- As explicações dêste Capítulo acrescentarei êstes Memoráveis. Primeiro Memorável (N. 65). Na Plaga setentrional superior perto do Oriente, no Mundo Espiritual, há lugares de, instrução para as crianças, para rapazes, e para homens adultos, e também para os velhos; todos os que morrem na infância, são enviados para êstes lugares, e sua educação se faz no Céu; para lá também são enviados todos os recém chegados do Mundo, e que desejam conhecimentos sobre o Céu e sobre o Inferno; esta Região fica perto do Oriente, para que todos sejam instruídos pelo influxo procedente do Senhor; pois o Senhor é o Oriente porque está lá no Soe que por Êle é o Amor; daí o Calor deste Sol é em sua essência o Amor, e a Luz que dele procede é em sua essência a Sabedoria; estas duas cousas procedentes dêste Sol são inspiradas pelo Senhor aos que são instruídos, e são inspiradas segundo a recepção, e a recepção é segundo o amor de ser sábio. Após o tempo de instrução, os que se tornaram inteligentes são despedidos e chamados discípulos do Senhor; são primeiro enviados dai para o Ocidente, e os que não ficam nesta plaga, são enviados pelo Meio-Dia para o Oriente, e são introduzidos nas Sociedades que devem ser suas moradas. Um dia, quando meditava sobre o Céu e o Inferno, comecei a desejar um conhecimento universal sobre o estado de um e de outro, sabendo que aquele que conhece os universais pode em seguida apreender os singulares, porque êstes estão naqueles como as partes no comum. Neste desejo, dirigi meus olhos para esta Região da plaga setentrional perto do Oriente, onde estavam os Lugares de instrução; e, por um caminho que me foi então aberto fui para lá, e entrei em um Colégio onde estavam rapazes, e me dirigi aos principais Mestres que instruíam, e lhes perguntei se conheciam universais sobre o Céu e sobre o Inferno; e responderam: "Conhecemos pouco; mas se olharmos do lado do Oriente para o Senhor, seremos ilustrados e saberemos". E olharam do lado do Oriente para o Senhor, e disseram: "Há três Universais do Inferno; mas os Universais do Inferno são diametralmente opostos aos Universais do Céu; os Universais do Inferno são êstes três Amores: 0 Amor de dominar pelo amor de si; o Amor de possuir os bens dos outros pelo Amor do Mundo; e o Amor escortatório; os Universais do Céu que lhes são opostos, são êstes três Amores: o Amor de dominar pelo Amor do uso; o Amor de possuir os bens do Mundo pelo Amor de fazer usos por estes bens; e o Amor verdadeiramente Conjugal". Depois destas palavras e um voto de paz, fui embora e voltei para casa. Quando cheguei em casa, me foi dito do Céu: "Examina êstes três Universais por cima e por baixo, e em seguida veremos em tua mão". Foi-me dito: "Em tua mão", porque todas as cousas que o homem examina pelo entendimento aparecem aos Anjos como inscritas nas mãos. E, por isso que, no Apocalipse, se diz receber um sinal sobre a fronte e sobre a mão (Cap. 13, 16; 149, 9; 20, 4). Imediatamente, examinei o Primeiro Amor universal do Inferno, que era o Amor de Dominar pelo Amor de si, e em seguida o Amor universal do Céu que lhe corresponde, isto é, o Amor de dominar pelo Amor dos usos; com efeito, não me foi permitido examinar um dêstes amores sem examinar o outro, porque o Entendimento não percebe um sem o outro, pois eles são opostos; por isso, para que um e outro sejam percebidos devem ser postos em oposição, um contra o outro; pois uma face bela e regular brilha com fulgor quando se lhe opõe uma face feia e disforme. Quando examinei bem o Amor de dominar pelo amor de si, me foi dado perceber que êste Amor era infernal no supremo grau, e por conseguinte está nos que estão no Inferno mais profundo; e que o Amor de dominar pelo amor dos usos era celeste no supremo grau, e por conseguinte está nos que estão no Céu supremo. Se o Amor de dominar pelo Amor de si é infernal no supremo grau, é porque dominar pelo amor de si é dominar pelo próprio; ora o próprio do homem e de nascença o mal mesmo, e o mal mesmo é diametralmente contra o Senhor; é por isso que quanto mais se faz progressos neste mal, mais se nega Deus e as cousas santas da Igreja e mais se adora a si mesmo e a natureza; os que estão neste mal examinem isso neles, eu lhes peço, e verão: Este amor é tal que, quanto mais se lhe afrouxam as rédeas, o que acontece quando o impossível não lhe opõe obstáculos, tanto mais êle se lança de grau em grau, até ao mais alto; e não se limita a isso, mas se não há um grau mais elevado, se queixa e geme. Este amor, nos Políticos sobe ao ponto de quererem ser Reis e imperadores; e, se possível dominar sobre o mundo inteiro, e serem chamados reis de reis e imperadores de imperadores; e, nos Eclesiásticos, êste mesmo Amor sobe a um tal ponto, que quereriam ser deuses, e tanto quanto possível dominar sobre o Céu inteiro, e ser chamados deuses. Que nem uns nem outros reconhecem de coração Deus algum, ver-se-á no que segue. Mas, ao contrário, os que querem dominar pelo amor dos usos, querem dominar não por eles mesmos, mas pelo Senhor, porque o amor dos usos vem do Senhor, e é o Senhor mesmo; êstes não encaram as dignidades senão como meios para fazer usos; colocam os usos bem acima das dignidades, enquanto que os primeiros colocam as dignidades acima dos usos.
Quando eu meditava sobre êste assunto, me foi dito por um Anjo pelo Senhor: "Agora tu vais ver, e pela vista te confirmarás o que é o Amor infernal". E então a terra se abriu de repente à esquerda, e vi subir do Inferno um diabo com a cabeça coberta por um boné quadrado enterrado sobre a testa até aos olhos, com a face cheia de pústulas como as de uma febre ardente, com os olhos esgazeados, com o peito intumescido; da boca lançava fumaça como uma fornalha, seus lombos eram inteiramente ígneos; em lugar de pés havia calcanhares ósseos sem carne, e de seu corpo se exalava um calor infecto e imundo. A sua vista fiquei horrorizado, e lhe gritei: "Não te aproximes! Diz-me donde és". E ele respondeu com uma voz rouca: "Sou dos infernos, e aí moro com duzentos outros em uma Sociedade, que é a mais eminente das sociedades; lá somos todos imperadores de imperadores, reis de reis, duques de duques, e príncipes de príncipes; ninguém lá é simplesmente imperador, simplesmente rei, duque, príncipe; estamos lá sentados sobre tronos de tronos, e de lá enviamos nossas ordens sobre todo o Globo, e além". Então lhe disse: "Não vês que a fantasia de preeminência te faz desarrazoar?" Respondeu-me: "Corno podes falar assim? Pois nós nos vemos a nós mesmos corno tais, e somos também reconhecidos como tais por nossos companheiros". A esta resposta, não quis lhe dizer de novo: Tu desarrazoas; porque a fantasia o fazia desarrazoar; e me foi dado conhecer que êste diabo, quando vivia no Mundo, tinha sido somente intendente de uma casa, e que então tinha se ensoberbecido em seu espírito ao ponto de desprezar todo o gênero humano comparando-o consigo, e se comprazendo na fantasia de que era mais capaz do que um rei, e mesmo mais capaz do que um imperador; por êste orgulho tinha negado Deus, e considerado tôdas as coisas santas da Igreja como nada para êle, mas como de alguma utilidade para a populaça estúpida, por fim lhe disse: "Vós sois lá duzentos, quanto tempo vos glorificais assim entre vós?" Disse: "Eternamente; mas aqueles de nós que atormentam os outros, porque negam nossa preeminência, são engolido, pois é permitido nos glorificarmos, mas não fazer mal a quem quer que seja". Fiz-lhe ainda esta pergunta: "Sabes qual é a sorte dos que são engolidos? "Respondeu-me: "Caem em uma espécie de prisão, onde são chamados mais vis do que os vis, ou os mais vis; e trabalham". Então disse a este diabo: "Toma cuidado para não seres também engolido".
Depois disso a terra se abriu de novo: mas à direita; e vi subir um outro diabo, sobre cuja cabeça havia uma espécie de Tiara cercada com as roscas de uma espécie de cobra cuja cabeça brilhava no alto; a sua face era coberta de lepra desde a testa até ao queixo, e também uma e outra mão; os seus lombos estavam nus e enegrecidos como fuligem, e os calcanhares de seus pés eram como duas víboras; o primeiro diabo tendo-o percebido, se lançou de joelhos e o adorou; perguntei-lhe: "Por que fazes isso?" Disse: "Este é o Deus do Céu e da terra, e é onipotente". E então eu disse ao outro diabo: "Tu, que dizes a isso?" Respondeu: "Que direi? Todo poder sobre o Céu e sobre o Inferno é meu; a sorte de tôdas as almas está na minha mão". Perguntei-lhe de novo: "Como êste, que é imperador de imperadores, pode se submeter assim? E tu, como podes receber sua adoração?" Respondeu: "E' entretanto meu servidor; o que é um imperador diante de um Deus? Tenho na minha destra o raio da excomunhão". E então lhe disse: "Como podes desarrazoar assim; no Mundo não eras mais que um cônego; e porque foste atormentado pela fantasia de que tinhas as chaves, e por conseguinte o poder de ligar e de desligar, levaste teu espírito a um tal grau de loucura, que agora te acreditas ser Deus mesmo". Indignado com estas palavras, jurou que o era, e que o Senhor não tem poder algum no Céu; pois, acrescentou, transportou todo poder para nós; não temos mais do que ordenar, e o Céu e o Inferno obedecem respeitosamente; se enviamos alguém ao inferno, os diabos imediatamente o recebem; do mesmo modo os Anjos recebem aquele que enviamos ao Céu". Em seguida lhe perguntei: "Quantos sois em vossa sociedades?" Disse: "Trezentos; e todos, lá, somos deuses, mas eu sou o deus dos deuses". Depois disso a terra se abriu sob os pés de um e de outro, e eles caíram profundamente em seus infernos; e me foi dado ver que sob seus infernos havia prisões onde caíam os que faziam mal aos outros; com efeito, no inferno a fantasia de cada um lhe é deixada, e mesmo a mania de se glorificar, mas não é permitido fazer mal a outrem; se lá são assim é porque então o homem está em seu espírito, e o espírito, depois de ter sido separado do corpo, entra na plena liberdade de agir segundo suas afeições e segundo os pensamentos que delas provêm. Em seguida me foi permitido olhar para seus infernos; e o inferno onde estavam os imperadores dos imperadores e os reis dos reis estava cheio de cousas imundas, e os que o habitavam me pareceram como diversas bestas ferozes, com olhos ameaçadores; do mesmo modo no outro inferno onde estavam os deuses e o deus dos deuses, e neste vi voar em torno deles ferozes aves noturnas, que são chamadas ochim e ijim; é assim que a imagem de suas fantasias me era apresentada. Por aí vi claramente qual é o amor de si nos Políticos, e qual é o amor de si nos Eclesiásticos; que êste consiste em quererem ser deuses, e aquele em quererem ser imperadores; e que é isso que eles querem, e a isso aspiram, tanto quanto são afrouxados os freios a seus amores.
Depois de ter visto estes tristes e hediondos espetáculos, dirigi olhares em torno de mim, e vi não longe de mim dois Anjos em pé e conversando um com o outro; um estava vestido com uma roupa de lã resplandecente de uma cor púrpura inflamada, e tinha sob esta roupa uma túnica de linho de uma brancura deslumbrante; o outro tinha vestimentas semelhantes em escarlate, com uma tiara, cujo lado direito, era enriquecido com al-guns carbúnculos; aproximei-me dêles, e lhes dei a saudação de paz; e lhes fiz com um tom respeitoso esta pergunta: "Por que estais aqui em baixo?" E responderam: "Descemos aqui por ordem do Senhor, para conversar contigo sobre a sorte feliz daqueles que querem dominar pelo amor dos usos; nós somos adoradores do Senhor, eu, príncipe de uma Sociedade; êle sumosacerdote da mesma sociedade". E o Príncipe disse que era o -servidor de sua sociedade, porque a servia fazendo usos; e o outro disse que era ministro da Igreja, porque servia seus consociados fazendo-os conhecer as cousas santas para os usos de suas almas; que estavam, todos os dois, em perpétuas alegrias provenientes da felicidade eterna que está neles pelo Senhor; e que nesta sociedade tudo é resplandecente e magnífico, resplandecente pelo ouro e pelas pedras preciosas, e magnífico pelos palácios e pelos paraísos; e acrescentaram: "Isto provém de que o nosso amor de dominar procede, não do amor de si, mas do amor dos usos; e como o amor dos usos vem do Senhor, por isso todos os bons usos nos Céus resplandecem e brilham com esplendor; e como em nossa sociedade estamos todos nesse amor, por isso a atmosfera aí aparece cor de ouro pela luz que lá participa do inflamado do Sol, e o inflamado do, Sol corresponde a êste amor". Depois que pronunciaram estas palavras, vi também em torno dêles uma semelhante esfera, e senti um odor aromático que dela saía; eu lhes disse mesmo, e lhes pedi para acrescentar alguma coisa mais além do que tinham dito do uso; e eles continuaram, dizendo: "As dignidades era que estamos, nós as ambicionamos, é verdade, mas não foi para nenhum outro fim senão o de poder fazer mais plenamente usos e os estender mais amplamente; e somos mesmo cercados de honra, e as aceitamos, não por nós, mas para o bem da sociedade; pois nossos confrades e consocio dos que são da multidão apenas sabem outra cousa, senão que as honras de nossas dignidades são nossas, e que em conseqüência os usos que fazemos são nossos; mas nós sentimos diferentemente, sentimos que as honras das dignidades estão fora de nós, e que são como roupas de que nos revestimos, mas que os usos que desempenhamos procedem do amor dos usos em nós pelo Senhor; e este amor recebe sua beatitude da comunicação com outros por meio dos usos; e sabemos por experiência, que quanto mais fazemos os usos pelo amor dos usos, tanto mais êste amor aumenta, e com o amor da sabedoria pelo qual se faz a comunicação; mas quanto mais retemos erra nós os usos e não os comunicamos, tanto mais perece a beatitude; e então o uso se toma como um alimento encerrado no estômago, e que, não se tendo dispersado aqui e ali, não alimenta nem o corpo nem as partes do corpo, mas fica sem ser digerido, de ande resulta o vômito; em uma palavra, todo o Céu não é mais do que o continente do uso desde seus primeiros até seus últimos. 0 que é o uso, senão o amor atual do próximo? e o que é que mantém os Céus se não é este amor? Depois de ter ouvido estas explicações, fiz esta pergunta: "Como alguém pode saber se faz os usos pelo amor de si, ou pelo amor dos usos? todo homem, seja bom, seja mau, faz usos, e faz usos por um amor; suponha-se que no Mundo haja uma Sociedade inteiramente composta de diabos, e uma Sociedade inteiramente composta de Anjos; e creio que os diabos, em sua sociedade, farão pelo fogo do amor de si e pelo esplendor de sua glória, tantos usos como os Anjos na sua; quem pois pode saber de que Amor e de que origem provêm os usos?" A isto os dois Anjos responderam: "Os diabos fazem usos para eles mesmos e para sua reputação, a fim de serem elevados a honras, ou para adquirir riquezas; mas os Anjos fazem usos, não por tais motivos, mas pelos usos por amor dos usos; o homem não pode discernir êstes usos, mas o Senhor os discerne; quem crê no Senhor, e foge dos males como pecados, faz usos pelo Senhor; mas quem não crê no Senhor, e não foge dos males como pecados, faz usos por si mesmo e para si mesmo; está aí a distinção entre os usos feitos pelos diabos e os usos feitos pelos Anjos". Os dois Anjos tendo assim, falado, foram embora; e de longe foram vistos levados por una carro de fogo como Elias, e elevados para seu Céu.
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