. [56] XIX. Que amar, na Palavra, seja prestar usos. Que amar, na Palavra, seja prestar usos é porque amar é querer, e querer é fazer. Que amar seja querer foi confirmado logo acima, mas que querer seja fazer, deve ser confirmado aqui. Considerada em si mesma, a vontade não é o amor, mas o seu receptáculo, e um receptáculo tal que não somente recebe o amor, mas também se imbui de seus estados e se reveste de formas segundo estes, porque tudo da vida do homem influi, já que o homem não é vida, mas um recipiente da vida; por conseguinte, ele é um recipiente do amor, porque o amor é a vida. Isto pode ser ilustrado pelos sensórios do homem, porque o olho é o recipiente da luz e não a luz, embora seja formado para receber todas as variedades da luz; o ouvido é o recipiente do som e de suas modulações e articulações, mas não é o som, igualmente aos demais sentidos externos do homem. É semelhante em relação aos sensórios internos, que são modificados e atuados pela luz e pelo calor espirituais; consequentemente, é semelhante em relação à vontade, que é o receptor do calor espiritual, que em sua essência é o amor. Este receptor está em toda parte no homem, mas, em seus princípios, está nos cérebros. Os primeiros, ou princípios, ou cabeças, são as substâncias ali que se chamam corticais e cinerícias. Delas, por meio das fibras como que por meio de raios, desce em toda parte, em todas as coisas da face e em todas as coisas do corpo, e aí gira e circula segundo a sua forma, que é a forma espiritual animal, de que se tratou em outro lugar. Assim são atuadas todas e cada uma das coisas ali, das primeiras às últimas, e nas últimas apresentam os efeitos. É notório que tudo é movido por um esforço, e que, cessando o esforço, cessa o movimento. Assim, todo voluntário da vontade do homem é um esforço vivo no homem, e age nos últimos, por meio de fibras e nervos, que em si não são outra coisa senão um perpétuo esforço continuado nos princípios nos cérebros até os últimos nos corpóreos, onde os esforços se tornam atos. Essas coisas foram citadas para que se saiba o que é a vontade e que ela é o receptáculo do amor, num perpétuo esforço de agir, que é estimulado e determinado nos atos pelo amor que influi e é recebido.
[57] Disto se segue agora que amar, porque é querer, é fazer, pois tudo o que o homem ama, isto ele quer; e o que quer, isto ele faz, se for possível; e, se não o faz, por não ser possível, ainda assim no interior está o ato que não foi manifesto. Com efeito, nenhum esforço ou vontade pode existir no homem a menos que também esteja nos últimos, e quando está nos últimos, está no ato interior, mas esse ato por ninguém é percebido, nem pelo homem mesmo, porque existe em seu espírito. Por isso é que a vontade e o ato são um, e que a vontade é considerada como ato, não tanto no mundo natural, porque aí o ato interior da vontade não aparece, mas no mundo espiritual, onde aparece, pois ali todos agem segundo os seus amores; os que estão no amor celeste agem de modo são, e os que estão no amor infernal, de modo insano; e se não agem, por causa de algum temor, a vontade deles está interiormente ativa, a qual é coagida por eles a fim de que não irrompa, e tampouco essa ação cessa, a não ser ao mesmo tempo que a vontade. Como, pois, a vontade e o ato são um, e a vontade é o esforço do amor, segue-se que na Palavra por ‘amar’ não se entende outra coisa senão fazer; assim, por ‘amar o Senhor e amar o próximo’ se entende prestar usos ao próximo pelo amor que vem do Senhor. Que seja assim o Senhor mesmo ensina em João:
“Quem tem os Meus preceitos e os pratica, esse é o que Me ama; quem, todavia, não Me ama, não guarda as Minhas palavras.” (Jo. 14:21, 24);
no mesmo:
“Permanecei no Meu amor. Se guardardes os Meus mandamentos, permanecereis no Meu amor” (Jo. 15:9, 10);
e no mesmo:
O Senhor disse três vezes a Pedro: “Amas Me?” e três vezes Pedro disse que amava. A ele o Senhor disse três vezes: “Apascenta os Meus cordeiros, e as Minhas ovelhas” (Jo. 21:15-17).
Além disso, há duas coisas que não podem ser separadas; essas duas são o ser e o existir. O ser não é coisa alguma a menos que exista, e se torna alguma coisa pelo existir. Assim também é com o amar e o fazer, ou com o querer e o agir, pois amar e não fazer, e querer e não agir, não existem, porque não têm existência, mas existem pelo fazer e pelo agir. Por isso, quando o homem faz e age, então o amor e a vontade existem pela primeira vez. Assim, e não de outro modo, ama-se o Senhor e ama-se o próximo.
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