DLOV &13

Do Divino Amor
Emanuel Swedenborg
Tratado sobre a Natureza e Origem do Divino Amor

. [35] XIII. Que quanto mais o homem está no amor do uso, mais está no Senhor, mais O ame e ame ao próximo, e seja um homem. Pelo amor dos usos somos ensinados sobre o que se entende por amar o Senhor e amar o próximo, e, também, o que se entende estar no Senhor e ser um homem. Por amar o Senhor entende-se desempenhar os usos por Ele e por causa d’Ele. Por amar o próximo entende-se desempenhar os usos da igreja, da pátria, da sociedade humana e dos concidadãos. Por estar no Senhor entende-se ser um uso. E por ser um homem entende-se desempenhar usos ao próximo por causa do Senhor.
[36] Que por amar o Senhor entenda-se desempenhar os usos por Ele e por causa d’Ele é porque todos os usos do bem que o homem cumpre vêm do Senhor. Os usos do bem são os bens; que eles venham do Senhor, é notório; e amá-los é cumpri-los, pois o que o homem ama, isto ele faz. Ninguém pode amar o Senhor de outra maneira, pois os usos, que são os bens, vêm do Senhor e, por isso, são Divinos e, de fato, são o Senhor mesmo no homem. Estas são as coisas que o Senhor pode amar. Ele não pode ser conjunto pelo amor a homem algum senão por Seus Divinos, consequentemente, não pode fazer que o homem O ame [de outro modo], pois o homem não pode por si mesmo amar o Senhor; o Senhor mesmo o atrai e o conjunta a Si. Por isso, amar o Senhor como Pessoa e não amar os usos é amá-Lo por si mesmo, o que não é amar. Aquele que cumpre os usos ou bens pelo Senhor também cumpre os usos e bens por causa d’Ele. Isto pode ser ilustrado pelo amor celeste, no qual estão os anjos do terceiro céu. Esses anjos estão no amor ao Senhor mais do que os anjos dos demais céus. Eles não sabem que amar o Senhor seja diferente de fazer os bens que são os usos, e dizem que os usos são o Senhor neles. Pelos usos se entendem os usos e bens do ministério, da administração, da função, tanto nos sacerdotes e magistrados quanto nos negociantes e operários. Aos bens que não fluem de seus ofícios eles não chamam usos, mas chamam de esmolas, benefícios e gratuidades.
[37] Que por amar o próximo entenda-se praticar os usos da igreja, da pátria, da sociedade e dos concidadãos é porque estes são o próximo num sentido amplo e num sentido estrito. Esses não podem tampouco ser amados senão pelos usos que pertencem ao ofício de cada um. A igreja, a pátria, a sociedade e os cidadãos são amados pelo sacerdote se ele ensina e conduz pelo zelo da salvação de seus ouvintes. A igreja, a pátria, a sociedade e os cidadãos, assim, o próximo, são amados pelos encarregados e moderadores se eles desempenham as suas funções pelo zelo do bem comum; pelos juízes, se pelo zelo da justiça; pelos negociantes, se pelo zelo da sinceridade; pelos operários, se pela retidão; pelos criados, se pela fidelidade; e assim por diante. Quando nestes e naqueles há a fidelidade, a retidão, a sinceridade, a justiça e o zelo, o amor dos usos deles vem do Senhor, e d’Ele vem o amor ao próximo no sentido amplo e no sentido estrito. Pois quem não ama a igreja, a pátria e os concidadãos, sendo de coração fiel, reto, sincero e justo?
[38] Disto é agora evidente que amar o Senhor é desempenhar os usos que vêm do Senhor, e amar o próximo é desempenhar usos para o próximo, e por causa dele é por causa do próximo, do uso e do Senhor, e assim o amor retorna a Ele, de Quem procedeu. Com efeito, todo amor que procede retorna, pelo amor a quem se destina, ao amor de onde procede, e, retornando, faz o seu recíproco. E o amor continuamente vai e retorna por meio de ações, que são os usos, já que amar é fazer, porque, se o amor não se torna ação deixa de ser amor, porquanto a ação é o efeito de seu fim, e nela é que o amor tem existência.
[39] Que quanto mais o homem está no uso mais está no Senhor é porque mais está na igreja e mais no céu, e a igreja e o céu são, pelo Senhor, como um só homem, cujas formas, que são chamadas orgânicas superiores e inferiores, e também interiores e exteriores, fazem todos os que amam os usos, fazendo-os. E os usos mesmos compõem esse homem, porque é um homem espiritual, que não consiste em pessoas, mas dos usos que há nelas. Aí estão todos os que recebem do Senhor o amor dos usos, que são aqueles que os cumprem por causa do próximo, por causa dos usos e por causa do Senhor. E como esse Homem é o Divino procedente do Senhor, e o Divino procedente é o Senhor na igreja e no céu, segue-se que todos eles estão no Senhor.
[40] Que eles sejam homem é porque todo uso que de algum modo serve ao bem comum ou público é um homem, belo e perfeito segundo a qualidade do uso e, ao mesmo tempo, a qualidade de sua afeição. A razão disso é que cada coisa que há no corpo humano tem, pelo uso, sua ideia do todo, pois considera o todo aí como a sua origem, da qual procede, e o todo a considera como em si e como o seu, pelo qual procede. Por essa ideia do todo em cada uma das coisas é que cada uso aí é um homem, tanto nas coisas pequenas quanto nas grandes, igualmente às formas orgânicas na parte e no inteiro. De fato, as partes de uma parte, que são interiores, são homens mais do que as compostas, porque toda perfeição aumenta para os interiores. Com efeito, todas as formas orgânicas no homem são compostas de formas interiores, e estas de outras ainda mais interiores, até às últimas, pelas quais se dá a comunicação com toda afeição e todo pensamento da mente do homem, porque a mente do homem, em cada uma de suas coisas, se estende a todas as coisas de seu corpo; a sua projeção está em todas as coisas de seu corpo, pois é a forma mesma da vida. Se não houvesse esse campo para a mente, não haveria mente nem homem. Daí é que o arbítrio e a decisão da vontade do homem são determinados num instante, e produzem e determinam as ações; acontece absolutamente como se o pensamento mesmo e a vontade mesma estivessem nas partes e não acima delas. Que cada uma das menores coisas no homem seja, pelo uso, um homem é assunto que não cai na ideia natural, mas cai na ideia espiritual. O homem, na ideia espiritual, não é a pessoa, mas o uso, pois a ideia espiritual é isenta da ideia de pessoa assim como é isenta da ideia da matéria, do espaço e do tempo; por isso, quando alguém vê outra pessoa no céu, ele a vê, de fato, como um homem, mas pensa nela como um uso. Também o anjo aparece quanto à face segundo o uso em que está, e a sua afeição faz a vida da face. Por aí se pode ver que cada uso bom é, em forma, um homem.

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