. [11] V. Que em tal forma esteja o homem em particular. Que em tal forma esteja o homem em particular é o que pode ser visto somente por aqueles que examinam todas as coisas que estão no homem, não somente com um olho anatômico, mas também com um olho racional. Quem as examina com um olho racional ao mesmo tempo há de ver que todas e cada uma das coisas, até as mais singulares ali, são formadas pelo uso e para o uso, que cada parte e partícula têm uma função em comum e que o uso comum, que é o bem comum, considera o mais singular como se estivesse nele, e, vice-versa, o mais singular se considera no comum. Por este motivo, todas as coisas que há no corpo, desde a cabeça até a planta dos pés, são uma só, a ponto de o homem ignorar completamente que ele consiste em tantas miríades de partes variadas e de diversas funções. Para ilustrar este assunto, pode-se examinar somente as estruturas dos pulmões e da traqueia com um olho racional e prestar atenção aos seus usos.
[2] Com relação aos pulmões, o uso mais comum deles é a respiração, o que se faz pela admissão do ar pela laringe, tranqueia, brônquios e ramificações nas vesículas [bronquiais?] dos lóbulos, pelos quais se expandem e se contraem alternadamente. Por aí também induzem movimentos recíprocos a todo o corpo orgânico e todos os seus membros, pois o coração e o pulmão são as duas fontes de todo movimento comum em todo o corpo, pelas quais todas e cada uma as coisas são conduzidas às suas atividades e funções vitais. Eles também consociam a vida motriz voluntária, que tira do cérebro os seus princípios, à vida motriz natural, que flui moderada pelo cerebelo. O uso deles é também dispor todas as vísceras do corpo, principalmente as suas motrizes, que se chamam músculos, a fim de que a vontade desempenhe seus movimentos harmoniosamente e sem interrupção em parte alguma. É também o uso deles não somente fazer com que concordem todos os sons da fala e todos os sons do canto, mas também produzi-los como que de um útero. É, ainda, o uso deles receber em si todo o sangue da parte direita do coração, purificá-lo de todas as coisas víscidas e resíduos, que são rejeitados, e, pela atração do ar, fornecer ao sangue novos elementos que são como que alimentos, e desse modo mandá-lo como novo à câmara esquerda do coração, assim convertendo o sangue venoso em sangue arterial. Assim, em relação ao sangue, os pulmões agem como filtro, purificador, restaurador, preparador, além de depurador do ar. Além destes, há muitos outros usos dos pulmões, tanto gerais quanto particulares, e cada um dos poros e lóbulos ali é um associado de todas as suas funções, isto é, dos usos, alguns mais próximos e outros mais remotos.
[13] Quanto à traqueia, seus usos são: (1.) Prover um caminho para a aura e a respiração do pulmão fluindo em ambas as direções, e acomodar cada um e aos diversos modos de agir deles, tanto na inspiração quanto na expiração. (2.) Examinar e purificar o ar que passa aos pulmões, para que nada de nocivo influa, e encher de vapores o que sai, envolvendo assim as exalações esgotadas, e dar vasão, e também em geral limpar os pulmões dos mucos viscosos pela expectoração. (3.) Servir de coluna e suporte para a laringe e a epiglote; adaptar-se inteiramente a todos os seus comandos e às vibrações trêmulas; dispor as paredes de seus canais para que o ar penetre, e estender a sua membrana para que vibre com o ar penetrante e assim provocar rudimentarmente o som, que a laringe e a glote formam, isto é, modificam em canto ou fala; além disso, umedecer continuamente com um orvalho vaporífero. (4.) Prestar ajuda e assistir ao vizinho esôfago na sua função de deglutição. (5.) Introduzir movimentos alternados respiratórios dos pulmões pelas partes vizinhas e, por estas, às remotas e às últimas, a saber, o esôfago, e, por este, com o diafragma (ventriculo diaphragmate), ao estômago e, assim às vísceras abdominais e, também, à carótida ascendente e à veia jugular descendente, bem como aos grandes nervos simpáticos, o intercostal e o vago, e assim instaurar a vida motora do corpo. (6.) Insinuar às partes adjacentes e, por estas, às partes mais altas e mais baixas, as suas próprias vibrações sonoras e as da laringe, e excitar o sangue arterial em direção à cabeça e ao cérebro, e o sangue venoso refluente da cabeça e do cérebro; avivá-los e animá-los por uma modificação geral, instaurando, assim, a vida sensual do corpo.
[14] Além disso, pelos ossos relacionados à traqueia e, ao mesmo tempo à laringe, que não estão aqui enumerados, uma mente dotada de compreensão e cultivada pelas ciências, com um mestre de anatomia e o olho de uma guia, pode aprender e pode saber como a natureza modula os sons e determina suas relações em articulação. Nada há na acústica, na música e na harmonia tão ínsito e oculto, nem nada nas vibrações e tremulações de um corpo contínuo, nem nas modificações de um volume contíguo ou da atmosfera, por mais secreto e profundo que seja, que o espiritual não tenha aí trazido da natureza, de seu mais íntimo, reunido em um só, e conferido a esses dois órgãos e ao mesmo tempo ao ouvido.
[15] Arcanos semelhantes se acham em todas as demais vísceras, tanto da cabeça quanto do corpo, e muitas outras ainda que se encerram interiormente e não podem ser examinadas por olho algum, pois quanto mais interiores, mais perfeitas são. Em suma, a vida eminente ou a excelência da vida em cada membro, órgão e víscera consiste no fato de que tudo que é seu próprio é também geral, e, assim, nos singulares está uma ideia de todo o homem.
[16] Este é o arcano que é dado como conclusão: que o homem é um complexo de todos os usos, quaisquer que existem no mundo, tanto o mundo espiritual quanto o natural, e cada uso, pela ideia do universo em si, é como um homem, mas tal qual é o uso, isto é, sua função no geral. Isto o homem tira do fato de ele ser um recipiente da vida oriunda do Senhor, pois a vida que vem do Senhor é um complexo de todos os usos no infinito. Com efeito, só o Senhor é o Homem vivo em Si, do Qual vem tudo da vida, e a menos que essa forma de uso seja infinita no Senhor, não pode existir finita em homem algum.
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