. [48] XVII. Que o homem tenha a vida eterna segundo a sua afeição do uso. Como a afeição é o homem mesmo, o uso é o seu efeito e obra e como um campo ou teatro de seu exercício, e como a afeição não existe sem o seu sujeito, assim também a afeição da vida do homem não existe sem o uso. E como a afeição e o uso fazem um só, também a qualidade do homem, que é a afeição, é conhecida pelo uso, dificilmente e pouco no mundo natural, mas clara e inteiramente no mundo espiritual. Com efeito, o espiritual a revela e a cada uma de suas coisas, pois o espiritual em sua essência é o Divino Amor e a Divina Sabedoria, e em sua essência é como o calor e a luz do céu, que revelam as afeições dos usos assim como o calor do sol do mundo revela os objetos da terra pelos odores e sabores, e como a luz do sol do mundo as revela por suas várias discriminações de calor e de sombra. Que cada homem tenha a vida eterna segundo a afeição de seus usos é porque ela é o homem mesmo e, assim, qual é ela, tal é o homem.
[49] Mas a afeição do uso em geral é de duplo gênero: há a afeição espiritual do uso e a afeição natural do uso. Ambas são semelhantes na forma externa, mas inteiramente dessemelhantes na interna. Por esse motivo elas não são discernidas pelos homens no mundo, mas perfeitamente pelos anjos no céu, porque elas são inteiramente opostas entre si, pois a afeição espiritual do uso dá o céu ao homem, mas a afeição natural do uso, sem a espiritual, dá o inferno. A afeição natural do uso é por causa das honras e ganhos, assim, por causa de si e do mundo como fins, enquanto a afeição espiritual do uso é por causa da glória de Deus e dos usos mesmos, assim, por causa do Senhor e do próximo como fins.
[50] Porque há homens no mundo que desempenham suas funções e ofícios com muita aplicação, labor e ardor – magistrados, encarregados e oficiais – executando-os com muita diligência e operosidade; os sacerdotes, líderes ministros, pregando com ardor como por zelo; os literatos, escrevendo livros cheios de piedade, doutrina e erudição; e os outros semelhantemente, e por esse modo prestam usos insignes à igreja, à pátria, à sociedade e aos concidadãos. E, todavia, muitas dessas coisas eles fazem pela afeição natural somente, que é a fim de serem honrados e elevados em dignidades, ou por causa do mundo, a fim de obterem ganhos e enriquecerem. Em alguns, esses fins acendem de tal modo a afeição de desempenharem usos que, às vezes, eles prestam usos mais notáveis do que aqueles que estão na afeição espiritual do uso. Falei com muitos, depois da morte, quando se tornaram espíritos, que estiveram neste gênero de afeição, os quais então buscavam o céu por causa do mérito. Mas, como tinham feito usos somente pela afeição natural, assim, por causa de si e do mundo, e não por causa de Deus e do próximo, eles tiveram uma resposta semelhante a esta em Mateus:
“Muitos Me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, em Teu nome não profetizamos? e por Teu nome não expulsamos demônios, e em Teu nome fizemos muitas maravilhas (virtutes)? Mas então lhes confessarei: Não vos conheço; apartai-vos de Mim... [vós] que obrais iniquidades” (Mt. 7:22, 23);
e em Lucas:
“Então começareis a dizer: Comemos diante de Ti, e bebemos, e em nossas ruas ensinaste. Mas dirá: Digo-vos, não sei de onde sois; apartai-vos de Mim, obreiros de iniquidade” (Lc. 13:26, 27).
Eles foram examinados quanto ao que tinham sido no mundo e descobriu-se que os seus interiores eram cheios de concupiscências e males daí condensados, os quais em alguns apareceram incendiados pelo amor de si, em alguns lívidos pelo amor do mundo, em outros como que negros pela rejeição das coisas espirituais, e ainda que os exteriores aparecessem níveos e purpúreos pelos usos na forma externa. Por aí se tornou evidente para mim que embora eles tenham desempenhado usos, consigo mesmos não pensaram em outra coisa senão na reputação por causa das honras e dos ganhos, e que estas eram o proprium de seu espírito e, em si, a sua vida; e os bens que praticaram foram ou por causa da aparência de que não eram tais ou somente como meios para esses fins. Estas coisas são a respeito da afeição natural dos usos.
[51] A afeição espiritual do uso, porém, é interna e externa ao mesmo tempo, e quanto mais ela é externa ou natural, mais também é espiritual, pois a espiritual influi na natural e a dispõe em correspondência, assim, à sua imagem. Como, porém, no mundo de hoje se ignora inteiramente o que é a afeição espiritual do uso, e em que ela se distingue da natural, porque elas parecem semelhantes na aparência externa, dir-se-á de que modo ela é adquirida. Ela não é adquirida pela fé, somente, que é a fé separada da caridade, pois essa fé é somente cogitativa, sem o ativo nela. E visto que é separada da caridade, também é separada da afeição, que é o homem mesmo; por isso também, após a morte ela é dissipada como algo aéreo. Mas a afeição espiritual é adquirida por fugir dos males porque são pecados, o que se faz pela luta contra eles. Os males de que o homem deve fugir acham-se descritos, todos, no Decálogo. Quanto mais o homem luta contra eles porque são pecados, mais ele se torna afeição espiritual e assim presta usos pela vida espiritual. Pela luta contra os males são dissipadas as coisas que obsidiam os seus interiores, as quais, como foi dito acima, em alguns aparecem incendiadas, em outros, negras e em outros, lívidas. Assim se abre a sua mente espiritual, pela qual o Senhor entra na mente natural do homem e a dispõe para prestar os usos espirituais, que aparecem como naturais. São estes, e não outros, a quem o Senhor pode dar que O amem acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmos. Se o homem, pela luta contra os males como pecados, adquiriu para si algum espiritual no mundo, por menor que isto seja, ele é salvo, e seus usos crescem, após a morte, como de um grão de mostarda se torna uma árvore. (Segundo as palavras do Senhor em Mateus 13:31, 32; Marcos 4:30-32 e em Lucas 13:18, 19).
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