. [43] XV. Que o homem não tenha uma mente sã a menos que o uso seja sua afeição ou ocupação. O homem tem um pensamento externo e um pensamento interno. O homem está no pensamento externo quando está na companhia de outros, seja quando ouve, fala, ensina, age e, também, escreve. Mas está no pensamento interno quando está em casa e quando solta as rédeas de sua afeição interior. Este pensamento é próprio de seu espírito em si, enquanto aquele é próprio de seu espírito no corpo. Ambos permanecem no homem após a morte e, então, antes de ser tirado o pensamento externo, não se sabe o que o homem é, porque então ele pensa, fala e age por sua afeição. O homem que tem a mente sã então verá e ouvirá coisas admiráveis; ouvirá e verá que muitos que no mundo falaram sabiamente, pregaram doutamente, ensinaram com erudição, escreveram sabiamente e, também, agiram prudentemente, tão logo o externo da mente lhes é tirado, então pensam, falam e agem insanamente, como os desvairados sem juízo no mundo; e, o que me admirou, então se creem mais sábios do que os outros. Todavia, para que não estejam constantemente na insanidade, são por vezes repostos nos externos e, por esse modo, na sua vida civil e moral, na qual estiveram no mundo. Quando estão na companhia dos outros ali e no céu, é-lhes concedido lembrar as suas insanidades, e então se veem e confessam que falaram delírios e agiram com estultícia, mas, tão logo são repostos nos seus interiores ou nos próprios de seu espírito, tornam-se insanos do mesmo modo que antes.
[44] Muitas são as suas insanidades, que se incluem nestas: de quererem dominar, roubar, adulterar, blasfemar e maltratar; desprezar, rejeitar ou escarnecer do que é probo, justo e sincero, e de todo vero e bem da igreja e do céu. E, o que é mais, eles amam esse estado de seu espírito, pois foi tentado com muitos se queriam pensar de um modo são de preferência ao insano, e descobriu-se que preferiam pensar insanamente. Também foi desvendada a razão de eles serem tais, ou seja, porque tinham amado a si mesmos e ao mundo acima de todas as coisas, não aplicando a mente aos usos a não ser por causa da honra e do ganho, e preferiram os prazeres do corpo muito mais do que os prazeres da alma. No mundo eles foram tais que nunca tinham pensado de um modo são a não ser quando viam as pessoas.
[45] O único remédio para a insanidade deles é serem postos em obras sob um juiz, no inferno; enquanto ali estão nas obras, não se ensandecem, pois, as obras de que se ocupam mantêm a mente como que em cárcere e em vínculos, para que não se disperse nos delírios de suas cobiças. Ali eles fazem obras em troca de alimento, vestimenta e leito, portanto, contra a vontade por necessidade, e não livremente pela afeição.
[46] Mas, ao contrário, todos aqueles que no mundo amaram os usos e os desempenharam por amor dos usos pensam de modo são em seu espírito, e o espírito deles de modo são no corpo, pois assim como é o pensamento interior também é o pensamento exterior, e deste e daquele, a fala e, também, a ação deles. A afeição do uso mantém a sua mente em si, sem deixar eles que se dispersem em coisas vãs, lascivas e impuras, insinceras e dolosas, e nos ludíbrios de várias concupiscências. Após a morte eles continuam semelhantes. Suas mentes são angélicas em si mesmas, e quando lhes é tirado o pensamento exterior, tornam-se espirituais e anjos, por conseguinte, recipientes da sabedoria celeste oriunda do Senhor. Por aí se pode ver agora que o homem não tem a mente sã a menos que o uso seja sua afeição ou ocupação.
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