VRC &695

A Verdadeira Religião Cristã
Emanuel Swedenborg
Contendo toda a teologia da Nova Igreja

- Quarto Memorável (N. 73). Hoje, a maior parte dos que acreditam na vida depois da morte, acreditam também que no Céu seus Pensamentos não serão senão pensamentos de Devoção, suas Palavras senão Preces, e que uma e outras com a expressão da face e os atos do corpo não serão senão Glorificações de Deus, que assim suas Casas serão outras tantas Casas de Culto ou Capelas sagradas, e que por conseqüência todos se tornarão Sacerdotes de Deus. Mas posso afirmar que lá as cousas santas da Igreja não ocupam mais as Mentes e as Casas do que no Mundo ande Deus é celebrado por um culto, ainda que lá o culto seja mais puro e mais interior, que porém as diversas cousas que concernem à Prudência civil, e as que concernem à Erudição racional, aí se encontram em sua excelência. Um dia, fui elevado ao Céu, e conduzido a uma Sociedade onde havia Sábios que, nos Séculos antigos, tinham se avantajado em erudição por suas vigílias e suas meditações sobre as coisas que concerniam à razão e ao mesmo tempo ao uso, e que estavam agora no Céu, porque tinham crido em Deus e agora criam no Senhor, e porque tinham amado o próximo como a eles mesmos; e em seguida fui introduzido em sua Assembléia, e aí me perguntaram donde eu era; e eu lhes declarei que pelo Corpo estava no Mundo natural, e pelo Espírito em seu Mundo espiritual; ouvindo isto,, êstes Anjos ficaram muito contentes, e me disseram: "No Mundo onde estás pelo corpo que se sabe do Influxo, e que se estende por isso?" E então, depois de ter reunido o que eu tinha aurido nos discursos e nos escritos de autores célebres, respondi que não se conhece ainda Influxo algum do Mundo Espiritual no Mundo natural, mas que se fala do Influxo da natureza nas cousas provenientes da natureza, por exemplo, do Influxo do Calor e da, Luz do Sol nos Corpos animados, como também na Arvore e nos arbustos, donde provém a vivificação de uns e outros, e reciprocamente do Influxo do frio nestes mesmos seres, donde provém seu estado de morte; além disso, o influxo da luz nos olhos, donde ,resulta a vista, do influxo do som nos ouvidos, donde resulta a audição, do influxo do odor nas narinas, donde resulta o olfato, e assim por diante. Além disso, os Eruditos dêste século raciocinam de diversas maneiras sobre o influxo da Alma no Corpo e do Corpo na Alma, e são divididos sobre este assunto, em três partidos, a saber: Se há um influxo da Alma no Corpo, influxo que chamam Ocasional, pela ocasião dos incidentes sobre os sentidos do corpo; ou se há um influxo do Corpo na Alma, influxo que chamam Físico, porque os objetos ferem os Sentidos e pelos sentidos a Alma; ou se há um Influxo simultâneo e instantâneo do Corpo ao mesmo tempo da Alma, influxo que chamam Harmonia pré-estabelecida; todavia, cada um pensa de seu influxo que ele existe dentro da Natureza; alguns acreditam que a Alma é uma partícula ou gota de Éter; outros, que é um glóbulo ou uma parcela de Calor e de Luz; outros, que é uma espécie de ser (ens) que permanece escondido no cérebro; entretanto seja o que for que para eles é a Alma, eles o chamam espiritual, mas pelo espiritual entendem um natural mais puro, pois nada sabem do Mundo espiritual, nem do Influxo desse Mundo no Mundo natural, por isso permanecem dentro da esfera da Natureza; e, colocados nesta esfera, sobem e descem, e se elevam nela como as águas no ar, e os que permanecem na Natureza são como os indígenas de uma ilha, no meio do mar, que não sabem que existem outras regiões além Me sua ilha; são também como os peixes de um rio, que não sabem que acima de suas águas há o ar; é por isso que, desde que se diz que além de seu Mundo existe um Mundo que lhe é distinto, onde habitam os Anjos e os Espíritos, e de onde provém todo o influxo nos homens, e também um influxo interior nas árvores, ficam inteiramente surpresos como se ouvissem contar aparições de espectros, ou tolices de Astrólogos. Exceto os Filósofos, os homens de hoje sobre o Globo, onde estou pelo Corpo, não pensam e não falam de nenhum outro influxo senão do Influxo do vinho em seus copos, do influxo dos alimentos e das bebidas em seu ventre, e do gosto, na língua, e talvez tenham do Influxo do ar no pulmão; e assim por diante; mas se êstes ouvem dizer alguma cousa do Influxo do Mundo espiritual no Mundo natural, dizem: "Que êle influi, se influi, para que serve saber isso? e que proveito se tira daí?" E vão embora; e mais tarde quando falam do que ouviram dizer dêste Influxo, divertem-se, como algumas pessoas se divertem com bolinhas entre os dedos.
Em seguida tive com os Anjos uma conversa sobre as Maravilhas que devem sua existência ao influxo do Mundo espiritual no Mundo natural; por exemplo, sobre as das lagartas quando se tornam borboletas, depois sobre as das abelhas e das vespas, e sobre as maravilhas do bicho-da-seda, e também sobre as das aranhas, e sobre o que os habitantes da terra atribuem à luz e ao calor do sol, e também à Natureza; e, o que muitas vezes me surpreendeu, por estas maravilhas eles se confirmam pela Natureza, e pelas confirmações pela Natureza, introduzem em suas mentes o sono e a morte, e se tornam Ateus. Em seguida falei das maravilhas dos vegetais, no fato delas se seguirem tôdas em uma ordem regular desde a semente até a novas sementes, absolutamente como se a terra soubesse ajustar e acomodar seus elementos ao prolífico da semente, fazer sair dele o germe, prolongá-lo em haste, tirar da haste ramos, revesti-los de folhas, orná-los em seguida de Ares, e dos interiores das flores fazer sair e produzir frutos, e por êstes sementes como posteridade, a fim de que o vegetal renasça; mas como estas cousas por um aspecto continuado e por um perpétuo retorno se tornaram familiares, ordinárias e comuns, são encaradas não como maravilhas, mas como puros efeitos da natureza; e as julgam assim pela única razão de que ignoram que há um Mundo espiritual, e que êste Mundo pelo interior opera e aciona tôdas e cada uma das cousas que existem e são formadas no Mundo da natureza, e sobre a Terra natural, e age do mesmo modo que a mente humana nos Sentidos e nos Movimentos do Corpo, e que todas as cousas da Natureza são como túnicas, bainhas e camisas que envolvem coisas espirituais que produzem os mais próximos efeitos correspondentes ao fim que se propôs o Deus Criador.

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