VRC &796

A Verdadeira Religião Cristã
Emanuel Swedenborg
Contendo toda a teologia da Nova Igreja

DE LUTERO, DE MELANCHTON E DE CALVINO NO MUNDO ESPIRITUAL.
796 - Conversei muito freqüentemente com êstes três Chefes, que foram Reformadores da Igreja Cristã, e por Isso soube qual era o Estado de sua vida desde o começo até hoje. Quanto a Lutero, desde o primeiro instante, quando chegou ao Mundo espiritual, foi ardentíssimo propagador e defensor de seus dogmas, e seu zelo por eles aumentou à medida que aumentava a multidão dos aderentes e partidários vindos da Terra; lhe foi dada uma Casa, tal como a que ele tinha em Eisleben durante sua vida no corpo; e no meio desta êle ergueu uma tribuna em que se assentava, e por uma porta que mantinha aberta, admitia seus ouvintes, e os dispunha em fileiras; colocava mais perto dele os que eram mais favoráveis, e depois os que eram menos favoráveis, e então falava sem se interromper, e por vezes permitia que lhe fizessem perguntas, a fim de poder segundo algum princípio retomar de novo o fio de um discurso terminado. Por causa dêste favor geral êle acabou por se impregnar da Persuasão; no Mundo espiritual a persuasão é de uma tal eficácia que ninguém pode resistir, nem falar contra o que é dito; mas como é uma espécie de encantamento posto em uso pelos antigos, foi-lhe seriamente interdito de falar daí por diante por esta Persuasão; e depois disso êle ensinava como antes pela Memória, e ao mesmo tempo pelo Entendimento; uma semelhante Persuasão, que é uma espécie de encantamento, tem sua origem no amor de si, pelo qual se torna enfim tal, que quando alguém contradiz, ela ataca não somente o fundo da questão, mas também a pessoa mesma. Foi êste o estado de sua vida até ao Julgamento Final, que foi feito no Mundo espiritual em 1757; mas um ano depois dessa época, êle foi transferido de sua primeira Casa para uma outra, e ao mesmo tempo para um outro estado; e quando soube que eu, que estou no Mundo natural, conversava com os que estão no Mundo espiritual, veio a mim com vários outros; e, depois de algumas perguntas e respostas, percebeu que era agora o fim da 1greja precedente, e o começo de uma Nova-Igreja, sobre a qual profetizou Daniel, e que foi predita pelo Senhor mesmo nos Evangelistas, e que esta Nova-Igreja é entendida pela Nova-Jerusalém, no Apocalipse, e pelo Evangelho Eterno que um Anjo que voava no meio -do Céu anunciou aos habitantes da Terra (XIV, 6); ficou muito indignado, e sua indignação se manifestou em censuras; mas quando percebeu que o Novo-Céu, que foi feito e que se faz, aumentava com os que reconhecem o Senhor só como Deus do Céu e da Terra, segundo as palavras do Senhor mesmo (Mateus XXVIII, 18), e quando notou que as Assembléias dos que se reuniam cada dia junto dêle diminuíam, cessou de fazer censuras, e então se aproximou mais de mim, e começou a conversar comigo mais familiarmente; e depois que se convenceu de que tinha tirado, não da Palavra mas da própria inteligência, o principal dogma sobre a Justificação pela fé só, se deixou instruir sobre o Senhor, sobre a Caridade, sobre a verdadeira Fé, sobre o Livre-Arbítrio e por fim sobre a Redenção, e isso unicamente pela Palavra; por fim, após convencer-se começou a dar seu apoio às Verdades sobre as quais a Nova-Igreja é estabelecida, e em seguida a se confirmar cada vez mais êle mesmo nestas Verdades; durante êste tempo êle estava comigo todos os Mas, e então todas as vezes que reunia estas Verdades, se punha a rir de seus Dogmas precedentes como de cousas que eram diametralmente opostas à Palavra; e eu o ouvi dizer: "Que não se surpreendam do fato de eu me ter apoderado da Fé só justificante, e de ter privado a Caridade de sua essência espiritual, e de que eu tenha também tirado aos homens o Livre-Arbítrio nas cousas espirituais, e admitido várias outras cousas que dependem da fé só, quando uma vez foi admitida, como os anéis dependem de uma cadeia, pois que meu objetivo era ficar inteiramente separado dos Católico-romanos, objetivo que não pude atingir nem obter de outro modo; não estou pois admirado de me ter transviado, mas me admiro de que uni único homem transviando-se tenha podido produzir tantos transviados". E olhou de lado alguns Escritores dogmáticos de seu tempo, de um grande renome, fiéis sectários de sua doutrina, censurando-os assim por não terem visto na Escritura Santa as oposições que entretanto são salientes. Foi-me dito por Anjos examinadores que este Chefe está em um estado de conversão, mais do que muitos outros que se confirmaram na justificação pela Fé só, porque em sua juventude, antes de empreender a reforma, estava imbuído do dogma da proeminência da Caridade; é também por isso que ele deu tão bons ensinamentos sobre a Caridade tanto em seus escritos como em seus Sermões; dai resultou que a fé na justificação foi implantada nele em seu homem externo natural, mas não foi enraizada em seu homem Interno espiritual. É inteiramente diferente naqueles que, em sua juventude, se confirmaram contra o espiritual da caridade; o que acontece por si mesmo, quando a justificação pela fé só é afirmada pelas confirmações. Conversei com o Príncipe de Saxe, com quem Lutero, tinha vivido no Mundo; êste Príncipe me contou que tinha muitas vezes censurado Lutero, sobretudo por ter separado a Caridade da Fé, e por ter declarado esta salvífica e não a outra, enquanto que não somente a Escritura Santa conjunta êstes dois meios universais da salvação, mas que mesmo Paulo prefere a Caridade à Fé, dizendo: que há três cousas, a Fé, a Esperança e a Caridade, e que das três a maior é a Caridade (I Cor. XIII, 13); mas que Lutero todas às vezes tinha respondido que não podia fazer de outro modo por causa dos Católico-Romanos. Este Príncipe está entre os bem-aventurados.

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