VRC &697

A Verdadeira Religião Cristã
Emanuel Swedenborg
Contendo toda a teologia da Nova Igreja

- Sexto Memorável (N. 75). Um dia, vi, não longe de mim, um Meteoro; vi uma nuvem dividida em pequenas nuvens, algumas das quais eram azuis, e outras sombrias; e as vi como se batendo umas contra as outras; através destas nuvens brilhavam, dispostos em estrias, raios que pareciam, ora pontudos como espadas, ora rombudos como espadas quebradas; estas estrias ora se lançavam para diante, ora se dobravam sobre si mesmas, absolutamente como atletas; assim estas nuvens pequenas de diversas cores pareciam combater umas contra as outras, mas era um jogo. E como êste Meteoro se apresentava não longe de mim, levantei os olhos, e olhei atentamente, e vi crianças, rapazes e velhos entrarem em uma Casa que era construída em mármore, e cujas fundações eram de porfiro; êste fenômeno era acima desta Casa; e então me dirigi a um dos que entravam e lhe perguntei o que havia lá; respondeu-me: "Há um Ginásio onde os rapazes são iniciados nos diversos jogos que concernem à sabedoria". Tendo ouvido esta resposta, entrei com eles; eu estava em espírito, isto é, em um estado semelhante àquele em que estão os homens do Mundo Espiritual, que são chamados Espíritos e Anjos; e eis que neste Ginásio vi na frente um Púlpito; no meio, bancos; dos lados em volta, cadeiras, e acima da entrada, uma Orquestra; o Púlpito era para os jovens que deviam por sua vez responder sobre um Problema que ia ser proposto; os bancos eram para os assistentes; as cadeiras dos lados, para os que haviam precedentemente respondido com sabedoria, e a Orquestra para os Anciãos que deviam ser árbitros e juizes; no meio da Orquestra havia uma Tribuna, onde estava sentado um Sábio, que chamavam o Grão-Mestre, sue propunha os problemas sobre os quais, do Púlpito, deviam responder os jovens; e depois que todos estavam reunidos, o Homem da tribuna se levantou e disse: "Respondei agora, eu vos peço, sobre este Problema, e resolvei-o se puderdes: 0 que é a Alma, e qual é a sua qualidade?" A esta proposição todos ficaram muito admirados, e houve murmúrios, e alguns da Assembléia, entre os que estavam nos bancos, exclamaram: "Quem dentre os homens desde o século de Saturno até o nosso, pôde por um pensamento da razão ver e conceber o que é a Alma, e o que é mais, qual é a sua qualidade? Isto não está acima da esfera do entendimento de todos?'' Mas a esta exclamação responderam da Orquestra: "Isto não está acima do Entendimento, mas no Entendimento e diante dele, respondei agora". E os jovens escolhidos nesse dia para subir ao púlpito e responder sobre o Problema, se levantaram; eram cinco, que tinham sido examinados pelos Anciãos e achados providos de sagacidade, e estavam agora sentados sobre leitos aos lados do púlpito; eles pois subiram em seguida na ordem segundo a qual estavam sentados; e cada una deles, quando subia, se revestia com uma túnica de seda cor de opala, sobre a qual punha um manto de fina lã bordada de flores, e na cabeça um boné no alto do qual estava um ramalhete de rosas cercado de safiras. E vi subir assim vestido o Primeiro, que disse: "Desde o dia da Criação não foi revelado a pessoa alguma o que é a alma, nem qual é a sua qualidade, é isto um arcano, dos tesouros de Deus somente; todavia, o que foi descoberto, é que a Alma reside no homem como uma Rainha; mas onde está a corte desta rainha? Os Eruditos deram sobre êste assunto suas inspirações; alguns conjecturaram que está em um pequeno tubérculo entre o Cérebro e o Cerebelo, que se chama glândula pineal; eles imaginaram a sede da alma nesta glândula pela razão de que o homem inteiro é governado por estes dois Cérebros, e é êste tubérculo que os dispõe; o que dispõe a seu bel-prazer os cérebros, dispõe por conseqüência o homem inteiro da cabeça aos pés". E acrescentou: "Isto por conseqüência pareceu verdadeiro ou verossímil a muitos no Mundo, mas foi, um século depois, rejeitado como uma ficção". Depois que assim falou, tirou o manto, a túnica e o boné, com os quais se revestiu o Segundo dos jovens escolhidos, e êste entrou no púlpito; seu sentimento sobre a alma foi que "no Céu inteiro e no Mundo inteiro se ignora o que é a Alma, e qual é a sua qualidade. Sabe-se que a Alma existe, e que está no homem; mas onde? procura-se adivinhá-lo; o que há de certo, é que ela está na Cabeça, pois que aí o Entendimento pensa, e a Vontade tem a intenção, e sobre a frente, na face da Cabeça há os órgãos dos cinco sentidos do homem; nada dá a vida a uns e outros, senão a Alma que reside interiormente na Cabeça; mas onde tem ela aí a suei Corte? não ousarei dizê-lo; entretanto inclinei-me ora para aqueles que assinalaram sua sede nos três ventrículos do Cérebro, ora para aqueles que a colocaram lá nos Corpos estriados, ora para aqueles, que a colocaram na Substância medular de um e outro Cérebro, ora para aqueIes que a colocaram na Substância cortical ora para aqueles, que a colocaram na Dura-Máter; pois os sufrágios, resultantes das confirmações para cada uma destas sedes, não faltaram. Para os três Ventrículos do Cérebro, os sufrágios provêm de que estes ventrículos são os receptáculos dos espíritos animais e de tôdas as linfas do Cérebro; para os Corpos estriados, os sufrágios provêm de que estes Corpos fazem a Medula da qual saem os nervos, e a Medula pela qual um e outro Cérebro se prolonga na Espinha, e que de uma e de outra emanam as fibras de que todo o corpo é tecido; para a Substância medular de um e outro Cérebro, os sufrágios provêm de que da é a reunião e o conjunto de tôdas as fibras, que estão nos começos de todo homem; para a Substância cortical, os sufrágios provêm de que lá estão os fins primeiros e últimos, e por conseguinte os princípios de tôdas as fibras, e por conseguinte dos sentidos e dos movimentos; para a Dura-Máter, os sufrágios provêm de que ela é o tegumento comum de um e outro Cérebro, e que daí por uma certa contigüidade ela se estende sobre o coração e sobre as vísceras do corpo. Quanto a mim, não me decido mais por uma do que por outra destas sedes; peço-vos que examineis e escolheis a que é preferível!" Depois que assim falou, desceu do Púlpito, e deu a túnica, o manto e o boné ao Terceiro, que, subindo ao Púlpito, se exprimiu nestes termos: "Que posso eu, um jovem, em presença de um teorema tão sublime? Apelo para os Eruditos que estão sentados aqui sobre os lados; apelo para vós, Sábios, que estais na orquestra; e mesmo apelo para os Anjos do Céu supremo; há alguém que, pela sua luz racional, possa formar uma idéia da Alma? Quanto à sede da Alma no homem, posso, como outros, fazer conjecturas; e conjecturo que é no Coração, e por conseguinte no sangue; a minha conjectura é baseada sobre o fato de que o coração por seu sangue governa o Corpo e a Cabeça, pois envia a todo Corpo uma grande artéria chamada Aorta, e à Cabeça artérias chamadas Carótidas; daí ser geralmente admitido que a Alma pelo coração sustenta, alimenta, vivifica pelo sangue todo o sistema orgânico do Corpo e da Cabeça; em apoio desta asserção acrescentarei que na Escritura Santa se fala muito freqüentemente na Alma e do Coração, por exemplo, que é preciso amar a Deus com toda a Alma e com todo o Coração; e que Deus criou no homem uma Alma nova e um Coração novo (Deuter. 69, 5; 109, 12; 119, 13, 26, 16; Jeremias XXXII, 41; Mateus XXII, 37; Marcos XII, 30, 33; Lucas X, 27), e em outros lugares; e se diz abertamente que o sangue é a Alma da carne (Lev. 17, 11, 14) ". Alguns depois de terem ouvido estas citações, elevaram a voz, dizendo :"Bem! Bem! " Eram os Sacerdotes. Em seguida o Quarto, tendo apanhado as vestimentas deste, e tendo entrado no Púlpito, disse: "Também eu suspeito que não há pessoa alguma com um gênio tão sutil e tão penetrante que possa descobrir o que é a Alma, e qual é a sua qualidade; por isso penso que para aquele que quer escrutá-la, a sutilidade de nada serve; mas não obstante desde a minha infância permaneço na fé do entendimento, em que estavam os Antigos, de que a Alma do homem está no todo e em cada uma de suas partes, e assim tanto na Cabeça e em cada uma de suas partes, como no Corpo e em cada uma de suas partes, e que é uma invenção frívola da 1 parte dos Modernos, assinalar à Alma uma sede em algum lugar e não em toda parte; além disso a Alma é uma substância espiritual a que se aplica não a extensão nem o lugar, mas a habitação e o implemento; e mesmo quem é que não compreende a vida, quando se menciona a alma? A vida não está no todo e em cada parte?" Este sentimento foi aprovado por um grande número no Auditório. Depois dêste o Quinto se levantou, e decorado com as mesmas insígnias, pronunciou do Púlpito estas palavras: "Não me detenho para dizer onde está a Alma, se está em alguma parte, ou se está por todo lado no todo; mas pelo que encontro em mim descobrirei meu sentimento sobre esta proposição: 0 que é a Alma, e qual é a sua qualidade? Quando alguém pensa na alma, não o pensa senão como alguma cousa de puro, que pode ser assimilada ao éter, ou ao ar ou ao vento, em que há o vital segundo a racionalidade que o homem possui a mais que as bestas; fundei esta opinião sobre o que se diz do homem, quando êle expira, que deu o último sopro ou que entregou a Alma ou o espírito; daí também acreditar-se que a Alma que vive depois da morte é um tal sopro, no qual há uma vida cogitativa que se chama Alma; que outra cousa pode a Alma ser? Mas como ouvi dizer da Orquestra que o problema concernente à Alma, o que ela é, e qual é a sua qualidade, não, está acima do Entendimento, mas está no Entendimento e diante dêle, eu vos peço e vos suplico que desvendeis, vós mesmos, êste eterno Arcano". E os Anciãos da Orquestra dirigiram seus olhares para o Grão-Mestre que tinha proposto o problema, e que compreendeu por seus sinais que desejavam que êle descesse e instruísse a Assembléia; e imediatamente desceu da Tribuna, atravessou o Auditório e subiu ao Púlpito; e aí, estendendo a mão, disse: "Escutai, eu vos peço: Quem é que não crê que a Alma é a infinita e sutilíssimo Essência do homem? Mas uma Essência sem Forma, será alguma cousa mais que uma ser de razão? a Alma é portanto uma forma; mas que forma? É o que vou dizer. E' a Forma de tôdas as cousas que pertencem ao amor e de tôdas as que pertencem à sabedoria; tôdas as que pertencem ao amor são chamadas afeições e tôdas as que pertencem à sabedoria são chamadas percepções; as percepções provêm das afeições, e assim fazem com elas uma única forma, na qual cousas inumeráveis estão em uma tal ordem, uma tal série e uma tal coerência, que podem ser chamadas um; e podem ser chamadas um, porque nada pode ser cortado dela, nem lhe ser acrescentado, para que seja tal; o que é a Alma humana senão uma tal forma? Tôdas as cousas que pertencem ao Amor e tôdas as que pertencem à Sabedoria não são os essenciais desta forma? e estes essenciais no homeri estão na Alma, e pela Alma na Cabeça e no corpo; vós sois chamados Espíritos e Anjos, e acreditáveis no Mundo que os Espíritos e os Anjos eram como ventos ou éteres, e assim Mentes (Mentes e Animi); e agora vedes claramente que sois verdadeiramente, realmente e efetivamente homens, que no Mundo vivestes e pensastes em um corpo material, e soubestes que não é o corpo material que vive e pensa, mas que é uma Substância espiritual nesse corpo, e chamastes Alma a esta Substância de que não conhecíeis a forma, e entretanto vós a vistes agora e a vedes; vós todos sois Almas, sobre a imortalidade das quais ouvistes, pensastes, dissestes e escrevestes tantas coisas; e como sois formas do amor e da sabedoria procedente de Deus, não podeis morrer por toda a eternidade; a Alma é portanto a forma humana, da qual nada pode ser cortado, e à qual nada pode ser acrescentado, e é a forma íntima de tôdas as formas do corpo inteiro; e como as formas que estão por fora recebem da forma intima a essência e a forma, é por isso que vós, como apareceis diante de vós mesmos e diante de nós, sois Almas; em uma Palavra, a Alma é o homem mesmo, porque é o homem íntimo; por isso a sua forma é plenamente e perfeitamente a forma humana; entretanto ela não é a vida, mas é o mais próximo receptáculo da vida procedente de Deus, e assim o habitáculo de Deus". Alguns diziam: "Nós examinaremos". Eu então fui embora para casa; e eis que sobre este Ginásio, em lugar do precedente Meteoro, apareceu uma nuvem branca sem estrias ou sem raios combatendo entre si; esta Nuvem atravessando o teto, entrou e iluminou as paredes; e soube que eles viam Escrituras, e entre outras esta: "Jehovah Deus soprou nas narinas do homem uma Alma de vidas, e o Homem foi feito Alma vivente" (Gen. 2, 7).

📚 Versão Impressa

Para estudo mais confortável, adquira esta obra em formato impresso.