BE 119

Exposição Sumária da Doutrina da Nova Igreja
Emanuel Swedenborg
"E JEHOVAH será Rei sobre toda a terra: Nesse Dia JEHOVAH será Um e o Nome d'Ele Um." (Zc. 14:9)

. Segundo Memorável tirado do Apocalipse Revelado.
Um dia, ao despertar-me do sono, entrei em uma profunda meditação sobre Deus, e quando olhei para o alto, vi acima de mim no céu, uma luz de um branco brilhantíssimo em forma oval.E quando fixava a minha vista sobre essa luz, ela se retirava para os lados e entrava nas periferias. E então, eis que se me abriu o céu, e vi coisas magníficas, e anjos que estavam de pé em forma de círculo do lado meridional da abertura, e que conversavam entre si. E porque ardi de desejo de ouvir o que diziam, foi-me concedido primeiro ouvir o som de sua voz, que estava cheia do amor celeste, e depois a sua linguagem, que estava cheia da sabedoria procedente desse amor.
Entre si falavam de Um só Deus, da Conjunção com Ele, e daí da Salvação. Diziam coisas inefáveis, cuja maior parte não podia ser transmitida em palavras de nenhuma língua natural. Como, porém, estivera algumas vezes em consorciação com os anjos do céu mesmo, e então falasse a mesma linguagem que eles, porque estava no mesmo estado, pude, por conseguinte compreendê-los, e tirar dos seus discursos algumas idéias que podem ser expressas racionalmente pelas palavras de uma língua natural.
Eles diziam que o Divino Ser é Um, o Mesmo, o Si Mesmo, o Indivisível; assim também é a Divina Essência, porque o Divino Ser é a Divina Essência; e assim é Deus, porque a Divina Essência, que é também o Divino Ser, é Deus. Eles ilustravam isso por idéias espirituais, dizendo que o Divino Ser não pode distribuir-se em muitos, cada um dos quais sendo o Divino Ser, e continuar, contudo, a ser Um, o Mesmo, o Si Mesmo, o Indivisível. Pois, cada um deles pensaria do Seu Ser conforme a si e por si. Então, se fosse também e ao mesmo tempo com unanimidade, conforme aos outros e pelos outros, haveria muitos Deuses unânimes, e não um só Deus. Pois a unanimidade, sendo o consentimento de muitos e ao mesmo tempo de cada um conforme a si e por si, não concorda com a unidade de Deus, mas com uma pluralidade. Mas elas não disseram de Deuses, porque não puderam pois a luz do céu da qual provinha o seu pensamento, e em que se propagava o seu, discurso, opunha-se a isso. Eles também diziam que quando querem pronunciar Deuses e falar de cada um como uma Pessoa por si mesmo, o esforço para pronunciar cal logo sobre Um Só, e até sobre um Deus único.
A estas explicações eles acrescentavam que o Divino Ser é o Divino Ser em Si (in Se) e não que vem de Si (a Se) porque vir de SI, supõe o Ser em Si (procedente) de um Outro assim supõe Deus que vem de Deus (Deus a Deo), o que não é admissível 0 que vem de Deus não é chamado Deus, mas é chamado Divino. Pois o que é Deus que vem de Deus, ou o que é Deus nascido de toda eternidade de Deus, e o que é Deus procedendo de Deus por meio de Deus nascido de toda a eternidade, senão palavras em que não há coisa alguma da luz que procede do céu?
Ainda mais, eles diziam que o Divino Ser, que em Si é Deus, é o Mesmo (Idem); não o Mesmo simples, mas infinito, isto é, o Mesmo de toda eternidade até toda eternidade. Ele é o Mesmo em todos os lugares e o Mesmo com cada um e em cada um, mas tudo é variado e variável no recipiente. É o estado do recipiente que faz isso.
Que o Divino Ser, que é Deus em Si, é o Si Mesmo (Ipsum), eles ilustravam assim: Deus é o Si Mesmo, porque Ele é o Amor Mesmo e a Sabedoria Mesma ou, o que é semelhante, Ele é o Bem Mesmo e a Verdade Mesma, e, por conseguinte a Vida Mesma. Se essas coisas não fossem o Si Mesmo em Deus, elas nada seriam no Céu nem no Mundo, porque não teriam relação alguma com o Si Mesmo. Toda qualidade tira a sua qualidade disto, que há em Si mesmo pelo qual ela é, e ao qual ela se refere para que seja tal. Esse Si Mesmo, que é o Ser Divino, não está em um lugar, mas está segundo a recepção com aquele e naqueles que estão em um lugar. Pois o lugar e a progressão de um lugar para outro não podem se dizer do Amor e da Sabedoria, ou do Bem e da Verdade, nem, por conseguinte da Vida, que são o Si Mesmo em Deus, ou antes Deus Mesmo, mas essas coisas são sem lugar, daí a Onipresença. Por isso o Senhor diz, que Ele está no meio deles; e que Ele Mesmo está neles, e que estão n'Ele.
Como, porém, Ele não pode ser recebido por criatura alguma tal qual Ele é em Si, Ele aparece tal qual Ele é em Si como um Sol acima dos céus angélicos. 0 que procede desse Sol como luz é Ele Mesmo quanto à Sabedoria, e o que dele procede como calor é Ele Mesmo quanto ao Amor. Ele Mesmo não é esse Sol. Mas o Divino Amor e a Divina Sabedoria saindo d'Ele, aparecem diante dos, Anjos como um Sol em torno d'Ele. Ele no Sol é Homem, é Nosso Senhor Jesus Cristo, tanto quanto ao Divino a Quo (de Quem tudo procede), como quanto ao Divino Humano. Pois o Si Mesmo, que é o Amor Mesmo e a Sabedoria Mesma, foi a Alma que Ela tinha do Pai, assim a Divina Vida, que é a Vida em Si. É diferente em qualquer homem, pois nele a alma não é a vida, mas um recipiente da vida. O Senhor ensina também isso, dizendo: "Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (João 14:6).
E em outro lugar: "Como o Pai tem a Vida em Si Mesmo, assim Ele também deu ao Filho ter a Vida em Si Mesmo" (João 5:26).
A Vida em Si Mesma é Deus.
A estas coisas eles acrescentaram que os que estão em alguma luz espiritual podem perceber por essas coisas, que o Divino Ser, que é também a Divina Essência, sendo Um, o Mesmo, o Si Mesmo, e, por conseguinte Indivisível, não pode existir em muitos; e que se se dissesse que Ele pode, haveria contradições manifestas nas conclusões (in adjectis).
Depois que ouvi essas explicações, os anjos perceberam em meu pensamento as idéias comuns da Igreja Cristã sobre a Trindade das Pessoas na Unidade, e sobre a Unidade das Pessoas na Trindade de Deus; e também sobre o nascimento de um Filho de Deus de toda eternidade. E então disseram: "Que estás pensando? Não pensastes essas coisas segundo a luz natural com a qual a nossa luz espiritual não concorda? Por isso, se não afastares as idéias desse pensamento, nós te fechamos o véu e nos vamos.".
Mas então eu lhes disse: "Entrai, peço-vos, mais profundamente em meu pensamento, e talvez vejais nele uma concordância?" E fizeram assim, e viram que pelas Três Pessoas eu entendia os Três Atributos Divinos procedentes, que são a Criação, a Redenção e a Regeneração, e que esses atributos pertencem a um só Deus; e que pelo nascimento de um Filho de Deus de toda eternidade, eu entendia o Seu nascimento previsto de toda eternidade e provido no tempo. Então eu lhes contei que o meu pensamento natural sobre a Trindade e a Unidade das Pessoas, e sobre o nascimento do Filho de Deus de toda eternidade, me viera da doutrina da fé da Igreja, que tem o nome de Atanásio; e que essa doutrina é sã contanto que a Trindade das Pessoas seja substituída, pela Trindade de Pessoa, que existe unicamente no Senhor Jesus Cristo; e que em vez do nascimento do Filho de Deus de toda eternidade, percebe-se o Seu nascimento previsto de toda eternidade e provido no tempo, porque, quanto ao Humano que Ele tomou, Ele é abertamente chamado o Filho de Deus.
Então os Anjos disseram: "Bem, Bem", e me pediram para que eu dissesse, como vindo de sua boca: que se o homem não se dirigir ao Deus Mesmo do céu e da terra, ele não pode ir para o céu, porque o céu é céu por esse Deus único, e que esse Deus é Jesus Cristo, que é Jehovah o Senhor, de toda eternidade Criador, no tempo Redentor, e para a eternidade Regenerador, que é assim ao mesmo tempo o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e que esse é o Evangelho que deve ser pregado.
Depois destas coisas, a luz celeste que a princípio eu vira, voltou para a abertura, e, pouco a pouco, baixou dali, encheu os interiores de minha mente, e iluminou as minhas idéias sobre a Unidade e a Trindade de Deus. E então as idéias tomadas no começo sobre este assunto, as quais tinham sido meramente naturais, eu as vi separadas, como a palha é separada do trigo pela debulha, e levadas como pelo vento para o norte do céu e dispersas, (Apoc. Rev. nº 962).

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