. [41] XIV. Que não sejam homens nem estejam no Senhor aqueles que se amam sobre todas as coisas e ao mundo como a si mesmos. Os que se amam e ao mundo são também capazes de desempenhar bons usos, e também os fazem. Mas as afeições de uso com eles não são boas, porque vêm de si mesmos e são por causa de si, e não por causa do Senhor nem por causa do próximo. Eles dizem e, de fato, se persuadem de que são por causa do próximo entendido no sentido amplo e no estrito, isto é, por causa da igreja, da pátria, da sociedade e de seus concidadãos. Alguns ainda ousam dizer que são por causa de Deus, porque são de Seus mandamentos na Palavra, e também são de Deus porque são bens, e todo bem vem de Deus, quando, todavia, os usos que eles desempenham são por causa de si, porque vêm de si, e por causa do próximo para que retornem a si. São conhecidos e distintos daqueles que desempenham usos pelo Senhor, por causa do próximo entendido no sentido amplo e no sentido estrito, pelo fato de em cada coisa considerarem a si e o mundo e de amarem a reputação por causa de vários fins que são usos para si. Também são movidos aos usos na medida em que neles veem a si mesmo e ao que é seu. Além disso, os seus prazeres são todos prazeres do corpo, e estes são os prazeres que eles buscam do mundo. Quais são eles é o que pode ser ilustrado pela seguinte comparação: eles são a cabeça, o mundo é o corpo, a igreja, a pátria e os concidadãos são as plantas dos pés e Deus é o sapato. Mas, naqueles que desempenham os usos pelo amor dos usos, o Senhor é a cabeça; a igreja, a pátria, e os concidadãos, que são o próximo, são o corpo até os joelhos, e o mundo é os pés, dos joelhos até as plantas os pés, e aí são como essas plantas formosamente calçadas. Daí é evidente que esses são inteiramente invertidos, e nada do homem está naqueles que desempenham usos para si e por causa de si.
[42] Há duas origens de todos os amores e afeições: uma é o Sol do céu, que é puro amor, a outra o sol do mundo, que é puro fogo. Aqueles cujo amor vem do Sol do céu são espirituais e vivos, e são elevados acima do proprium pelo Senhor, mas aqueles cujo amor vem do sol do mundo são naturais e mortos, e se imergem em seu proprium; daí é que veem somente a natureza em todos os objetos vistos, e, se reconhecem a Deus, é de boca e não de coração. São esses que na Palavra se entendem pelos adoradores do sol, da lua e todo o exército dos céus. Eles até aparecem como homens no mundo espiritual, mas como monstros à luz do céu, e a sua vida lhes parece como se fosse vida, mas aos anjos como a morte. Entre eles há muitos que foram estimados no mundo como eruditos, e – o que me admirou muitas vezes – eles se creem sábios porque atribuem todas as coisas à natureza e à prudência, além de considerarem os outros como simples.
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