se olharam mutuamente, e se confirmaram. Há isto de particular no Mundo espiritual, que o Espírito imagina ser o personagem de que tem sobre si as roupas, pela razão de que lá o entendimento reveste a cada um. Nesse momento apareceu uma Arvore perto dêles, e lhes foi dito: "E' a Arvore da ciência do Bem e do Mal, abstende-vos de comer dela". Eles, porém, enfatuados pela própria inteligência, ardiam com o desejo de comer; e diziam entre si: "Por que não? Não é um bom fruto?" E se aproximaram e comeram. Depois que o Diplomata o notou, eles se reuniram e se tornaram amigos de coração, e tomaram juntos, agarrando-se pelas mãos, o caminho da própria inteligência, que conduzia ao Inferno; mas entretanto eu os vi voltar, porque não estavam ainda preparados.
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