- Depois disso, foi ouvida uma voz do Céu, vinda dos Anjos que estavam imediatamente acima de nós, dizendo: "Subi aqui, e nós interrogaremos um de vós, que está ainda no Mundo natural quanto ao corpo, sobre o que se sabe no mundo sobre a Consciência". E subimos; e depois que entramos, alguns sábios vieram ao nosso encontro, e me perguntaram: "Que se sabe no Mundo sobre a Consciência?" Respondi: "Se achardes bom, desçamos, e convocaremos tini certo número de Leigos e de Eclesiásticos dentre os que são reputados sábios; nós nos colocaremos perpendicularmente abaixo de vós, e os interrogaremos; e vós, desta maneira, ouvireis com vossos ouvidos o que eles responderem". E assim foi feito; e um dos Eleitos tomou uma trombeta, e a tocou para o Meio-Dia, para o Setentrião, para o Oriente e para o Ocidente; e então, depois de pouco tempo, reuniram-se em tão grande número, que encheriam quase o espaço de um estádio; mas do alto os Anjos os arranjaram todos em quatro Assembléias, uma composta de Políticos, a segunda de Eruditos, a terceira de Médicos, e a quarta de Eclesiásticos; assim ordenados, nós lhes dissemos: "Desculpai-nos por vos ter convocado; eis a razão: Anjos colocados diretamente acima de nós, desejam com ardor saber o que, no Mundo onde estivestes precedentemente, pensastes sobre a Consciência, e por conseguinte o que pensais, ainda, pois que retendes ainda as idéias que tínheis sobre tais assuntos; pois foi relatado aos Anjos que no Mundo o conhecimento da Consciência estava no número dos conhecimentos perdidos". Depois desta exposição, nós começamos; e em primeiro lugar nos voltamos para o lado da Assembléia que era composta de Políticos, e lhes pedimos que nos dissessem do fundo do coração, se bem o quisessem, o que tinham pensado e, por conseguinte o que pensavam ainda da Consciência; deram um após outro respostas a esta pergunta, cujo resumo era que não sabiam sobre a Consciência outra cousa, senão que ela consiste em saber com sigo mesmo, isto é, em co-saber, o que foi projetado, pensado, feito e dito; nós porém lhes dissemos: "Nós não vos perguntamos a etimologia da palavra Consciência, mas vos interrogamos a respeito da Consciência". E responderam: "A consciência não pode ser senão a dor proveniente de um temor preconcebido de perigos na honra ou das riquezas, e também dos perigos da reputação por causa da honra e das riquezas; mas esta dor é dissipada pelas refeições, pelas copadas de bons vinhos, e pelas conversas alegres sobre os prazeres de Vênus e de seu filho". Dissemos-lhes: "Estais gracejando; dizei, por favor, se algum de vós sentiu alguma ansiedade vinda de outra parte". Responderam: "0 que nos poderia inquietar de outra parte? 0 Mundo inteiro não é como um Teatro, no qual cada um desempenha seu papel, como os comediantes no seu? Nós manejamos e enganamos por suas próprias cobiças todos aqueles com quem tivemos relações, uns por gracejos, outros por lisonjas, outros por velhacarias, outros por uma amizade fingida, outros por uma sinceridade fingida, e outros por algum outro artifício político e por algum encanto; não sentimos por isso dor alguma da mente, mas ao contrário tiramos daí um contentamento e uma alegria que exalamos de nosso peito tacitamente e, não obstante, plenamente; ouvimos, é verdade, dizer a alguns espíritos de nossa sociedade, que por vezes lhes sobrevém uma ansiedade e uma angústia que parecem partir do coração e do peito, e em conseqüência como uma contração da mente; mas quando consultaram farmacêuticos sobre este assunto, souberam que isso vinha de um humor melancólico produzido por matérias indigestas no estômago, ou por um estado doentio do baço; e ouvimos dizer por alguns dêles que tinham sido restituídos à sua precedente alegria por meio de medicamentos". Depois de ter ouvido estas respostas, nos voltamos para a Assembléia que era composta de Eruditos, entre os quais havia também vários físicos hábeis; e, dirigindo-lhes a palavra, dissemos: "Vós que estudais as ciências e que por conseguinte, haveis sido considerados como Oráculos da sabedoria, dizei-nos, por favor, o que é a Consciência?" E responderam: "Que proposição é essa? Ouvimos dizer, é verdade, que em alguns homens há uma tristeza, um pezar e uma ansiedade que infestam não somente as regiões gástricas do corpo, mas também os habitáculos da mente; e como a mente consiste em fibras contínuas, acreditamos que é algum humor acre que irrita, morde e rói estas fibras, e comprime assim a esfera dos pensamentos da mente, de tal modo que ela não pode se expandir por variedades em divertimento algum, donde resulta que o homem não se prende senão a uma só cousa, o que destrói a sensibilidade e a elasticidade destas fibras; daí sua dureza e rigidez, donde provém o movimento irregular dos espíritos animais, o que é chamado pelos médicos Ataxia, e também a fraqueza em suas funções, que é chamada Lipotimia; em uma palavra, a Mente está então como que sitiada por tropas inimigas, e não pode mais se voltar para aqui e para ali, como não o pode uma roda presa por pregos, e um navio encravado em um banco de areia; estas angústias da Mente e do Peito se fazem sentir naqueles em quem o Amor reinante sofre uma perda; se êste amor é atacado, as fibras do cérebro se contraem, e esta contração impede que a Mente faça excursões livremente, e não procure delícias em formas novas; quando êstes homens estão nesta crise, são presas, cada um segundo seu temperamento, de fantasias, de demências e de delírios de diversos gêneros, e alguns nas cousas religiosas, de afecções cerebrais, que chamam remorsos de Consciência". Em seguida nos voltamos para a terceira Assembléia que se compunha de Médicos, entre os quais havia também Cirurgiões e Farmacêuticos; e lhes dissemos: "Sabeis talvez o que é a Consciência; se é uma dor prejudicial que ataca a cabeça e o parênquima do Coração, e por conseguinte as Regiões epigástricas e hipogástricas que se estendem abaixo; ou se é outra cousa". E responderam: "A Consciência é absolutamente esta dor; nós, melhor do que todos os outros, conhecemos as origens; pois são Moléstias contingentes, que infestam as partes orgânicas da Cabeça, por conseqüência também a mente, pois que a Mente tem sua sede nos órgãos do cérebro, como a aranha tem a sua no centro dos fios de sua teia; por estes órgãos faz excursões e corre semelhantemente; estas moléstias, nós as chamamos orgânicas, e quando voltam de tempos em tempos, as chamamos crônicas; quanto à dor tal como é descrita diante de nós pelos doentes como dor de Consciência, não é outra coisa senão uma Moléstia hipocondríaca, que priva a princípio o Baço, e em seguida o Pâncreas e o Mesentério, de suas funções próprias; dai derivam moléstias do Estômago, e entre outras a Cacoquimia; pois se faz em torno do orifício do estômago uma compressão que é chamada Cardialgía; daí provêm os humores impregnados de bílis negra, amarela ou verde, que torcem os pequeníssimos. vasos sanguíneos chamados vasos capilares, o que produz a caquexia, a atrofia e a sinfisia, e também a Peripneumonia bastarda por uma pituíta lenta e uma linfa icorosa e roedora em toda a massa do sangue; efeitos semelhantes vêm também do derramamento do pus no sangue e em sua serosidade pela resolução de empiremas, de abscessos e de apostemas no corpo; quando este sangue sobe puas carótidas à cabeça, fricciona, rói e morde as partes medulares, as partes corticais e as meníngeas do Cérebro, e excita assim as dores que são chamadas dores de Consciência". Depois de ter ouvido esta explicação, nós lhes dissemos: ''Falais a língua de Hipócrates e de Galileu, isto, é, para nós gregos, não o compreendemos; não é sobre estas moléstias que nós vos interrogamos, mas sobre a Consciência, que pertence à Mente só". E disseram: "As moléstias da mente e as moléstias da cabeça são as mesmas, e estas sobem do corpo, pois a cabeça e o corpo são coerentes como dois andares de uma casa entre os quais há uma escada para subir e descer; também sabemos que o estado da .mente depende inseparavelmente do estado do corpo; ora estes pesos na cabeça ou Cefalalgias, que vós, como percebemos, tomais por consciências, nós as temos curado, por meio de emplastos e de vesicatórios, outras por infusões e emulsões, e outras por condimentos, e por anódinos". Quando portanto os ouvimos dizer ainda várias outras cousas dêste gênero, nós nos afastamos dêles, e nos voltamos para os Eclesiásticos, e lhes dissemos: "Vós sabeis o que é a Consciência; dizei-nos pois, e instruí os que estão presentes". E responderam: "0 que é a Consciência nós o sabemos, e não o sabemos; acreditávamos que era a Contrição que precede a Eleição, isto é, o momento em que o homem é gratificado com a fé, pela qual há um novo coração e um novo espírito, e o homem é regenerado; mas percebemos que há poucos que tenham tido esta Contrição, somente alguns sentiram medo e por conseguinte ansiedade pelo fogo infernal, e apenas algum a sentiu por seus pecados e pela justa cólera de Deus; mas nós confessores, os curamos pela Boa-Nova de que o Christo pela Paixão da cruz retirou a danação, e assim extinguiu o fogo infernal, e abriu o Céu aos que foram gratificados com a fé, na qual a imputação do mérito do Filho de Deus foi inscrita. Há aliás em toda Religião, verdadeira ou fanática, homens de uma consciência timorata, que se enchem de escrúpulos nas coisas da salvação, não somente nas essenciais, mas também nas formais, e mesmo nas que são indiferentes; por isso, como acabamos de dizer, sabemos que há uma Consciência, mas o que é e qual é a verdadeira consciência, que deve ser inteiramente espiritual, não o sabemos".
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